Jorge Guerrero/AP
Jorge Guerrero/AP

Pátria amada

Diego Costa jamais trairia seu bairro, sua rua, seu campinho, seus amigos. Porque patriotismo é o que ficou na infância - o resto são abstrações

Ugo Giorgetti*,

02 de novembro de 2013 | 16h36

Uma das coisas mais interessantes dessa pobre polêmica sobre o jogador que preferiu a seleção da Espanha à do Brasil é seu início. E ela começou quando Luiz Felipe Scolari foi vítima de uma brincadeira, eu diria de uma sacanagem de mais puro estilo brasileiro, levada a cabo por um jornalista espanhol que se fez passar por dirigente do Atlético de Madrid e nessa qualidade manteve uma conversa telefônica com nosso treinador. Do alto de seu ego, Felipão jamais supôs que seu interlocutor pudesse ser apenas um gaiato que resolvesse se divertir e, levando a farsa a sério, se desmanchou em razões para explicar que pretendia contar com Diego Costa para a Copa. E de quebra deu suas respostas numa língua estranhíssima com vestígios remotos de espanhol, revestido de forte sotaque gaúcho.

Essa seria, por todos os títulos, uma ligação telefônica que Felipão não gostaria que estivesse ao alcance do público. Não fez nenhum comentário a respeito do telefonema que eu tenha ouvido, mas, dado seu caráter não exatamente brincalhão, imagino que tenha ficado possesso quando soube que tinha sido alvo de uma piada. É isso, a meu ver, o que está na origem de tudo. Quando, por razões que não vêm nem ao caso, Diego Costa disse que preferia a Espanha, é possível que o ódio represado de Felipão tenha se voltado contra o jogador. É só uma impressão sem nenhuma comprovação prática. Mas creio que só ela explica seu destempero ao anunciar a recusa do jogador. Eu podia sentir que, enquanto falava da atitude pouco patriótica do Diego, pela sua cabeça desfilavam imagens do telefonema e talvez do jornalista espanhol ainda às gargalhadas. Não é assim que se fala com um pai de família! Muito menos com o pai da sagrada “família Scolari”. Com certas coisas não se brinca.

Felipão, pelo menos, não parece ser do tipo que aceita brincadeira, principalmente quando o assunto é ele mesmo. E trata-se exatamente disso. Diego Costa não recusou o Brasil ou a seleção brasileira. Recusou Felipão. Ele não disse isso, mas esse bem pode ser o motivo. Por que não? Teria ele recusado se o treinador fosse Muricy ou Abel Braga? Nunca saberemos. Ele recusou um chamado de Felipão. E não se recusa um chamado de Felipão impunemente. O problema do patriotismo foi imediatamente colocado em pauta. E a questão foi desviada de Felipão para o Brasil. Inflamado de ardor cívico, onde só faltou subir numa cadeira e declamar Olavo Bilac, Felipão, expressões faciais e tom de voz adequados, quase viu crime de lesa-pátria na atitude de Diego Costa. Faltou acrescentar que em tempo de guerra isso dá em fuzilamento. E para muita gente uma copa não é guerra?

A imprensa naturalmente deu destaque suficiente para que o fato se transformasse numa polêmica. Eu esperava com certa ansiedade que o jogador fosse acabar com a incipiente questão simplesmente não dando nenhuma explicação. Por que deveria ele explicar sua decisão? Mas o jogador acabou tentando se explicar e, pior, ele também entrou pelo viés do patriotismo. Diga-se de passagem, que a polêmica transcorreu entre jornalistas especializados. Duvido que ela tenha, de alguma forma, atingido os torcedores. Acho que a maioria do público brasileiro não tem a mínima ideia de quem é Diego Costa. E também, em razão da longa tradição de grandes centroavantes brasileiros, nem ficaria muito impressionado se o visse jogar. Nosso gorducho Walter é bem melhor do que ele, só para citar um jogador na moda.

Fica então a questão do patriotismo. Ao contrário de palavras cujas definições são alcançadas na solidão dos estudos, na meditação solitária, raramente pronunciadas fora das salas de aula e do silêncio de bibliotecas, patriotismo é uma palavra, em geral, definida por gritos. Patriotismo é mais um brado, evocado no calor de alguma disputa, num gesto teatral, geralmente para fazer calar o oponente, ou provocar uma ação emocional. Não é mais do que um expediente para resolver uma disputa num momento vital, conseguir adeptos e, ao mesmo tempo, destruir o adversário. Passada a causa da disputa não se fala mais em patriotismo. Até que apareça uma nova oportunidade. Ou uma nova copa. Patriotismo é uma questão individual. Cada um, em verdade, tem o próprio patriotismo. O mais entranhado, a meu ver, é o que ficou na infância.

Para Diego Costa, patriotismo talvez seja o que ele sentiu por abandonados campinhos de terra onde jogava bola com companheiros que ficaram por lá, na sua cidade. O terreno baldio era sua pátria perdida. Não por acaso sua atitude, ao preferir a Espanha, foi louvada praticamente pela totalidade dos habitantes de Lagarto, Sergipe.

Diego Costa, tenho certeza, jamais trairia seu bairro, sua rua, sua cidade e seus amigos de infância. Fora isso, o que há são abstrações que cada um usa como quer e na hora que quer. Um grande escritor norte-americano, numa de suas obras mais vigorosas, escreveu: “Sou um patriota do 14º Distrito do Brooklyn, onde fui criado. O resto dos Estados Unidos não existe para mim, exceto como ideia, história, ou literatura”.

*UGO GIORGETTI É CINEASTA E COLUNISTA DO ESTADO. DIRIGIU, ENTRE OUTROS FILMES, BOLEIROS - ERA UMA VEZ O FUTEBOL... (1988)

Tudo o que sabemos sobre:
Copa do Mundo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.