Emily Bert/The New York Times
Emily Bert/The New York Times

Para Yuval Noah Harari, cooperação entre países é fundamental contra o coronavírus

Pensador israelense publica livro digital gratuito no Brasil com ensaio sobre a pandemia

Rodrigo Petronio*, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 05h00

O historiador israelense Yuval Noah Harari se transformou em um fenômeno. E hoje, aos 44 anos de idade, ocupa um lugar muito peculiar na cena intelectual contemporânea. Até uns poucos anos atrás, era autor de três obras e de alguns artigos destinados a especialistas. Entretanto, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade (2014), escrito originalmente em hebraico, projetou seu nome de modo vertiginoso. Há anos nas listas de best sellers em diversos países e traduzido para mais de 30 idiomas, o livro o catapultou à posição de celebridade mundial. O mesmo pode se dizer de Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã (2016) e de 21 Lições para o Século 21 (2018). As três obras formam um painel coeso do passado, do futuro e do presente da humanidade, respectivamente. 

Doutor pela Universidade de Oxford e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, a carreira de Harari se distingue do padrão. Respeitado pela comunidade acadêmica, embasado em vasta documentação científica, sua escrita atinge o grande público sem banalizar as questões. Hoje é um dos palestrantes mais requisitados e dos mais bem pagos do mundo, com remunerações que chegam à casa dos seis dígitos. O conjunto de sua obra pode ser definido como uma divulgação científica de excelente qualidade. Mas não se esgota nessa definição. Arrisca teses autorais, voos inesperados, insights surpreendentes, tudo em uma escrita ensaística admirável. Gay, ateu, vegano, judeu e praticante de meditação, Harari vive com seu cônjuge, Itzik Yahav, em uma moshav (comunidade cooperativa) perto de Bete-Semes, no distrito de Jerusalém. 

Essa perspectiva singular de sua vida e de sua obra, na fronteira entre a norma e a exceção, faz de Harari um pensador muito importante para a compreensão da crise que a humanidade atravessa com a pandemia de coronavírus (convid-19). Por esse motivo, a Companhia das Letras acaba de publicar na Coleção Breve Companhia o libreto intitulado Na Batalha contra o Coronavírus, faltam Líderes à Humanidade, em tradução de Odorico Leal. Originalmente escrito em inglês, a pedido da revista Time, o libreto-ensaio da edição brasileira faz parte de uma campanha de estímulo à leitura e à informação durante a quarentena. E tem acesso gratuito na versão Kindle.

Quem conhece a obra de Harari vai logo identificar algumas de suas teses orientando o ensaio. Primeira: a defesa de uma agenda global. Segunda: existe apenas uma civilização. Ele enfatiza a necessidade de uma quarentena prolongada, essencial para conter a expansão da pandemia. Mas não nega que um isolacionismo indefinido produziria um colapso econômico. Por isso, “o verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação”. Afinal, os humanos diferem dos demais seres vivos por causa das “ficções coletivas” que criaram para si. E as ficções nos possibilitam gerar “ordens imaginadas” e “cooperação flexível”. É justo essa cooperação e essa flexibilidade entre nações que serão exigidas de nossa humanidade. 

Harari lembra que, em 1918, a gripe infectou meio bilhão de pessoas. Estima-se que tenha matado 100 milhões em menos de um ano. Entretanto, relativiza a semelhança de danos entre as pestes do passado e a pandemia do presente. As sociedades modernas, fruto da ciência, do capitalismo e da tecnologia, por mais que tenham problemas, conseguiram difundir alguns sistemas de proteção civilizacionais, como vacinas, medicina preventiva e higiene. Por isso, apesar do drama de epidemias como a aids e o ebola, no século 21 as epidemias por enquanto matam um número menor de pessoas do que outras epidemias desde a Idade da Pedra. 

A velocidade da detecção de doenças é uma arma em prol do Sapiens. A teoria da evolução possibilitou aos cientistas analisar os “manuais de instrução” dos agentes patogênicos. Enquanto os pensadores medievais não conseguiam explicar a peste negra de modo satisfatório, pois mal tinham a noção da existência de vírus e bactérias, os cientistas atuais levaram menos de duas semanas para identificar o novo covid-19. 

