Ediora 34
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Paul Celan, o poeta exilado da língua alemã

‘A Rosa de Ninguém’ e ‘Ar-reverso’, ambos da Editora 34, são exemplos da relação conturbada que o romeno tinha com o alemão

Luís S. Krausz * , Especial para o 'Aliás'

05 de junho de 2021 | 15h00

Paul Celan (1920-1970), cujo centenário tem sido lembrado por meio de colóquios, seminários e conferências em grandes universidades pelo mundo afora, nasceu em Czernowitz, hoje Chernivitsi, cidade ucraniana que, à época da sua infância, era na Romênia, mas que, até 1918, tinha sido parte do Império Austro-húngaro. 

Na segunda metade do século 19, a cidade, que ficava junto ao que era então a fronteira russa, transformou-se numa Viena em miniatura, destinada a servir como polo de irradiação da cultura austro-germânica nos confins orientais da monarquia do Danúbio, um bastião de civilização em meio a um território que, segundo o discurso imperial da época, era identificado com a barbárie. 

O longevo Kaiser Franz Josef, que regeu de 1848 até sua morte, em 1916, ali fez construir uma universidade de língua alemã, um teatro de língua alemã, salas de concerto e de ópera, bibliotecas e escolas alemãs, empenhado em educar a população local de acordo com os valores constitutivos de seu império. E os mais entusiasmados aderentes da cultura austro-germânica em Czernowitz foram, sempre, os judeus, cerca de um terço da população local que, mesmo depois do esfacelamento do Império, continuariam fiéis a essa língua e a essa cultura, alheios ao que se passava na Alemanha e na Áustria das décadas de 1920 e 1930. 

Por este motivo, o romeno Paul Celan, deportado para um campo de trabalhos forçados nazista em 1942, foi um poeta de língua alemã que, por sua história de vida, tinha uma relação particularmente contraditória e torturada com essa que, de língua do progressismo, da modernidade e da emancipação judaica, tornou-se a língua do extermínio.

Esta relação ambivalente e paradoxal com a própria língua marca toda sua produção poética, assim como a experiência indizível dos campos de concentração. Por isso, grande parte de sua obra tenta levar a linguagem além de seus limites, para expressar a petrificação do horror absoluto. 

Em 1969, na antologia Quatro Mil anos de Poesia, organizada por Jacó Guinsburg, foi publicada no Brasil a primeira tradução de um poema de Celan: tratava-se da Todesfuge, certamente sua obra mais conhecida, vertida por Modesto Carone sob o título Fuga da Morte (questionável porque o alemão Fuge se refere a uma fuga no sentido musical, mas não a uma fuga no sentido de fugir). Dez anos mais tarde, Carone publicaria A Poética do Silêncio, ensaio em que aproxima e contrapõe as poéticas de Celan e de João Cabral de Melo Neto, igualmente nascido em 1920. Tudo leva a crer que Celan e João Cabral nada sabiam um do outro. Para Carone, porém, os dois focalizaram, cada qual à sua maneira, a abolição da justiça e da compaixão, que conduz à aberração, ao desespero e à destruição. Ambos têm em comum, igualmente, o fato de levaram a linguagem poética a transcender seus limites, por meio de uma condensação em grau máximo.

A linguagem de Celan de fato remete a uma busca pela palavra absoluta: em seus experimentos poéticos mais ousados, ele deixa para trás as regras da gramática e da sintaxe e empresta a seu texto um caráter hermético. O leitor, portanto, se aproxima de sua poesia como quem tateia no escuro e, de maneira precária, obtém uma vaga ideia do que tem pela frente. Pois Celan fala de coisas que não podem ser nomeadas, sob o risco de paralisar e petrificar o falante – e também seu ouvinte. Carone aplica o conceito de “medusamento”, concebido por Benedito Nunes, à poética de Celan, que tematiza a desumanização e a transformação do ser humano em coisa e logo em pedra.

