Rai Cavalhier
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Pandemia faz artistas reinventarem carreiras em novas áreas

Atores de teatro se renderam ao meio audiovisual e até à música para seguirem em frente com palcos vazios

Júnior Moreira Bordalo, Especial para o Estado

01 de julho de 2021 | 10h00

A partir do início da pandemia da covid-19 no Brasil, em fevereiro de 2020, quando medidas restritivas começaram a ser adotadas para evitar a propagação do vírus, a frase “o setor do entretenimento foi o primeiro a parar e será um dos últimos a voltar” passou a ser difundida pelos quatro cantos do País. De sobressalto, parte da classe artística -para sobreviver- buscou adaptação transportando suas atividades já elaboradas para o online. Passado mais de um ano e quatro meses nesta situação, um novo passo de experimentações culturais ganha mais força ao “sacudir” os próprios caminhos anteriores, já que são frutos exclusivos da criatividade pandêmica.

Do mainstream ao underground, os artistas se viram na necessidade de adaptação para seguir com seus ofícios. Músicos se lançaram em transmissões ao vivo e atores carimbados de TV, teatro e cinema encontraram na internet um desafio a ser encarado. A atriz e comediante Denise Fraga estava em cartaz com a peça Eu de Você quando tudo “parou”.

Com o marido, o diretor Luiz Villaça, ela criou um canal no YouTube e fez a websérie Horas em Casa, objetivando abordar os desafios da convivência. "Trouxemos um pouquinho dessa peça para o Horas em Casa que também segue falando de vivências, histórias e experiências da quarentena”, explica a artista na apresentação do projeto. A peça tinha como fio condutor 25 histórias reais de terceiros recebidas pelos dois. O material já rendeu mais de 30 vídeos na plataforma. Confira um deles:

Nesta lógica de recalcular a própria rota artística, dois projetos recentes na Bahia chamaram atenção. O primeiro é A Lagoa das Feiticeiras, “obra cênica virtual” - como foi batizada - que busca contar parte da história de Alagoinhas, cidade localizada a 100 km de Salvador. O município, cercado por lagoas naturais, é conhecido pela qualidade da sua água - motivo que tem atraído diversas cervejarias para a região. Encabeçado pelo dramaturgo e ator Daniel Arcades (responsável pelo sucesso Exu - A Boca do Universo) e com direção de Antônio Marcelo,  o processo mistura teatro, música, performance e artes visuais para narrar o enredo de um babalorixá que, consciente de sua impotência humana para salvar as fontes, rios e lagoas da sua cidade da destruição provocada pela humanidade, invoca as energias femininas do panteão afro-brasileiro para intervir e conduzi-lo nesta luta.

 

“Com a pandemia, entendi que ficaria em casa como não ocorria há cinco anos e pensei que seria o momento em que conseguiria olhar e me dedicar a cidade. A princípio, pensávamos em contar a história de Alagoinhas em formato tradicional no teatro. Readaptamos para o contexto pandêmico e com o avanço da segunda onda, recriei todas as cenas para que não tivéssemos aglomerações; para que as pessoas pudessem gravar dentro de suas próprias casas”, detalha Arcades.

Artista natural dos palcos e com mais de 30 roteiros escritos, ele reitera que o desafio foi construir a linguagem audiovisual, sem que o resultado ficasse totalmente documental. “Entender e estudar o tempo disso, mas sem perder a lógica teatral foi o mais difícil. Não queria que fosse cinema, mas entendia que não podia ter o tempo que estou acostumado com o teatro”, diferencia. Para ele, o ineditismo reverberou em reflexão entre a população. “A grande pergunta é: o que precisamos matar de natureza para que a cidade nascesse? E a total falta de diálogo com isso. É um convite para pensar como a gente constrói por cima algo que já estava construído”. Assista:

 

 

Se no exemplo de A Lagoa das Feiticeiras, o que era para ser no palco foi ampliado e explorado no audiovisual, o segundo caso baiano é do ator Luiz Antônio Sena Jr que no processo de “olhar para dentro” decidiu dar voz a um desejo interno e assumiu a postura de “cantante” - espécie de cantor e atuante - sob o codinome LUI. Conhecido na cena soteropolitana, o artista está em processo de lançamento das músicas do projeto #ÉSóAmor, com foco em questões que englobam a homofobia, como preconceito, ancestralidade, sorofobia e relações homoafetivas. “A pandemia foi fundamental para fortalecer e viabilizar isso.  Acabou tendo uma confluência de interesses e agendas, conseguimos nos aproximar de artistas que queríamos no projeto”, aponta o artista.

 

A primeira faixa divulgada foi a Comigo Ninguém Pode, seguida do single Enredo, participação com o rapper Hiran. Para as próximas semanas, LUI prepara ainda o lançamento de Positivo, É Foda e a releitura de Preciso Dizer que Te Amo, de Cazuza e Bebel Gilberto. “Foi outra forma que encontramos de tocar na desconstrução de estigmas relacionadas ao HIV. Dar outra leitura ao Cazuza que não seja a do corpo que agoniza em praça pública é urgente. Então, conversamos com a família dele e eles liberaram. Vamos fazer como um grande salve ao mestre”, reforça.

 

“A pandemia colocou a gente de frente para o espelho e quando me vi nessa situação, tentei ver o que está estava 'me brilhando'. Teatro sempre vai, mas percebi que a música estava gritando dentro de mim e eu meio sem querer escutar”, confessa. O projeto está sendo produzido por bruno Michel através da Candyall Music, Selo e Editora de Carlinhos Brown. Tanto o EP #ÉSóAmor quanto a obra cênica virtual A Lagoa das Feiticeiras foram executados através do programa Aldir Blanc Bahia, através da Lei Aldir Blanc. 

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