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Passado com nome: depois de périplo Xingu-EUA-São Paulo, índio Wauja encontra foto da mãe

Após mais de 50 anos, Atapucha Waurá – do povo Wauja, do Alto Xingu – conhece o rosto de sua mãe em uma fotografia guardada no acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP

Daniel Trielli Juliana Ravelli / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 17h00

Akaintsaritsumpalu carregava o filho Atapucha enquanto cantava com outras Wauja durante o yamurikuma. Nesse festival, as mulheres tomam o papel que os homens geralmente têm nos festejos do Alto Xingu: dançam, cantam e competem em lutas. Era o meio de 1964 e Akaintsaritsumpalu, segunda esposa de Yawalatumpa, mostrava o bom humor pelo qual era conhecida. Momentos antes de as integrantes de outras aldeias chegarem para o yamurikuma, ela fazia a piada: “Vamos lá, vamos treinar (para as lutas)”, sabendo que o treino, na verdade, era feito com muita antecedência; àquela altura, não dava mais para se preparar.

Essa é uma das histórias que Atapucha Waurá escutou sobre a mãe, da época em que ela não precisava do sufixo respeitoso – tsumpalu, reservado às mulheres Wauja que morreram. Como o Aliás mostrou no domingo passado, Atapucha e mais dois Wauja – Kuratu Waurá e Tukupe Waurá – visitariam, nessa semana, o acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP) para tentar encontrar uma foto de Akaintsaritsumpalu. Atapucha não lembrava o rosto da mãe, que morreu quando ele era bebê, e esperava que o etnógrafo Harald Schultz (1909-1966) a tivesse registrado em sua expedição ao Alto Xingu.

Na madrugada, antes de visitar o MAE, Atapucha teve um sonho em que uma pessoa o apoiava na busca pela foto. Horas depois, após ver muitas imagens, Kuratu, de 61 anos, reconheceu Akaintsaritsumpalu. Ela é a quinta da direita para a esquerda em uma foto na qual ela canta ao lado de outras Wauja, e carrega um bebê – o próprio Atapucha. Ele finalmente voltou a ver sua mãe. A espera de mais de 50 anos havia terminado. “Comecei a chorar muito. Não acreditei que isso estava acontecendo comigo. Meu sonho foi realizado”, diz. “Parece que minha mãe estava do meu lado naquela hora. Fiquei muito emocionado.” De quebra, ele também descobriu a data aproximada de seu nascimento: entre o fim de 1963 e o começo de 1964.

A redescoberta de Akaintsaritsumpalu foi só uma das muitas que os três Wauja fizeram no MAE. Durante as seis horas que ficaram ali, reconheceram muitos outros parentes, entre eles a avó de Tukupe, Pulutapatumpalu. “É a cara da minha mãe quando era bem novinha.” Antes, a única imagem que tinham dela estava em uma edição da National Geographic de 1966, comprada no eBay, em que seu rosto não pode ser visto.

Segundo a antropóloga Sandra Maria Christiani de la Torre, pesquisadora do acervo do MAE, os Wauja viram ainda peças do acervo e fotografaram objetos que não são mais confeccionados para mostrá-los à aldeia. Também levaram cópias das fotos que serão vistas por outros anciões para, então, recuperarem o nome de mais pessoas. “A estada deles aqui foi muito emocionante”, diz Sandra.

Na verdade, as últimas sete semanas têm sido emocionantes para os Wauja. Entre 5 de setembro e 14 de outubro, Kuratu, Atapucha e Tukupe estiveram nos Estados Unidos para participar do projeto “Recovering Voices”, do instituto Smithsonian. A iniciativa fomenta o registro e a proteção de línguas e culturas indígenas ameaçadas de extinção. Além de descrever objetos na língua wauja, Atapucha procurou sua mãe em imagens de Schultz que estavam no acervo do Smithsonian. A foto que tanto buscou, porém, só encontraria no retorno ao Brasil.

Nos EUA, os Wauja ficaram na casa da antropóloga e pesquisadora do Smithsonian Emilienne Ireland e de seu marido, Phil Tajitsu Nash, professor de Estudos Asiático-Americanos da Universidade de Maryland. Emilienne conhece os Wauja desde 1981, viveu com eles e fala fluentemente sua língua. O pai de Atapucha, Yawalatumpa, foi seu professor e a tratava como uma irmã. Por isso, Atapucha a chama de tia.

A antropóloga conta que os Wauja ficam tristes pela multidões nas cidades, que desconhecem as relações familiares entre si. Os Wauja criam laços de família mesmo sem ter elos sanguíneos, sabem os nomes e as histórias de seus antepassados. Seus ancestrais são muito preciosos para eles. “Seria terrível para eles verem essas imagens, no futuro, e não saber quem são as pessoas retratadas. É ótimo que conseguimos evitar isso”, diz Emilienne.

No entanto, no passado, os Wauja não gostavam de ver fotos e até de pronunciar o nome daqueles que morreram. Para as antigas gerações, as imagens e o apego fariam com que os espíritos ficassem presos na Terra; também fariam mal aos vivos, pois a tristeza causa doenças, segundo os Wauja. Mas, há alguns anos, começaram a entender que era preciso mudar, e que as fotos são fundamentais para que as histórias de seus heróis ancestrais não desapareçam. “Está bem claro para mim que não dava mais para a gente ficar desse jeito”, diz Tukupe, de 34 anos. “Nosso conhecimento está ameaçado. Vou falar para meu povo para a gente estudar cada vez mais, para ver se encontramos mais coisas.”

Em São Paulo, os Wauja foram acompanhados pelos antropólogos Marcelo Fortaleza Flores – que os conhece desde 1996 – e sua mulher, Rafaela Vargas, que estuda a dança do yamurikuma. Segundo Marcelo, as imagens têm um papel transformador. “O próprio encontro das fotos com eles preenche um vazio tremendo. As fotos, antes, o que eram? Fotos de índios em rituais, dançando. Agora, não. São pessoas reais, com histórias reais, conhecidas pelo grupo indígena que vai dizer em que contexto aquela imagem foi tirada. De repente essas fotos voltaram a viver.”

Na quinta-feira, os Wauja voltaram para o Xingu, com o tesouro da foto de mãe de Atapucha na bagagem (tesouro exclusivo, já que os trâmites da USP não permitem, por exemplo, que a foto seja publicada em um jornal sem autorização de um conselho). Agora, sonham com um museu próprio. “Um museu força a cultura a olhar para si mesma. É um reconhecimento dessa cultura como parte de uma coisa maior”, diz Nash. Como disse Emilienne: “Eles querem ser curadores de sua própria cultura”. Também desejam que as portas dos museus do homem branco permaneçam sempre abertas. “Peço isso no Brasil não só para os Wauja, mas para todos os povos indígenas. Acredito que ainda existam pessoas mais velhas, com 80, 100 anos que podem identificar objetos que estão lá”, diz Tukupe. Para ele, não há como proteger a cultura indígena sem a participação direta dos donos dessa história: os índios.

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