Patrimônio

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 16h00

Nair Benedicto sempre soube que queria trabalhar com imagens, mas começou a fotografar porque não conseguiu emprego na televisão. Fez o curso de Rádio e TV na Escola de Comunicações e Artes da USP, só que, por colaborar com a ALN de Carlos Marighella, acabou presa em 1969. Depois de nove meses entre o Dops e o Presídio Tiradentes, em São Paulo, a falta de um maldito papel lhe complicava a vida: a ficha de antecedentes criminais limpa. Até encontrou emprego. Ia enrolando, enrolando e, quando o departamento pessoal da firma pedia o atestado, era mandada embora. 

A certa altura, pensou em fazer TV sozinha. Pesquisou equipamentos para importar do Japão, mas eram câmeras grandes e pesadas. Precisaria de caminhonete para carregar tudo, equipe... e então desistiu. A fotografia parecia mais viável. Faria sozinha o que bem entendesse, venderia e não pediria papel maldito nenhum. Mas fotografar o quê? Quem? Onde?

Em 1970, percebendo que pessoas próximas se mostravam incomodadas com a quantidade de nordestinos chegando a São Paulo, descobriu a resposta. Fotografaria a vida desses nordestinos que tanto “incomodavam”. Foi ao Forró de Mário Zan, sanfoneiro famoso por suas músicas de festa junina, pra lá do Jabaquara, na zona sul da cidade. Retratou as pessoas e montou uma exposição ali mesmo. Ampliações baratas penduradas num barbante. 

De passagem por São Paulo e à caça de exposições fora do circuito de galerias e museus, o então diretor de fotografia do MoMA de Nova York, John Szarkowski, apareceu por lá. Comprou uma série de fotos de Nair para a coleção do MoMA, uma das mais importantes do mundo. Foi assim, em grande estilo, a primeira venda da carreira recém-começada de uma das grandes fotógrafas do Brasil. 

Lá se vão 44 anos e, aos 74, Nair só pensa em não parar. Para o Aliás, ela escolheu os retratos e as histórias de moradores de Paraty que produziu em 1980 e acabam de ser recuperados para a celebração dos dez anos da Casa de Cultura da cidade.

Por que Paraty?

Depois que saímos da prisão, em 1970, eu e meu marido queríamos gastar o dinheiro do auxílio-reclusão em algo que fosse permanente e decidimos comprar uma casa de veraneio lá. Eu era frequentadora da cidade e me chamaram a atenção esses personagens tão característicos. Entre 1979 e 1980 decidi fazer uma documentação deles para uma exposição que aconteceu na Igreja Matriz durante a Festa do Divino. Paraty, por ter aqueles casarões coloniais, ruas de pedras e ser toda colorida, já foi muito fotografada, mas eu quis retratá-la a partir de seus moradores. 

E como você os retratou?

Pedi que cada um escolhesse um lugar da cidade, uma roupa característica, ou os dois juntos. Queria fotografá-los inseridos no contexto de Paraty e de suas vidas. O ator José Carlos Nunes, Zezeca, marcou comigo três vezes e não apareceu. Eu disse pra ele “olha, eu venho de São Paulo só pra isso, se você não quer participar tudo bem, mas precisa me dizer”. Ele então me explicou que queria sair na foto, mas queria sair vestido de índio e não sabia se eu gostaria da ideia. Mas minha vontade era exatamente essa: retratá-los da forma como desejassem. E assim fizemos.

Como se os moradores também fossem patrimônio da cidade.

Muitos deles já morreram, mas ainda têm família lá. Estávamos montando a exposição, as pessoas passavam pela rua e entravam curiosas para ver. Um senhorzinho se aproximou e disse: “Dona, eu não estava entendendo nada disso aqui, mas agora entendi: você tomba pessoas”. Numa cidade onde tudo é tombado, acho que tombei seus habitantes mais característicos. 

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