Passos de tartaruga

Para se pôr à altura das loucuras do mundo, o brilhante, mas normal demais François Hollande precisa incorporar um pouco de tragédia

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h09

Era sabido que o novo presidente François Hollande, que há três meses sucedeu Nicolas Sarkozy, não gozaria da tradicional lua de mel de início de mandato. Ele assumiu um governo extenuado por cinco anos de presidência Sarkozy, num cenário opressivo: crise mundial, angústias europeias, naufrágio da Grécia, economia inerte. Na França, partidários do ex-presidente estavam a postos, com o dedo no gatilho. Nessa paisagem lúgubre, Hollande, o "presidente normal", avançava silenciosamente, com sua imagem de homem corajoso e de sorriso gentil. Pouco depois da posse, o sorriso permanece - só que agora mais parece uma careta.

No final de agosto, dois dados afligiram os franceses. Primeiro, o país contou mais 43 mil desempregados em apenas um mês, elevando o total para quase 3 milhões. As previsões são sombrias. Mais demissões devem ocorrer. Fábricas fecharão. A França vem se juntar aos grandes inválidos do continente, Espanha e Itália. O segundo dado diz respeito à popularidade do novo presidente. Ele não encanta mais do que 44% dos franceses; 55% o deploram. Uma degringolada sem precedentes. Nem mesmo Sarkozy se defrontou com tamanho desamor. Em um único mês, Hollande perdeu 11% dos partidários.

Claro que ele recebeu das mãos de Sarkozy um presente deteriorado. O aumento vertiginoso do desemprego, por exemplo, é uma espécie de eructação póstuma dos anos Sarkozy. Mas Hollande não pode usar isso como desculpa, pois o que a opinião pública o acusa é de, em vez de lutar, liderar, desafiar o furacão, ele continuar no seu passeio de tartaruga melancólica. É tão calmo que as pessoas quase sentem falta das gesticulações de Sarkozy. Por que essa inércia? Temperamento? Sem dúvida, mas é também cálculo. Hollande quis mostrar aos franceses esgotados por cinco anos de berros e parlapatices que a vida voltaria a ser tranquila. Sarkozy passava seu tempo subindo pelas paredes, num perpétuo estado de urgência. Era feroz, entusiasta, trágico, angustiado, emotivo, lírico, hiperativo, comovente. Hollande, ao contrário, pratica a serenidade. Em agosto saiu de férias e todo seu governo partiu junto (mas as férias governamentais foram na França, não no exterior, para mostrar responsabilidade). Nesse mês, tudo desandou. Quando os ventos ficaram mais ameaçadores, os ministros estavam na praia e na montanha. O governo entrou num sono profundo, diziam os franco-atiradores da direita.

Outras decepções: Hollande fez promessas, mas nem sempre se lembra delas. Ele as honra, mas pela metade. Prometeu congelar o preço do combustível se ele começasse a subir fortemente. O governo se empenhou para atenuar a alta. No final, o preço da gasolina baixou... cinco centavos por litro. Meio grogue por seu encontro (ou colisão) com a realidade, Hollande, que prometera romper o elo de submissão de Sarkozy à alemã Angela Merkel, deu um ou dois coices de pangaré velho e voltou para a estrebaria.

No campo diplomático, a calma é total. Enquanto Sarkozy subia em dez aviões quando um incêndio começava, e apagou alguns (na Geórgia, na Líbia), Hollande continua fiel a sua índole contemplativa. Ele observa. A carnificina na Síria o entristece. Mas fazer o quê? De repente, Sarkozy despertou do fundo de sua aposentadoria e censurou a passividade do sucessor. Em resposta, Hollande disse que é preciso que os insurgentes sírios constituam um governo... Enquanto isso não acontece, o massacre continua. Mas sejamos justos: ninguém, EUA, Turquia ou ONU, querem se imiscuir no caso da Síria.

Em sua campanha, Hollande atacou violentamente os ricos, os mercados, o corrupto, ávido e desalmado mundo das finanças. Infelizmente, não conseguiu esmagar de um só golpe as finanças internacionais. De qualquer forma, tomou algumas medidas que desagradaram aos ricos (tributou mais as fortunas, por exemplo). Mas os ricos, quando incomodados, revidam e revidam duramente.

Mesma coisa com o patronato. Não se deve embaraçar os patrões, eles são sensíveis. Hollande aprendeu isso às próprias custas. E rapidamente corrigiu a pontaria. Abrandou seu discurso. Pela primeira vez, os encontros de verão do patronato francês foram abertos com a presença do primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault. Nem mesmo Sarkozy, amigo dos grandes empresários, foi tão longe. Os socialistas tiveram de engolir o erro inicial. Que vai pesar muito em seu estômago.

Esses recuos, não cumprimento de promessas, reviravoltas, têm preço: contrariam uma outra parte da sociedade. A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), furiosa com os avanços de Hollande na direção do patronato, já anuncia manifestações. Meu Deus, como é difícil agradar a todos!

Hollande afirmou que adotaria uma política de firmeza para impedir o fechamento de indústrias. E o que aconteceu? A Peugeot anunciou 8 mil demissões. O ministro Arnaud Montebourg, encarregado da recuperação industrial, um belo homem, eloquente, que se tem em alta conta, atacou furiosamente a montadora. A Peugeot não deu a mínima. Será ele que ele não sabe que na economia liberal os patrões é que mandam em seus negócios?

Hollande teve um único sucesso - no perigoso terreno da segurança. A esquerda é sempre acusada pela direita de ter coração mole, de não perseguir com dureza os bandidos, etc. Curiosamente, o que se observou foi o contrário. O ministro do Interior, Manuel Valls, revelou-se um homem de pulso, um duro, não hesitando em desmantelar acampamentos de ciganos e expulsá-los às centenas. A direita ficou calada, mas a extrema esquerda, os ecologistas e uma parte dos socialistas protestaram indignados.

Alertado pelos péssimos resultados das pesquisas, François Hollande disse que vai se mexer. Como é um homem excepcionalmente inteligente (mesmo os adversários concordam), ele tem meios para isso. Mas a inteligência será suficiente para conjurar os maus ventos?

Hollande chegou a governo num momento trágico tanto para o mundo como para a França. E esse cavalheiro do século 19, um homem normal, gentil, brilhante, suave, não está talhado para a tragédia. Assim, se quiser se pôr à altura das loucuras do mundo, Hollande será obrigado a seguir um caminho: tornar-se um personagem trágico. Um vasto programa! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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