Passado e presente desfocados

A montagem de fotografias sob a forma de superposições dos tempos históricos é um dos modos de questionar o congelamento da memória - neste caso, de uma memória encobridora que, ao longo do tempo, suprimiu a contextualização histórica da Batalha da Maria Antônia e a reduziu, deformando-a, a mero conflito de estudantes. As fotos destas páginas mostram que a imagem do passado ali capturada não é bem a do passado como ele foi, porque a ela está sobreposta a imagem de um presente que também não se completa. E assim pode surgir uma via de acesso à reconstrução histórica ao fazer emergir perguntas sobre esse conjunto desfocado resultante da superposição dos tempos históricos.

IRENE CARDOSO, IRENE CARDOSO É PSICANALISTA, PROFESSORA NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM , SOCIOLOGIA DA FFLCH-USP, AUTORA DE PARA UMA CRÍTICA DO PRESENTE (ED. 34), A UNIVERSIDADE DA COMUNHÃO PAULISTA (CORTEZ), O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h14

Um acontecimento como o da Batalha da Maria Antônia, produzido pela violência da ditadura e que levou à destruição do prédio da Faculdade de Filosofia, interrompeu um presente e levou à diluição na memória coletiva de um conjunto de valores e práticas culturais e políticas que ainda estavam em curso naquele momento. A repentina saída do centro da cidade, o necessário abandono do prédio com tudo que lá havia de documentação institucional para seu funcionamento normal, a ida para a Cidade Universitária (um quase descampado, então) coincidiram, por uma ironia da história, com o processo de dissolução institucional da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, reduzida, por força de uma reforma universitária que se instalaria logo adiante, a uma instituição de menor dimensão e menor poder na Universidade - a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

A Batalha da Maria Antônia foi produzida, sim, pelo enfrentamento entre estudantes. Mas foi organizado paramilitarmente pelo Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, com a presença de armas e bombas de posse dos que atiravam do telhado do Mackenzie na direção da Faculdade de Filosofia. A polícia civil protegia, numa espécie de cordão de isolamento, a universidade privada, o Mackenzie, deixando sem proteção o prédio de propriedade do Estado, a Faculdade de Filosofia. Houve omissão também da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e das autoridades universitárias mais altas na hierarquia institucional. Ao final das dez horas ininterruptas de bombardeio, restavam no prédio alguns estudantes e alguns professores.

As primeiras vias de acesso à reconstrução do acontecimento sofreram interdições. Registros detalhados e documentados, realizados durante o mês que se seguiu ao conflito, constituíram o Livro Branco sobre os Acontecimentos da Rua Maria Antônia, documento oficial da Congregação da Faculdade de Filosofia. Essa documentação desapareceu dos arquivos da Faculdade de Filosofia. E só em 1988 foi possível reaver a memória interditada a partir de uma cópia particular guardada por seu relator, o professor Antonio Candido.

Dois outros registros escritos naquele momento são importantes: a peça de teatro de Consuelo de Castro A Prova de Fogo, e o romance de Renato Tapajós Em Câmara Lenta. Ambos os textos foram censurados. A Prova de Fogo só viria a ser encenada em 1993. Em Câmara Lenta foi publicado em 1977, levando o autor à prisão. São recursos diferentes de reconstrução da história por via do entrecruzamento entre história e ficção.

O acontecimento da Batalha da Maria Antônia foi, e em certa medida continua sendo, objeto de uma guerra de memórias.

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