Jim Young/Reuters
Jim Young/Reuters

Papai Romney Sabe Tudo

Descompasso e gafes do candidato republicano parecem trair um estado mental que seus críticos costumam situar na década de 1950, avalia sociólogo americano

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h10

Quando, no debate presidencial da última terça-feira, Mitt Romney se referiu a fichários cheios de mulheres, seu comentário inspirou memes e incontáveis minutos de comédia. O candidato republicano queria mostrar como era a favor da igualdade entre os sexos no trabalho e, para provar isso, disse que tinha acumulado em fichários vários currículos de mulheres capazes de preencher cargos na sua administração no governo de Massachusetts. Além da imagem ridícula, a afirmação era mentirosa, pois uma organização bipartidária é que havia tomado a iniciativa de reunir os currículos antes mesmo de saber quem ia governar o Estado. Para piorar, Romney se gabou de ter deixado uma assessora com filhos cumprir um horário compatível com sua necessidade de ir para casa pilotar um fogão. "E se ela quisesse sair cedo para estudar?", perguntaram, com razão, as mulheres.

A gafe de Romney trai um estado mental que seus críticos costumam situar na década de 1950. Ele parece ter saído de um episódio da série de TV Papai Sabe Tudo. Esse descompasso e a reação online ilustram o que o sociólogo Ruy Teixeira vem estudando: a transformação demográfica dos Estados Unidos, que, independentemente do resultado das urnas no dia 6 de novembro, vai beneficiar o Partido Democrata. Este ano, o censo americano colocou pela primeira vez o número de nascimentos de bebês brancos na minoria. Outro marco registrado em outubro: também pela primeira vez um quinto da população americana não declarou nenhuma afiliação religiosa - o número sobe para um terço entre os menores de 30 anos.

Americano filho de português, Teixeira é fellow do Center for American Progress, em Washington, e autor de The Emerging Democratic Majority (A Maioria Democrática Emergente), lançado em 2002. Em novembro de 2011 ele publicou, com o colega John Halpin, o paper O Caminho para 270, numa referência ao número de delegados do Colégio Eleitoral necessários para eleger o presidente dos Estados Unidos. Os dois autores atualizaram o trabalho em setembro deste ano e confirmaram sua previsão. A eleição de 2012 será decidida pelo novo perfil demográfico americano (que favorece Obama e os democratas) e pelo impacto da Grande Recessão (que favorece Romney).

Um fator que poderia complicar essa equação seria a ideologia - representada pela escolha do vice de Romney, o deputado Paul Ryan, membro de um novo conservadorismo em relação ao déficit público, com o potencial de aumentar o peso da economia na eleição. O aumento das minorias étnicas, especialmente a hispânica, do número de mulheres solteiras com grau de educação mais elevado e da população em centros urbanos, mais a adesão dos chamados millenials - jovens de menos 30 anos - ao eleitorado compõem um quadro no qual, mesmo se Romney conseguir maioria folgada entre eleitores brancos, ele pode perder a eleição. A campanha de Barack Obama, sem a carga da acirrada disputa nas primárias vista no campo republicano, tomou a dianteira na caça ao voto desses segmentos demográficos.

Ruy Teixeira conversou com o Aliás sobre a evolução desse cenário em que, acredita ele, Barack Obama continua líder nas chances de capturar os 270.

Um cá, outro lá

"As pesquisas mostram que democratas e republicanos estão mais distantes um do outro. A afiliação política marca cada vez mais a visão de mundo, e um exemplo importante são as questões culturais. Eu não culpo apenas a mídia, a coisa é mais complexa. Por exemplo, em questões econômicas a população costumava ter uma visão mais ampla; agora os eleitores estão mais agrupados em certas posições. A mídia ajuda na medida em que há uma grande oferta de jornalismo partidário.

