JPL-Caltech/Nasa
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Passou bem perto

CÁSSIO LEANDRO D. R. BARBOSA

CÁSSIO LEANDRO D. R. BARBOSA É DOUTOR EM ASTRONOMIA, COORDENADOR DO CURSO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DO VALE DO PARAÍBA, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h09

Nessa semana, o asteroide 2005 YU55 passou a uma distância de quase 310 mil quilômetros da Terra. Isso significa que, por algumas horas, esse miniasteroide esteve mais perto de nós que a própria Lua. Com 400 metros de comprimento, o 2005 YU55 poderia ter causado um belo estrago se colidisse com nosso planeta. O mais curioso (para mim) é que, no dia 28 de outubro, o asteroide 2011 UX255 passou ainda mais perto, a 150 mil km, e não houve tanto estardalhaço. Vai ver que por causa do seu tamanho: 15 metros, "apenas".

Todos os dias a Terra é atingida por milhares de pedaços de rochas ou mesmo lixo espacial. Mas na grande maioria das vezes esse material é incinerado pelo atrito com a atmosfera terrestre. Além disso, três quartos da superfície do planeta estão cobertos por oceanos. Grande parte do material que sobrevive ao atrito com a atmosfera acaba caindo no mar. No caso do tão falado 2005 YU55, mesmo caindo na água, o impacto de uma pedra desse tamanho causaria um tsunami de proporções inimagináveis. Em terra firme o estrago poderia ser maior, com terremotos, incêndios e o lançamento de poeira e fuligem que muito provavelmente provocaria uma queda na temperatura global, após os ventos espalharem o material.

Precisamos ter medo? Não! A probabilidade de isso acontecer é ínfima. Mais fácil ganhar na Mega Sena do que ser atingido por um asteroide que venha a acabar com a vida na Terra. Funciona assim: a quantidade de meteoros, asteroides e outras pedras no sistema solar varia com o inverso do seu tamanho. Ou seja, há muita pedrinha no espaço e poucos asteroides grandes. Como a probabilidade de um impacto depende diretamente da quantidade de objetos, é mais fácil uma pedrinha cair no mar do que um impacto devastador dizimar a população terrestre.

Então podemos relaxar e esquecer isso? Nem tanto. Em 1908, acredita-se que um meteoro de uns 100 metros tenha se desintegrado no ar sobre a Sibéria, em Tunguska. Acredita-se, pois não foi coletado nenhum pedaço dele. Sobrou apenas o estrago. Recentemente uma equipe de cientistas mostrou que a resina das árvores daquela época continha traços de minerais encontrados em asteroides. Relatos da época dão conta de que pessoas foram atiradas ao ar por causa da onda de choque gerada pela explosão. Oitenta milhões de árvores foram derrubadas, todas tombadas no mesmo sentido. Além disso, foi registrado um terremoto de 5 graus na escala Richter. Um evento como esse é previsto para ocorrer a cada cem anos. Já estamos atrasados em três...

O que podemos fazer é vigiar. Eternamente. Vários projetos hoje monitoram os céus em busca desses objetos, chamados de "asteroides potencialmente perigosos" (PHA, na sigla em inglês). São asteroides de pequeno e médio porte, portanto difíceis de serem observados, que têm órbitas cruzando perigosamente a nossa. Um desses projetos se chama Impacton e é coordenado pela dra. Daniela Lázzaro, do Observatório Nacional. Conta com um telescópio robótico de 1 metro de diâmetro posicionado no sertão de Pernambuco e operado remotamente.

Todos os objetos no sistema solar estão sob a influência gravitacional do Sol, mas também dos gigantes gasosos Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Por vezes um PHA sofre um "puxão" desses gigantes. É aí que mora o perigo porque, enquanto estão em suas órbitas estáveis, podemos prever sua posição. Quando sofrem uma influência dessas, os parâmetros se alteram. Para voltarmos a prever a trajetória deles é necessário monitoramento contínuo por algumas semanas.

Ainda assim, no dia 6 de outubro de 2008, um meteoro com 2 a 5 metros de diâmetro foi descoberto por Richard Kowalski, astrônomo do projeto de monitoramento Catalina, no Arizona. Batizado de 2008 TC3, o asteroide foi monitorado por profissionais e amadores até que entrou na atmosfera no dia seguinte. Esse asteroide explodiu a 37 km de altitude e seus fragmentos se espalharam pelo norte do Egito e do Sudão. Uma equipe internacional conseguiu resgatar 47 meteoritos, somando quase 4 quilos de massa. Essa foi a primeira vez que um asteroide foi descoberto, acompanhado até sua entrada na atmosfera e resgatado em fragmentos. Mas resto uma pergunta na época: e se o asteroide fosse muito maior?

Não dá para responder com certeza quais teriam sido os estragos, mas certamente um objeto muito maior é também muito mais fácil de ser detectado. Infelizmente, o consolo acaba aí. Implantar bombas nucleares ou mesmo bombardear um asteroide com mísseis, por enquanto, somente no cinema.

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