Feliz Schmitt/The New York Times
Feliz Schmitt/The New York Times

Partido alemão de extrema-direita solicita dados de artistas imigrantes em óperas e teatros estatais

Solicitações do partido AfD preocuparam profissionais do setor

Thomas Rogers, The New York Times

27 de julho de 2019 | 16h00

STUTTGART, ALEMANHA - Em junho, Elliot Carlton Hines, barítono da Ópera Estadual de Stuttgart, recebeu uma mensagem de texto que o deixou nervoso. Um amigo lhe informava que o ministério da Cultura do Estado fora requisitado a informar as nacionalidades dos artistas contratados pela Opera de Stuttgart, pelas companhias de balé e orquestra, e também informações de onde eles haviam se formado.

O pedido foi feito pelo partido Alternativa para a Alemanha, agremiação de extrema-direita, que tem uma plataforma anti-imigração.

Hines, que é americano e se formou na Julliard School, ficou inquieto. Segundo ele, a solicitação era uma maneira de aumentar o ressentimento contra estrangeiros no mundo das artes da Alemanha – opinião compartilhada por outros contratados pela companhia de ópera.

O partido – conhecido pelas suas iniciais em alemão AfD – foi criado em 2013 como uma agremiação cética em relação à União Europeia, mas nos últimos anos se inclinou para a direita populista. Seu principal tema de debate é como limitar a imigração e tem poucas referências concretas à cultura em seu programa de trabalho, mas seus representantes criticam o que consideram um ambiente artístico multiculturalista e totalmente de esquerda financiado pelo governo.

Muitas instituições alemãs têm patrocinadores proeminentes da chamada cultura de boas-vindas incentivada pelo governo desde 2015, quando a chanceler Angela Merkel abriu as portas do país para 1,2 milhão de refugiados. Algumas incluem trabalhos sobre imigração em seus programas e oferecem workshops para integrar os recém-chegados na sociedade alemã.

Marc Jogen, conhecido ideólogo do AfD, escreveu em seu website em janeiro que “seria uma honra e um prazer conseguir a remoção da imundície do setor de cultura alemão”. A plataforma do partido em 2016 para o Estado da Saxônia-Anhalt convocou “museus, orquestras e teatros a promoverem um relacionamento positivo com sua própria pátria”.

Para muitos líderes culturais no Estado de Baden-Württemberg, do qual Stuttgart é a capital, a indagação sobre as nacionalidades dos artistas é um sinal ameaçador do interesse crescente do partido nas artes – e um possível indício do que pode ser alvo do AfD se o partido tiver um poder maior sobre as instituições de arte.

Na estrutura política descentralizada da Alemanha, muitas organizações de arte são financiadas e administradas a níveis estadual e local.

Embora o AfD seja um partido particularmente popular nos Estados da antiga Alemanha Oriental, ele está representado em todos as 16 assembleias legislativas estaduais e tem forte presença em muitos governos municipais.

Depois que o diretor do Friedrichstadt-Palast, famoso teatro de Berlim, criticou os eleitores do AfD em 2017, um deputado estadual do partido requereu o corte do orçamento para o teatro. Em maio, um membro da agremiação taxou os teatros independentes na cidade de Leipzig de “extremistas” e insistiu na eliminação do financiamento para eles.

Três Estados da Alemanha Oriental realizarão eleições no próximo trimestre e pesquisas recentes têm colocado o AfD em primeiro ou segundo lugar na Saxônia e em Brandemburgo, e em segundo ou terceiro lugar no Estado de Turíngia. Até agora os outros partidos vêm afirmando que não incluirão os populistas de extrema-direita em nenhuma coalizão de governo, mas líderes do AfD na Saxônia disseram que, se participarem de algum governo, sua prioridade será controlar o ministério encarregado da cultura.

Petra Olschowski, vice-ministra responsável pelas artes em Baden-Württemberg, declarou que “se um membro do AfD se tornar ministro de cultura em um Estado alemão, o partido imediatamente intervirá fortemente na esfera cultural, fechando teatros, por exemplo”.

Ela disse ter ficado chocada ao tomar conhecimento do pedido feito, acrescentando que vem observando um “tom mais mordaz e uma maior autoconfiança” daquele partido à medida que as eleições se aproximam.

O AfD é hoje o terceiro maior partido no legislativo de Baden-Württemberg, o que não é suficiente para intervir significativamente na política cultural do Estado. O Ministério de Ciências, Pesquisa e Artes está legalmente obrigado a responder ao pedido de informações sobre os artistas. Mas respondeu à requisição com um catálogo de artistas por nacionalidade sem citar nomes. Por exemplo, informou que o Stuttgart Ballet empregava “63 dançarinos de 24 nações”.

Rainer Balzer, um dos deputados do AfD que assinaram o pedido, disse em entrevista que a requisição foi motivada não por xenofobia, mas pelo desejo de melhorar a educação artística.

“Se vocês compararem nossos artistas formados àqueles da Ásia é algo desalentador. É lamentável que a mídia e os diretores das instituições tenham transformado meu pedido em algo xenófobo”, afirmou.

Segundo Frank Brettschneider, professor de Ciências Políticas na universidade de Hohenheim, os políticos do AfD se tornaram especialistas em passar dos limites e depois posarem de vítimas quando suas ações provocam uma reação negativa. “Eles fazem coisas que sabem que deixarão as pessoas indignadas e depois alegam ser inocentes e que não era o que queriam dizer”, disse o professor.

Por lei, as instituições com financiamento do Estado em Baden-Württemberg têm de incluir representantes dos partidos do governo em seus conselhos de administração. Entre elas está a Akademie Schloss Solitude, que possui um programa internacional de residência de artistas em Stuttgart, que tem um membro do AfD no seu conselho. A diretora Elke aus dem Moore disse admitir que a norma legal tem por fim refletir as opções democráticas dos eleitores, mas que estava “preocupada” com a presença do AfD nas reuniões da diretoria.

Diretores de várias instituições culturais em Baden-Württemberg afirmaram em entrevistas que estavam indecisos quanto a responder ao pedido sobre a nacionalidade dos artistas por temer alimentar o que consideram uma provocação. O Ulm Theater postou uma requisição contrária satírica em sua página no Facebook, pedindo ao AfD para revelar quantos dos seus deputados no Estado possuem antecedentes criminais.

Peter Spuhler, diretor geral do Badisches Staatstheater Karlsruhe, declarou que a requisição o incentivou a contratar mais estrangeiros. “Tenho orgulho de termos 46 nações representadas por artistas e se chegarmos a 50 ficarei ainda mais orgulhoso”, disse ele.

Marc-Oliver Hendriks, diretor executivo do Staatstheater Stuttgart, instituição central que abrange o principal teatro da cidade e espaços de balé e de ópera, afirmou que o pedido feito pelo AfD suscitou preocupações no tocante a medidas potenciais do partido para desestabilizar as instituições culturais alemãs.

“A própria solicitação tem efeito porque deixa os artistas inquietos”, afirmou. Hines, o cantor de opera que nasceu no Texas, disse que pretende continuar na Alemanha. Em sua opinião, o pedido feito parece desconhecer como as companhias de ópera funcional. “Ópera é uma área muito específica. Um diretor de elenco busca sempre alguém que consiga desempenhar essa função independente de onde a pessoa vem”.

E disse esperar que seu contrato seja prorrogado no próximo ano, quando chegar o momento da sua renovação. “Aqui, sinto-me em casa”, afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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