Patas, volver!

Os jovens combatentes Liam e Theo morreram como heróis no Afeganistão. Liam lutava com as armas; Theo, com o nariz

JULIANA SAYURI, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h07

Liam e Theo eram melhores amigos. Um, o jovem soldado escocês de Kirkcaldy, mecânico habilidoso com jeito de escoteiro, moreno de olhos levemente puxados e sorriso fácil, novato do Esquadrão 104 de North Luffenham, no condado britânico de Rutland. Outro, o fiel escudeiro, corajoso e altivo apesar do corpo mignon, moreno de olhos amendoados, maxilar forte e riso às vezes ofegante, um macho alfa nas tendas de Camp Bastion, na província afegã de Helmand. Liam e Theo se conheceram no quartel. Em setembro de 2010, embarcaram juntos com o 1° Regimento de Cães Militares do Exército Real Britânico, rumo ao Afeganistão. Tornaram-se amigos inseparáveis. Um, o soldado de 26 anos, condecorado com a Ordem do Império Britânico em setembro de 2011. Outro, o springer spaniel inglês de 27 meses, também homenageado, na semana passada.

Liam e Theo morreram no dia 1° de março de 2011, numa emboscada de insurgentes taleban. Theo, o cão farejador, é o 64° animal a receber a Medalha Dickin, menção honrosa equivalente à Cruz Vitória, a mais alta condecoração militar britânica. O prêmio é concedido desde 1943 pela PDSA, sociedade protetora dos animais fundada pela londrina Maria Dickin em 1917 - até agora foram laureados 28 cães, 32 pombos-correio da 2ª Guerra Mundial, 3 cavalos e 1 gato. "Theo era excepcional. A medalha deve ser um lembrete vibrante do companheirismo e da lealdade desse cachorro", disse Jan McLoughlin, diretor da PDSA. Ao lado do oficial Liam Tasker, Theo quebrou recordes ao encontrar 14 bombas e explosivos ao longo de seis meses no campo de batalha, salvando milhares de civis e militares. Nessas façanhas, certa vez descobriu um túnel que levava a um esconderijo subterrâneo onde tropas inimigas fabricavam toneladas de bombas.

Antes do front, porém, a trajetória de Theo não deixou muitos rastros. Só se sabe que um belo dia o filhote estava às portas do Exército, sem coleira nem documento. No quartel-general de Melton Mowbray, passou por um treinamento rigoroso de 15 semanas para farejar bombas e se preparar para ações em helicópteros, incêndios e explosões. Ali encontrou Liam. Treinaram juntos para integrar o 1° Regimento de Cães Militares, que atualmente conta com 5 esquadrões, 284 soldados e 200 cães. "O cachorro é o melhor amigo do soldado. E não há vínculo mais forte entre eles que numa guerra. Lá ficam juntos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Além disso, a vida do soldado - e a de muitos outros - depende do cachorro. Assim era a relação entre Theo e Liam", diz ao Aliás a americana Maria Goodavage, autora do best-seller Soldier Dogs (Dutton Penguin).

Queridinhos pela realeza britânica, os cães militares já receberam visitas de sir David Beckham e da princesa Anne, filha da rainha Elizabeth II, em Camp Bastion. No desenrolar da guerra, eles ficam na linha de frente para abrir caminho para as brigadas passarem com segurança. Aí Theo, com as orelhas felpudas em pé e o rabinho agitado, metia o nariz no chão para fariscar vestígios de TNT e C-4. A certo ponto parava, rabinho ainda mais alvoroçado, narinas inquietas e língua de fora, e sentava. Esse era o sinal para indicar onde poderiam estar os explosivos. "Bom menino!", dizia Liam.

Theo lembrava um cocker, mas malhadinho. Devia ter uns 50 cm de altura e não mais que 25 kg. Não tinha pedigree carimbado, mas se mostrava um springer spaniel exemplar - esses cachorros são lembrados como caçadores versáteis e enérgicos, com movimentos ágeis e faro aguçado. "No Exército, os cães são escolhidos mais por suas características que por suas raças. Cães de caça, como spaniels e labradores, são ótimos farejadores", diz um porta-voz do Exército Real. "Apesar das novas tecnologias bélicas, os animais ainda são muito importantes no front. Não há tecnologia que substitua a adaptabilidade, a agilidade e a robustez de um cão farejador", pondera a jornalista inglesa Fiona Cameron, no QG do Exército britânico no Afeganistão.

Além do território afegão, zonas de conflito como Bósnia, Iraque e Kosovo já tiveram seus oficiais caninos, como pastores alemães, pastores belgas e até poodles. Na verdade, desde que há guerra há cães de guerra, como patrulhas, mensageiros e mascotes. "Só para a Guerra do Vietnã, o Exército americano mandou 4 mil cachorros, 200 voltaram. Nem todos morreram em combate, mas muitos foram abandonados lá", lembra Maria Goodavage. Hoje, o destino pós-guerra desses soldados é, digamos, mais honroso: eles voltam para casa, se aposentam aos 8 anos e se tornam pets. Uma vez adotados por uma família, só mimos, frisbies e carinhos.

Theo e Liam voltariam para casa em breve, mas foram recrutados para uma missão em Nahr-al-Siraj com a guarda irlandesa. Liam foi baleado, o 358° soldado britânico morto no Afeganistão desde 2001. Theo não foi atingido e foi levado à base britânica por outros oficiais. De repente, teve convulsões e não resistiu. "Morreu de tristeza, de coração partido", garantiu Jane Duffy, mãe de Liam Tasker, aos tabloides ingleses.

O corpo de Liam e as cinzas de Theo foram repatriados num Hercules. Na semana passada, o sargento Matthew Jones e a cadela farejadora Grace receberam o prêmio em nome deles, em Londres. Theo foi consagrado como herói de guerra, com toda a pompa militar e uma medalha de bronze. E um lembrete de que todos os cães merecem o céu.

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