Pai de todos os apagões melou festa de Sinatra

Lado bom do blecaute de 1965 nos EUA é que inspirou filmes, TV, literatura, música

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2009 | 03h00

Antes que a luz apague outra vez, uma constatação: que pé-frio é a Madonna, hem?

Um ano atrás, ela nos trouxe um toró; agora, um apagão. Da outra vez, levou um tombo no palco do Maracanã; agora, só nós perdemos: o hotel que a hospedou em Ipanema tem gerador próprio. Seu bem-bom foi total. Até proteção policial intensiva, à custa do contribuinte carioca, lhe deram.

Quando aqui cantou, em 1980, Frank Sinatra não só não escorregou no palco do Maracanã como fez a chuva parar antes de entrar em cena. Ao contrário de Madonna, Sinatra era bom de chuva, mas não de blecaute. De certo modo, ninguém sofreu mais do que ele durante o apagão de 9 de novembro de 1965, o mais célebre da história de Nova York.

Nosso apagão de terça-feira afetou mais Estados (18) e gente (60 milhões) que o de Nova York (sete Estados e 25 milhões de pessoas). Este, no entanto, durou muito mais: 12 horas. Nenhuma autoridade americana responsabilizou São Pedro, Chaac ou qualquer outro mandachuva divino, como fez o nosso patético ministro de Minas e Energia, pois lá cedo se descobriu que a pane nas linhas de transmissão fora provocada por falha humana e não por intempéries, e muito menos pelos óvnis que, na noite do sinistro, haviam sido avistados na região por meia dúzia de lunáticos.

Ainda que aquela tenha sido, paradoxalmente, a noite menos conturbada, menos violenta de Nova York em muitos e muitos anos, alguns danos o blecaute causou. A maioria das estações de TV e rádios FM saiu do ar; a edição do dia seguinte do New York Times, com apenas dez páginas, precisou ser rodada na gráfica de um jornal de Newark, não afetada pelo apagão; e o festão que Sinatra patrocinava, no último andar de um arranha-céu de Manhattan, melou, literalmente.

Com o gerador do prédio avariado, o cantor e seus convidados ficaram ilhados, às escuras, suando em bicas e, por fim, à míngua de gelo. Não há "king of the hill" que resista a um apagão, calamidade cuja única virtude, como a de tornados, tsunamis e terremotos, é ser democrática. Em questão de horas, um dos mais poderosos homens da América descobriu-se tão vulnerável e frágil quanto os comuns mortais que no asfalto tentavam se guiar pelos faróis dos carros. A festa de Sinatra foi o melhor lide que qualquer reportagem menos superficial sobre aquele blecaute podia ter.

Tema de uma comédia sem graça, Onde Estavas quando as Luzes se Apagaram?, produzida em 1968, referência iterativa na balada Massachusetts (dos Bee Gees), ocasional em diversas telesséries e fundamental naquele thriller com Joan Crawford (Retrato de um Pesadelo) que chamou a atenção de Hollywood para o talento do novato Steven Spielberg, o apagão de novembro de 1965 renderia ainda duas inserções no romance Underground, de Don DeLillo, publicado em 1997 e aqui traduzido pela Companhia das Letras, com o título de Submundo.

Sinatra aparece em Submundo; não em sua festa azedada pelo blecaute, mas 14 anos antes, em 3 de outubro de 1951, como um dos espectadores vips de uma histórica conquista do campeonato de beisebol pelos Dodgers, numa final dramática contra os Giants, também assistida por J. Edgar Hoover, Walter Winchell, Jackie Gleason e outras celebridades da época. É durante aquela final que tem início o romance pós-moderno de DeLillo, narrado de forma não-linear, com idas e vindas no tempo e temas interconectados sobre a América e as crises (corrida nuclear, a crise dos mísseis com Cuba e a União Soviética, etc.) confinadas entre as últimas cinco décadas do século passado.

Em duas partes do capítulo 5, Nick Shay, o ficcional protagonista do romance e seu narrador, enfrenta o apagão de 1965. O breu o surpreende num bar do East Side, onde encontra um velho amigo de infância do Bronx e de onde parte, a pé, para um hotel do outro lado de Manhattan. No meio do caminho, Nick entra num restaurante iluminado a velas, em que se vê obrigado a dividir uma mesa com um intelectual que associa o apagão à cena de abertura de um velho filme de Hitchcock, da fase inglesa, Sabotage (O Marido Era o Culpado), com a cidade de Londres imersa, de repente, num blecaute arquitetado por um grupo de sabotadores estrangeiros.

O apagão de terça-feira me trouxe mais rapidamente à memória o livro de DeLillo do que Sabotage ou o romance (de Joseph Conrad) que inspirou Hitchcock. Há uns dez anos que sonho com a possibilidade de um ficcionista brasileiro tentar repetir a proeza de Submundo, cobrindo, eventualmente, o mesmo período balizado por DeLillo. Não precisava começar com a final da Copa do Mundo, em 1950, mas, se alcançasse os dias de hoje, poderia ter mais do que duas episódicas referências ao apagão dessa semana e à crise energética do governo FHC. E às visitas de Sinatra e Madonna, claro.

Um dos capítulos poderia até intitular-se Nós Temos certeza de que não Vai Ter Outro Apagão, justo tributo à promessa feita há 17 dias pela ministra Dilma Rousseff, cuja presença no romance seria amplamente maior do que a de todos os vips que desfilam pelas páginas de Submundo. E, sem dúvida, bem maior do que a do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que, afinal de contas, de energia nada entende e, de Minas, só o queijo homônimo, se tanto.

Na hipótese de uma abertura triunfalista, para fazer pendant com a vitória dos Dodgers sobre os Giants, no prólogo de Submundo, a festa da última quinta-feira seria uma opção mais do que adequada. Refiro-me ao palanque armado pelo governo para, formalmente, anunciar a queda no índice de desmatamento da Amazônia e, efetivamente, promover a candidatura da ministra à sucessão de Lula, conferindo-lhe feitos que, como é sabido em qualquer igarapé, pertencem ao currículo da senadora Marina Silva.

Avançando no tempo, e pondo a imaginação para trabalhar em compasso petista, o romance poderia terminar na partida final da próxima Copa, na África do Sul, com a ministra erguendo bem alto no gramado a Taça do Mundo, por sugestão de seu mais graduado cabo eleitoral, aos gritos de "O hexa é nosso!"

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