Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Palestras da Nobel de Literatura Toni Morrison são reunidas em livro

'A Origem dos Outros' fala sobre o absurdo do preconceito, que ela viveu na pele

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

01 de fevereiro de 2020 | 16h00

Toni Morrison é a única escritora afro-americana engastada no cânone dos EUA, e a única mulher negra a receber o Nobel de Literatura (sem falar no Pulitzer e outras honrarias gourmets). Nascida Chloe Ardelia Wolford, morreu em 2019, aos 88 anos. “Toni” vem da conversão dela ao Catolicismo, e “Morrison” do maridão. Como disse Miles Davis: “Às vezes leva um tempão para você se parecer consigo mesmo.” 

Se a vida é uma corrida de obstáculos para fazer coincidir existência com essência, a obra de Morrison xereta a barreira da alteridade e da discriminação. Como em A Origem dos Outros, compilação de palestras que disseca o racismo com tal acuidade que exuma e recauchuta o aforismo sartreano “O inferno são os outros” – o qual, de tão batido, tinha degenerado numa platitude exangue.     Em 2003, com o mapeamento do genoma humano, os cientistas lacraram: o conceito de “raça” não passa de abobrinha obsoleta – uma noção social, nada científica. Todos evoluímos a partir das tribos que migraram da África há 100 mil anos e povoaram o mundo.

Traços usados para distinguir uma raça da outra se reduzem a variações ditadas por um ínfimo número de genes, reagindo a pressões ambientais. Populações equatoriais desenvolveram pele escura como proteção contra a radiação ultravioleta, enquanto a galera nórdica assumiu uma pele pálida, para produzir vitamina D sob aquele solzinho anêmico. A porcentagem de genes que se reflete na aparência externa é literal e figurativamente epidérmica: míseros 0,01 por cento. Para todos os efeitos, um SS e um rabino são gêmeos – menos na humanidade, claro.

Infelizmente, o cérebro humano tende a exagerar diferenças superficiais dos respectivos invólucros, confundindo alhos com bugalhos e entronizando a miragem tóxica da “raça”. Os gregos e romanos antigos não adotavam tal conceito, classificando as pessoas por etnias ou classe social. Na Atenas clássica, eram excluídos da cidadania plena as mulheres, os estrangeiros e os escravos (de origem europeia, prisioneiros de guerra). A escravidão associada à raça é relativamente recente. Em 1790, os cidadãos dos EUA foram definidos como “homens brancos livres” – ou seja, excluindo os brancos que eram servos. Já em meados do século 19 os brancos americanos eram todos livres, e os escravos de ascendência africana. Só em 1964 a aprovação da Lei dos Direitos Civis eliminou nos EUA a discriminação legal por raça.

A ficção de Toni Morrison (como a de Primo Levi) consegue coar beleza e sublimidade do horror e do grotesco, delineando anseios, compaixão, esperança desesperada, ódio do bem e ódio do mal, ingenuidade cretina e inocência aviltada – um ethos sempre dilacerado. Como Morrison professa, “escrevo sem o olhar branco, mas há muitos brancos em meus livros.” Como ela não vê a vida em preto e branco, sua obra jamais descamba no panfleto datado, mas em 50 mil tons de cinza. 

Morrison sempre chutou todos os baldes. Cutucada sobre implicações homoeróticas no romance Sula, espumou: “Se eu quisesse escrever sobre amor lésbico, você não acha que teria feito isso?” (O que me lembra Beckett sobre seu texto mais famoso: “Se eu soubesse quem é Godot, tinha dito na peça!”) Daí que Morrison rejeite respeitosamente comparações com Maya Angelou e Alice Walker: “A mulher negra não é menor do que ninguém, nem como mulher nem como negra, mas não quero ser confinada a uma estreiteza rejeitada por outras identidades.” Daí, também, sua influência ampla. Claro que antes houve Ralph Ellisson, Richard Wright, James Baldwin – mas sem Morrison não existiriam Colson Whitehead, Teju Cole, Paul Beatty.

Além da ficção, Morrison foi professora em Princeton, editora na Random House e ensaísta. As palestras de A Origem dos Outros, proferidas em Harvard, abordam fronteiras, memória e literatura (incluindo Hemingway e Faulkner). Uma obra para ler depois desta é Playing in the Dark, Whiteness and the Literary Imagination – em ambas, a autora se interroga o que risca a linha entre “nós” e “eles”.     Morrison sabe que “raça” é uma astúcia do poder, para legitimá-lo, para (com trocadilho) branqueá-lo. Mas mesmo ela às vezes fica com o saco cheio de bater a vida inteira na mesma tecla: “Não há realmente mais nada a dizer, exceto o ‘porquê’. Contudo, como é difícil lidar com isso, é preciso se refugiar no ‘como’”. 

Assim, na obra-prima Amada (embora Harold Bloom preferisse A Canção de Solomon), ela romanceia a história de uma escrava real, que, prestes a ser recapturada, mata seus filhos pequenos (um deles, bebê), pois vivos eles sofreriam muito mais. Em A Origem dos Outros Morrison revela que só leu a biografia da escrava muito depois de acabar o romance. E a realidade era tão excruciante quanto a ficção: Margaret Garner foi absolvida, na medida em que, enquanto coisa e mercadoria, não tinha consciência e não era responsável pelos seus atos. Por isso mesmo, os abolicionistas queriam que ela fosse condenada à morte. 

Morrison realça, independentemente da cor da pele, ninguém “nasce racista”. É necessária uma dupla desumanização, degradando o objeto do racismo mas também o sujeito dele. Para se proclamarem arianos e postularem a Solução Final, os nazistas decretaram que os judeus eram ‘untermensch’, tão abjetos que se tornam indignos até da escravidão. Eis, segundo Morrison, o raciocínio secreto: “Torturo os diferentes para provar que não sou fraco”. Há, apesar de tudo, o sortilégio taumatúrgico da literatura: “A linguagem pode incentivar, ou mesmo exigir a entrega, a eliminação das distâncias que nos separam, sejam elas continentais ou mesmo um travesseiro, sejam distâncias de cultura ou a distinções ou indistinções de idade ou gênero, sejam elas consequências da invenção social ou da biologia.”

Como crava Morrison, somos todos iguais precisamente porque, por baixo de uma casca tênue, somos todos diferentes: indivíduos com contradições, luzes e sombras, capazes do melhor e do pior. Nas palavras dela: “Raça é a classificação de uma espécie, e nós somos a raça humana, universal e ponto final.” Por falar em ponto final, aquelas me lembram as derradeiras palavra de Goethe: “Luz, mais luz!” É a mesma coisa.

A ORIGEM DOS OUTROS

AUTORA: TONI MORRISON

TRADUÇÃO: FERNANDA ABREU

EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS

152 PÁGINAS

R$ 54,90

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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