Disque-celular

"Nem todas as tradicionais organizações de pesquisa se atualizaram sobre as mudanças de demografia. Por exemplo, 30% dos adultos americanos não têm telefone fixo, e é grande o número de pesquisas que excluem o celular. Há também as chamadas robocalls, que são muito usadas. São chamadas geradas por computador com uma gravação digital. Aqui nos Estados Unidos é ilegal telefonar para celulares por esse método. Então a metodologia já exclui uma parcela expressiva da população. Nós sabemos, por causa de pesquisas já feitas, que usuários exclusivos de celular tendem a votar mais no Partido Democrata, o que já indica uma sub-representação de democratas nas amostras. O fato é que o número de eleitores que atendem as chamadas é cada vez menor e isso continua a ser um desafio para os pesquisadores. Só 10% da população responde às pesquisas.

Pobres de presença

"Os americanos não são contra ajudar os pobres. Mas gostam de pensar que pertencem à classe média ou vão melhorar para chegar lá. Como a classe média é muito ampla, os políticos se dirigem a ela, ainda mais com a economia indo tão mal. É mais fácil falar nos pobres quando a economia vai bem. É fato também que o tema da pobreza poderia ser mais bem introduzido pela mídia, mas a mídia quer seguir o que é eletrizante, escolher os lados do debate. Muito da cobertura hoje é do tipo "um republicano diz que a Terra é plana e um democrata diz que é redonda". Mesmo quando um lado diz besteira, os jornalistas hesitam em expor o que se passa. Essa dinâmica, por exemplo, se reflete no debate sobre o aquecimento global.

Mulher solteira procura

"Se a diferença de sexo favorecer Obama, poderemos atribuir parte de sua vitória às mulheres. Entre as solteiras, por exemplo, especialmente aquelas que possuem curso universitário, o apoio a Obama ainda é de 70%, como aconteceu na eleição de 2008. No entanto, acho que essa questão só vai ter uma resposta quando analisarmos o resultado porque, numa eleição apertada como esta, cada nuance de democracia vai ter seu peso.

O debate em debate

"Os debates vêm tendo importância, é claro, mas não acredito que tenham mudado fundamentalmente a dinâmica da eleição. O fato é que, ao chegar ao primeiro deles, em que foi mal, Obama já apresentava ligeira queda. E a alta de Romney, com a cobertura positiva daquele primeiro debate, já começava a ser erodida antes do segundo. Acho que o debate tende a reforçar uma noção num dado momento da campanha, mas não me parece o fator decisório.

Força hispânica

"O aumento da população latina é boa notícia para os democratas, o apoio deles a Obama está em torno dos 66%. O eleitorado latino cria uma interação inflamável com a população porque a questão da imigração é muito contenciosa, não só a imigração ilegal. Não concordo com os que pensam que os republicanos não souberam atrair os latinos, já que os latinos seriam aliados potenciais do conservadorismo social em questões como o casamento gay. Há uma diferença entre o eleitor latino e o eleitor tradicional anglo-saxão. O latino pode ter opiniões sociais conservadoras, mas elas não decidem seu voto. O que aconteceu no sul é interessante. Estados como Flórida, Carolina do Norte e Virgínia elegeram Obama em 2008, mas neste ano a disputa ali está acirrada, o que não muda o cenário de transformação em direção aos democratas. O Partido Republicano não parece querer se adaptar às mudanças da base eleitoral no sul e um exemplo disso é a intransigência do partido em relação à imigração.

Vitória de Romney, derrota de Romney

"Se os republicanos ganharem, o Tea Party vai ganhar nova energia e Romney pode ter dificuldade de se deslocar para o centro com o atual Congresso. Se Romney perder, ele vai ser alvo de dois tipos de acusação. Primeiramente, será acusado de não ter exibido convicção de direita suficiente. E outros, do establishment tradicional, mais centrista, vão dizer que ele embarcou no radicalismo de direita. Ele não tem como sair vencedor.

Repeteco de 2000

"Naquele ano, quando a vitória de George W. Bush acabou decidida pela Suprema Corte, houve a chamada tempestade perfeita, num Estado com votos decisivos para o colégio eleitoral e uma contagem de votos apertada. Vários fatores teriam que contribuir para uma repetição daquele impasse. É improvável, mas não impossível, porque está eleição será mais apertada do que a de 2008. O problema é esse sistema insano do colégio eleitoral. Se pudéssemos eleger o presidente pelo voto popular, direto, não haveria esse risco."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.