Litch Auerbach
Litch Auerbach

Palestras de Bertrand Russell proporcionam companhia na quarentena

Cinquenta anos após a sua morte, a voz de Russell ainda está preservada no YouTube, onde um público de ouvintes em auto isolamento poderá encontrar uma coletânea de seus textos e o tesouro de sua sabedoria

Redação, The Economist

02 de maio de 2020 | 16h00

Entre outras realizações, Bertrand Russell é o único filósofo que fez um álbum com trechos de suas obras. Publicado em 1962, Bertrand Russell Speaking (Bertrand Russell Falando, na tradução em português) foi um dos maiores sucessos das várias entrevistas que ele concedeu.

Os temas variam da ciência e a religião no lado A, à “moralidade e tabu” e “fanatismo” no lado B. Se fosse descoberta no quarto de um adolescente na época, a gravação seria considerada tão escandalosa quanto uma faixa de rock’n’roll. Ocorre que, além de ser um pioneiro da lógica, Russell foi um livre pensador descompromissado – e um dos primeiros defensores do amor livre.

Cinquenta anos após a sua morte, a voz de Russell - um persistente apelo para o dissenso liberal – está preservada no YouTube, onde um público de ouvintes em auto isolamento poderá encontrar uma coletânea de seus textos e o tesouro de sua sabedoria. Com um espírito inesgotável, as gravações falam de matemática, literatura, física atômica e história. Entretendo e improvisando ao mesmo tempo, elas são um delicioso substituto da conversação inteligente que neste momento tanto faz falta.

As histórias pessoais de Russell são os pontos altos. Criado pelo avô que foi por duas vezes primeiro-ministro, ele cresceu no esplendor aristocrata do sistema liberal. Certa vez, em um jantar, o jovem Russell “ficou tete-à-tête” com William Gladstone, o “Grande Homem” da política britânica. “Eu tinha apenas 17 anos e era muito tímido; aquela foi sem dúvida a pior experiência da minha vida", lembrou Russell. “Depois disso, nada mais me aterrorizou”. Ele lembrou que Gladstone disse apenas uma coisa: “Este é um Porto muito bom, mas por que me foi servido em uma taça de clarete?”.

Apesar de sua educação vitoriana, os pontos de vista e o legados de Russell são consideravelmente contemporâneos. Certa vez ele especulou que somente seis pessoas haviam lido a sua obra Principia Mathematica, três das quais foram assassinadas por Hitler; e no entanto o livro estabelecia os fundamentos da ciência da computação. Russell contribuiu para estabelecer a tradição analítica, que rejeitava os grandes dogmas em favor da investigação clara e precisa, e se tornou a base da maioria dos cursos de filosofia. Ele foi um ateu convicto, e usou sua formidável habilidade retórica para perseguir esta causa.

Em um debate transmitido pela BBC em 1948, Russell desafiou Frederick Copleston, um sacerdote jesuíta, em uma das primeiras vezes em que foram expostos ao público ouvinte argumentos filosóficos contra a existência de Deus.

Graças ao YouTube, vocês poderão ouvir mais uma vez o impasse. Copleston, visivelmente irritado e cansado pela obstinação do seu oponente, suplica: “Parece que chegamos a um impasse". “Podemos insistir neste ponto, acho”, Russell responde com atrevimento.

Quando morreu, Russell foi exaltado como “o Voltaire inglês”, um rebelde eclético, cheio de espírito. Como Voltaire, embora poucos dos seus livros sejam publicados ainda, a maioria atualmente acumula poeira. Mas graças à alquimia da internet, a sua voz continua viva. Um ouvinte entusiasmado comentou: “Imagine se este sujeito tivesse um podcast”. O arquivo informal online terá de bastar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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