Traduzir Celan é uma tarefa particularmente árdua: para além de todas as alusões, das quais seu texto está sempre saturado, e que formam, por assim dizer, um segundo texto subterrâneo, que corre por debaixo de suas linhas, há também o problema dos neologismos, que ele frequentemente criava por meio da justaposição de palavras – prática frequente, que faz sentido em alemão, porém inexistente nas línguas latinas.

Até hoje, Celan tem sempre sido traduzido ao português de maneira um tanto aleatória, na forma de antologias que reúnem fragmentos de seus livros publicados em alemão. Destaca-se, dentre estas, a já clássica, de Claudia Cavalcanti, intitulada Cristal, publicada pela primeira vez em 1999 e que, para além de seus grandes méritos poéticos, de fato tornou Celan mais conhecido e estudado no País. Agora chegam ao leitor brasileiro duas novas edições bilíngues, que certamente marcarão de maneira definitiva sua recepção no universo de língua portuguesa: A Rosa de Ninguém (Die Niemandsrose), que acaba de ser lançado, e Ar-reverso (Atemwende), previsto para o segundo semestre desse ano, ambas pela Editora 34. Trata-se de livros completos de poesia, que foram organizados pelo próprio Celan. 

Celan publicou A Rosa de Ninguém em 1963 e dedicou esse livro à memória de Ossip Mandelstam, vítima do terror stalinista, cujos versos traduzira para o alemão. O volume representa um ponto de inflexão em sua trajetória e, pela primeira vez, inclui palavras em ídiche, a língua dos enclaves judaicos, deixada para trás pelos judeus de Czernowitz em busca de germanização e modernidade, bem como elementos da liturgia, do pensamento religioso e do folclore judaicos, igualmente negligenciados por este grupo. Traz, também, a marca do ceticismo e do hermetismo poético, determinantes em sua obra mais tardia.

Da musicalidade da poesia de Celan pode-se dizer que ela evoca as orquestras de prisioneiros que, nos campos de extermínio, eram obrigadas a tocar enquanto os condenados eram conduzidos à morte. Não é, por óbvio, algo que se possa recriar em outra língua. Além disto, a sonoridade dos versos alemães não tem parentesco algum com os registros mais doces das línguas latinas.

Maurício Mendonça Cardozo, tradutor de A Rosa de Ninguém, contorna muito engenhosamente estas questões ao manter, entre os versos, relações que correspondem às dos originais, seja por assonância, seja pelo ritmo, seja por rimas. Além disto, o impacto dos poemas de Celan reunidos nesse volume se multiplica por meio de um efeito de sinergia e Cardozo afirma, em seu prefácio, que “a tradução e publicação de livros de poemas pode favorecer (...) o exercício de um olhar que se projeta sobre o grau de importância que determinado autor confere à unidade do livro.”

Numa carta à sua mulher, Gisèle Celan-Lestrange, Celan define Atemwende, publicado originalmente em 1967, como “a coisa mais densa que tinha escrito até a época, e também a mais ampla”. Atormentado por problemas psíquicos que o levariam ao suicídio em 1970, ele criou os versos incluídos neste volume durante um período em que viajava, incessantemente, entre uma e outra internação em sanatórios.

Em sua tradução desta poesia torturada, Guilherme Gontijo leva a língua portuguesa a extremos “e apresenta em português o Celan que convida o leitor a viver a poesia como encontro ainda inacabado.” Busca, assim, preservar o choque gerado pelas experimentações cada vez mais ousadas do poeta, entendidas pelo tradutor como maneiras de construir subjetividades.

Esses dois volumes magistrais representam um passo decisivo na recepção de Celan entre nós, e em sua consolidação como um dos grandes nomes da poesia do século das catástrofes. Fazem, além disto, crer que, num futuro não muito distante, sua obra estará disponível, na íntegra, ao leitor de língua portuguesa.

* Luís S. Krausz é docente de Literatura Hebraica e Judaica da Universidade de São Paulo

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