Paralelos brasileiros e americanos

Fernando Gabeira e Barack Obama guardam mais semelhanças do que diferenças. Principalmente nos ataques que sofrem

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2008 | 22h14

"Agora somos todos brasileiros", proclamou há dias o colunista Paul Krugman, referindo-se ao novo status econômico-financeiro dos EUA no caos globalizado. Os cariocas poderiam aproveitar e proclamar: "Agora somos todos americanos." Esqueçam a crise econômica, concentrem-se no xadrez político, na eleição presidencial de lá e na disputa pela prefeitura de cá, e comecem a ligar os pontos: Cesar Maia a George W. Bush; Fernando Gabeira a Barack Obama; Eduardo Paes a John McCain; a zona oeste do Rio ao meio-oeste dos EUA; o eleitorado jovem e esclarecido que apóia Gabeira e o povão clientelista que fecha com o candidato do PMDB; o manipulado conflito entre os anseios da "elite" da zona sul e as prioridades das camadas populares espalhadas pela periferia da cidade. A simetria não é perfeita, e não só porque, a rigor, Paes não mereça ser comparado ao untuoso McCain e não tenha como companheira de chapa Kelly Key ou a Miss Brasil, mas as semelhanças superam amplamente as diferenças. A semelhança mais saliente é a impressão de que nenhum dos 12 candidatos à prefeitura do Rio, nem mesmo o senador-bispo Marcelo Crivella, aquele que só venceu no Ibope, conseguiria fazer mais mal à cidade do que Cesar Maia fez, ao longo de 12 anos. Maia é o Bush de jaqueta, o Bush blogueiro, um Teflon eleitoral (que o diga Solange Amaral, sua candidata à sucessão, sexta colocada na eleição de domingo). Baixarias de campanha? Também nisso os cariocas viraram americanos. Se bem que, justiça se faça, em grau bastante inferior de malignidade. Ao menos por ora, neste quesito, os republicanos dos EUA continuam vencendo de goleada. Mas ainda faltam 15 dias para o segundo turno. E os correligionários do candidato do PMDB não são de fazer corpo mole. Na véspera do primeiro turno, panfletos apócrifos, impressos numa gráfica no subúrbio carioca de Olaria, atacando a participação de Gabeira na luta armada e sua atuação como parlamentar, foram distribuídos em três pontos da cidade. Na tarde de domingo passado, com a votação ainda em andamento, um grupo de eleitores figadais de Eduardo Paes estarreceu os demais comensais do mais badalado restaurante do Leblon, na zona sul do Rio, entoando em coro o bordão "Ele fuma! Ele cheira! Seu nome é Gabeira!" O leviano escracho eleitoreiro não teve o menor efeito persuasivo, muito pelo contrário. Nem inspirou retaliações do mesmo teor. O que vale dizer que, como era de se esperar, nenhum correligionário de Gabeira foi visto na zona oeste a lançar dúvidas, em tom debochado ou raivoso, sobre a honestidade ou a virilidade do candidato do PMDB.Na terça-feira, com a polêmica provocada pela publicação de fotos de Gabeira de sunga numa piscina ainda fervendo, Paes comparou o candidato do PV ao ex-presidente Fernando Collor, sem revelar quais recônditos motivos o levaram a tão indecifrável paralelo. Seu parâmetro, no dia seguinte, foi o ex-prefeito Saturnino Braga, que, apesar de honesto e bem intencionado, faliu o município no final dos anos 1980. Faz parte da estratégia do candidato do PMDB colar no candidato do PV o estereótipo do político honesto, bem intencionado, mas incompetente (ou, no mínimo, inexperiente) do ponto de vista administrativo. Qualquer semelhança com um dos clichês da cruzada republicana contra a candidatura Barack Obama não é mera coincidência. "Ainda vão acabar me comparando ao Osama bin Laden", gracejou Gabeira, que até sexta-feira não se rebaixara a combater com a mesma munição retórica dos peemedebistas, embora pudesse fazê-lo, aproximando o candidato do governador Sérgio Cabral de políticos que também se notabilizaram pelo oportunismo de suas alianças. Gabeira ainda não foi comparado a Bin Laden, mas Barack Obama já. Inúmeras vezes. Durante um comício da brejeira e internacionalmente desmoralizada governadora do Alasca, inflamados elementos da claque republicana trocaram Bin Laden pelo genérico "terrorista". Xingaram o candidato democrata de "terrorista", "traidor", e pediram sua execução: "Kill! Kill!" Sem ter mais o que oferecer ao eleitorado, a campanha de McCain-Palin (doravante McPalin) passou a oferecer ódio, calúnia, perfídia, incitação à violência, assustando e enojando os americanos honrados e perdendo a solidariedade de conservadores e direitistas que não rezam pelo decálogo do vale-tudo. Quatro exemplos recentes: George F. Will, Andy McCarthy, Ed Whelan e Michelle Malkin. Nos grotões da América, reduto eleitoral republicano, o lamaçal se esparrama impunemente. Em West Plains, no Missouri, um outdooor montado ninguém sabe por quem exibe uma fotomontagem de Obama com turbante e os dizeres: "Barack ?Hussein? Obama = mais abortos, casamentos de pessoas do mesmo sexo, impostos e controle de armas". O sistema financeiro por um fio, o desemprego em alta, a recessão na soleira, duas guerras raspando o tacho do Tesouro - tantos problemas gravíssimos e carentes de soluções urgentes, imediatas, e a dupla McPain catando pulga em leão, ressuscitando amizades, supostamente comprometedoras e perigosas de Obama, alimentando a torpeza, apegando-se, em resumo, ao que Eugene Robinson, comentarista do Washington Post, qualificou, à perfeição, de "armas de distração em massa". Nem assim, a chapa McPalin deslanchou. Quanto mais ela apela para a ignorância, varrendo o descalabro econômico para debaixo do tapete, mais a dupla Obama-Biden sobe nas pesquisas, inclusive em Estados onde parecia cativa a preferência pelos republicanos. Não está dando para acompanhar o ritmo da sórdida campanha republicana. A cada dia, uma nova aleivosia é posta em circulação. A última que pelo meu radar passou acusava o candidato democrata de tentar segurar a crise econômica até o início de novembro para assegurar a vitória nas urnas. Os americanos deveriam se envergonhar de Obama, apesar de tudo, não estar pelo menos 30 pontos à frente de McCain na corrida para a Casa Branca. Que sejam brasileiros, mas não abusem dessa condição.

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