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Ele pensou ter sido levado para Porto Alegre. Quase 36 anos depois, descobriu seu cárcere verdadeiro

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2009 | 02h02

De repente, ele se viu com Cr$ 10 na mão e as seguintes ordens: "Pegue um táxi e não olhe para trás". Era dia 6 de abril de 1973, uma sexta-feira. Foi deixado ali, perto do Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio, por militares que o haviam sequestrado uma semana antes. Ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o jornalista e professor de comunicação da PUC-Rio Álvaro Caldas fez foi desobedecer. Olhou insistentemente para trás, tentando entender por que fora preso e espancado e para onde fora levado.

 

Texto final: ao relatar o episódio do sequestro em seu livro 'Tirando o capuz', o professor Caldas não conseguiu escrever em primeira pessoa: 'Eu tentei, mas não saía' 

Quase 36 anos depois, dias antes do carnaval passado, Caldas olhou e, finalmente, enxergou. Reconheceu seu cárcere: o prédio do antigo Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do IV Exército em Pernambuco, que hoje abriga o Hospital Geral do Recife. Ele tinha sido levado para o Nordeste e não, como lhe dissera um dos sequestradores na época, para um lugar no sul do País.

"Não queria deixar isso aberto", conta Caldas, na sala do apartamento onde mora, na zona sul do Rio, o mesmo de onde fora abduzido pelos militares. "No fundo, era uma ferida que eu tinha." Quando visitou, em fevereiro, o prédio do DOI-Codi no Recife, à Rua do Hospício, algumas memórias que ele tinha do local começaram a fazer sentido. Um carcereiro nordestino que lembrava o ator americano Ernest Borgnine (que contracena com Frank Sinatra em A um Passo da Eternidade); um programa de rádio que tocava Asa Branca; as badaladas das horas de um relógio perto da Faculdade de Direito, que hoje não badala mais; alguns cômodos familiares. "Eu só conhecia o interior do prédio", explica. "Cheguei de capuz, que só foi tirado lá dentro. Então, tinha uma ideia dessa pequena carceragem onde fiquei. Quatro celas, um espaço para o carcereiro, um banheiro apertado..."

Sua primeira viagem Rio-Recife, de fato, começou em 30 de março de 1973. O então repórter do Jornal dos Sports acabara de almoçar e se preparava para trabalhar quando se viu arrancado de casa por homens armados. Ainda de bermuda, camiseta e chinelos foi enfiado num Opala, obrigado a pôr óculos com espuma de borracha no lugar das lentes, levado para "algum lugar perto do mar" e espancado. Os sequestradores inquiriam: "Qual é o seu nome de guerra?", "Você fez uma viagem recente?" Sem militância desde que deixara a prisão, depois de cumprir pena de 1970 a 1972 pelo envolvimento com o PCBR, Caldas tentou convencer os captores de que não estava mais "organizado" - deixou o partido ainda na cadeia - e tinha álibis sólidos. Um era o Botafogo de Futebol e Regatas, clube que ele cobria para o jornal e aonde ia regularmente. Outro era o Detran, onde emplacara seu carro uma semana antes.

Com hematomas no rosto e marcas pelo corpo dolorido, Caldas foi alojado no DOI-Codi carioca, na Tijuca. Ficou numa cela impregnada por um perfume enjoativo, cela que dava vista para instrumentos de tortura. Interrogado novamente sobre sua suposta viagem, foi obrigado a vestir um capuz sem abertura para os olhos, mas chegou a ver um dos algozes, à paisana. Dias depois, exibiram-no como um prêmio a quem Caldas apelidou de "Homem-Fenemê", cujo rosto avistou. "Mas o que fizeram com este rapaz? Aaah, já sei, foi um Fenemê (caminhão da antiga Fábrica Nacional de Motores) que passou por cima da sua cabeça", debochou o visitante, antes de ir embora.

No dia 5 de abril, novamente com os olhos tapados por espuma de borracha, Caldas foi levado em um carro com dois homens do DOI para o III Comar, na Praça XV. Sai a espuma, entra o capuz, Caldas embarca num jatinho, aos cuidados de um oficial. "Para onde vamos?", perguntou o jornalista. "Para o Sul", respondeu o militar. Pelo tempo de voo, entre três e quatro horas, o refém supôs que São Paulo ficara para trás, poderia estar em Porto Alegre.

Sempre de capuz, Caldas foi posto no chão de um carro, que o levou até o local onde havia celas. De uma delas foi levado pelo mesmo oficial para um cômodo, no qual ficou sozinho. "É hora da porrada", pensou, já preparando-se para apanhar. "Mas, passados dois ou três minutos, o oficial voltou e disse: 'Fica de lado'. Aí comecei a perceber que tinha uma janela. Então o oficial, provavelmente um major, ordenou: 'ira os óculos'." Ocorria ali o "manjamento", situação em que os presos são postos numa sala com uma janela de duas faces: a que dá para dentro era espelhada; a que dá para fora permitia aos investigadores fazer o reconhecimento do suposto meliante.

Caldas, que teve o cavanhaque raspado no Rio, foi levado de volta para a cela, onde pôde observar melhor o "Ernest Borgnine". Na manhã seguinte, ouviu Asa Branca no rádio. Em 6 de abril, novamente encapuzado, voltou ao Rio de jatinho. Abandonado no centro, recebeu aquela ordem: "Não olhe para trás".