Mesmo antes na Idade Média as epidemias se propagavam. Durante o século 16, contaminados que chegaram à América foram o estopim para que processos virais produzissem verdadeiros extermínios dos ameríndios. Ou seja: antes da globalização existia uma propagação global de doenças virais. Ainda que as conexões globais de hoje fossem reduzidas, que os países fechassem suas fronteiras, que se desenvolvessem economias locais e que se restaurasse um mundo de isolamentos equivalente ao mundo do século 13, ainda assim os surtos virais se espalhariam pelo mundo. 

Essa evidência mostra um fato claro: a solução efetiva não está em combater a globalização, em fechar fronteiras ou em retornar a um período pré-moderno. A solução está em dois conceitos: informação e solidariedade. Informação científica fidedigna, com a maior circulação possível. E solidariedade entre nações e povos. Esse é um ensinamento central das pandemias: elas não comprometem um país, uma população, uma economia, um governo. Elas comprometem toda espécie humana e todas as regiões do mundo. 

Outro ponto delicado e muito complexo: as mutações. Cada humano infectado possui trilhões de partículas virais se multiplicando em seu corpo. Essa multiplicação consiste em trilhões de oportunidades que esses vírus têm de sofrer mutação. Ou seja: o vírus tem chances de se adaptar melhor ao organismo humano e se fortalecer, tornando-se mais letal e adquirindo imunidade aos medicamentos. 

Por isso, outro desafio das pandemias é este: não estamos nos relacionando com um inimigo estável. Além de pouco conhecido, o inimigo pode se camuflar, adquirindo novas potencialidades destruidoras. Isso pode dificultar ainda mais o combate, adiar ainda mais a descoberta das vacinas e, no limite, impossibilitar a erradicação. É o que ocorreu com a mutação do ebola chamada makona, quatro vezes mais poderosa do que a primeira versão do mesmo vírus. 

Por outro lado, a Terra possui uma abundância dessas entidades inorgânicas chamadas vírus, em uma diversidade maior do que a das bactérias. Se todas as formas de vida estão mergulhadas em vírus, como ocorre essa disfunção? Como se originam as pandemias, dentre elas a atual? Em boa parte, decorrem da privação de serviços básicos de saúde de milhões de pessoas ao redor do globo. Outro motivo, não citado por Harari, é a devastação de ecossistemas. O epidemiologista David Quammen define esse fenômeno como transbordamento, título de sua obra Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic (2012). A destruição de ecossistemas pode produzir o transbordamento do vírus, do animal para o humano. E basta que o vírus mutante adentre um único ser humano para que se irradie para toda esfera da humanidade. 

Outra chave para vencer as pandemias? Confiança. Confiança dos cidadãos nos poderes públicos, de cada indivíduo nos especialistas de cada ciência e, inclusive, nos especialistas da informação, como os jornalistas. E confiança dos países uns nos outros. Depois de uma década de fechamento de fronteiras, de restrições de acesso, de xenofobia, de segregacionismo e de neonacionalismo, as políticas que alimentaram a descrença na ciência devem sair abaladas. A ironia da atual pandemia é esta. O covid-19 está realizando o isolamento mundial que os movimentos antiglobalistas tanto reivindicavam. Mas apenas uma agenda global, baseada em ciência, em acordos transnacionais e em uma colaboração entre nações, poderá curar a humanidade do vírus, reordenar a economia e devolver o mundo à normalidade. 

Sem confiança e solidariedade, não será possível vencer a crise decorrente do covid-19. Muito menos os efeitos-cascata decorrentes, e que podem ser ainda muito piores, como adverte David Wallace-Wells, jornalista de ciência e especialista em mudanças climáticas. Como afirma Harari, podem existir muitas culturas. Mas existe apenas uma civilização. Para combater problemas globais, apenas agendas globais. Para corrigir desvios da sociedade produzida pela tecnociência, apenas a tecnociência. A batalha agora não se trava mais entre diversos segmentos econômicos, sociais, políticos e étnicos da humanidade. A batalha se trava dentro da humanidade como um todo. Como toda crise, pode ser uma oportunidade para a construção, não de uma nova, mas de uma outra ordem global, mais equânime e inclusiva. 

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É ESCRITOR, FILÓSOFO E PROFESSOR TITULAR DA FAAP

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