Uma das pistas que o levaram ao seu verdadeiro destino foi uma organização com nome semelhante ao do PCBR, o Partido Comunista Revolucionário (PCR), que havia roubado armas, no início de 1973, de um posto da Força Aérea Brasileira (FAB), em Imbiribeira, bairro da capital pernambucana próximo ao Aeroporto de Guararapes. Mais uma pista: Caldas se parecia muito com um dos militantes do PCR que participaram da ação, Juáres José Gomes, e com Ramires Maranhão do Vale, do PCBR - ambos caçados pelo governo.

Este ano, com o irmão de Ramires Maranhão do Vale, Romildo - também ex-PCBR, detido no início de 1973 e levado para uma sessão de manjamento no DOI-Codi do Recife -, e outro ex-ativista, Marcelo Mario de Melo, Caldas deu partida à última fase da apuração.

"Voltamos à época da militância, começamos a marcar pontos (locais de encontro de militantes na clandestinidade)", recorda Caldas, com bom humor. "A gente se ligava pelo celular: 'Tô no ponto tal, estou indo para o ponto tal'." Em 12 de fevereiro, veio o "ponto" definitivo: um encontro no local onde ficava o DOI - agora, um hospital militar, que já existia, mas foi ampliado. Além dos três, estavam a namorada de Caldas, Alice, e a mulher de Romildo, Sônia. "Eu não queria entrar", diz Romildo. "Falei: 'Fico aqui fora e, se der confusão, corro e chamo a imprensa'."

Daí a pouco, foram chamá-lo. O diretor do hospital, o coronel-médico Madeiro, após um breve discurso sobre os "novos tempos", queria exibir-lhes o hospital. "Nos sentimos à vontade, fomos procurar o que a gente queria", conta Caldas. "Debaixo de uma emoção fantástica", o grupo viu, numa sala cheia de entulho, uma janela igual à usada no manjamento de Caldas e Romildo. O último ato da investigação particular dos dois no Recife foi uma conversa com o publicitário José Nilvaldo Júnior, que teve ligações com o PCR. Ele contou que em 1973, a pedido de Manoel Bonfim, chefe do partido, dirigiu um carro no ataque ao posto da FAB. Foram roubados quatro fuzis e uma metralhadora. Participaram do assalto, além de Juáres e Nivaldo, o próprio Manoel Bonfim e o camponês Ventania - os dois últimos acabaram presos e mortos. "Foi Zé Nivaldo quem disse que sou parecido com o Juáres", conta o jornalista.

A descoberta de seu cárcere foi mais um acerto de Caldas com o passado. Antes, houve a reabilitação do oficial da Marinha João Alfredo Poeck, a quem o jornalista acusara, partindo de denúncias de conhecidos, de ter sido o torturador Mike, do Cenimar, na prisão da Ilha das Flores. Depois de dois encontros no bar Bozó, no Leblon, o segundo com a participação de dois ex-integrantes do MR-8 que reconheceram que Poeck não era o militar que os supliciara, Caldas publicou uma reportagem desfazendo o equívoco. Durante a conversa com Poeck, o filho do militar, um estudante que sofrera cobranças de um professor pelo suposto passado de torturador do pai, ficou do lado de fora do bar, esperando o resultado.

Goiano, Caldas conheceu a política na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, nos anos 60, quando estudava jornalismo, no Rio. Passou pelo PCB, pela Dissidência e acabou no PCBR. Era do quadro político - a organização mantinha separados os setores político e armado - e repórter especial do Jornal do Brasil em dezembro de 1969, com vida legal e família, quando teve de cair na clandestinidade. O motivo foi o assalto, por um comando do PCBR, a um banco na zona norte. Na fuga, dois guerrilheiros passaram para um carro legal - o Fusca vermelho de Caldas, comprado a prestações, que por ser decorado com um plástico do Vasco da Gama, era conhecido no partido como "Gigante da Colina".

"Era um carro usado em outras atividades. Transportava gente, levava panfleto para cá e para lá, mas não era usado em uma ação, né?", diz Caldas. Dirigido por um bancário e levando um ex-militar armado de fuzil como carona, o carro despertou a atenção de policiais militares. Houve uma perseguição, um acidente e o ex-militar matou a tiros um dos PMs, fugindo em seguida. O bancário foi preso e torturado. Caldas - codinomes Felipe e Armando - soube do tiroteio por uma notícia de rádio e teve detalhes do que acontecera por um dirigente do PCBR, Luiz Benevides, a quem encontrou por acaso em um ônibus da linha Méier-Copacabana e lhe disse para cair imediatamente na clandestinidade.

O jornalista foi preso em fevereiro de 1970, em um ponto em Vaz Lobo, na zona norte, e ficou detido até 1972 - passando pelo DOI, onde foi torturado, pelo Dops, pela Vila Militar e pelo Regimento Caetano de Farias. "Fiquei com paranoia de ir ao banco", relata. "Ainda havia ações armadas. Meu medo era que assaltassem uma agência enquanto eu estivesse lá. Ninguém ia acreditar que era só coincidência..."

Caldas só conseguiu escrever o texto Uma Viagem Fantástica, no qual narra o sequestro, que está em seu livro Tirando o Capuz, na terceira pessoa. "Tentei escrever na primeira", confessa. "Não saía."

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