Gustavo Miranda/Agência O Globo
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Paulo Henriques Britto une rigor e fluidez em poemas

Com uso de recursos tradicionais no contexto contemporâneo, 'Nenhum Mistério' mostra-se um maduro trabalho de mestre

Marcelo Tápia*, Especial para o Estado

17 Novembro 2018 | 16h00

Tudo dá em nada. Apenas a decepção “é o que há em matéria de sentido”. Mas “Não há glória maior / que a conquista do nada”: um objetivo que o poeta Paulo Henriques Britto almeja e obtém em seu livro Nenhum Mistério, feito de uma espécie de “música secreta”, ainda que “fale” com certa fluência coloquial. Como usar o tom confessional sem permanecer no âmbito do próprio umbigo? A poesia de Britto constrói seu universo, embora sua motivação provenha, aparentemente, de uma visão das coisas resultante de uma história de vida; nesse universo poético, questões fundamentais da existência adquirem voz, mas não apenas como comentários sobre experiências: os poemas se fazem, eles mesmos, vivências em torno de um modo de ver o que nós podemos esperar: o nada. 

Trata-se de uma educação, não pela pedra, sequer pela presença de uma coisa, mas – ao menos em princípio – pela ausência: “Aprender enfim / a cruel lição: / a que só se aprende / por subtração: // a que não saber não é desvantagem / pois nem sempre é ganho / uma aprendizagem )”. Vale a pena a consciência da lição de perda? Ou vale a lição da própria consciência, “peso morto / que acusa o golpe sofrido/ e cochicha ao pé do ouvido/ depois que o fato se deu:/ nada que te pertence é teu”? 

O vazio da descrença na posse de algo aponta para “Nenhuma arte”, que não abole a dúvida (como se pode ver no poema com esse título): “Os deuses do acaso dão, a quem nada / lhes pediu, o que um dia levam embora; / e se não foi pedida a coisa dada / não cabe se queixar da perda agora. / Mas não ter tido nunca nada não / seria bem melhor – ou menos mau? / Mesmo sabendo que uma solidão / completa era o capítulo final, / a anestesia valeria o preço? / (Rememorar o que não foi não dá / em nada. É como enxergar um começo / no que não pode ser senão o fim. / Ontem foi ontem. Amanhã não há. / Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)

Noções como essas evocam a poesia de Fernando Pessoa quando esta focaliza a falta de consciência associada à felicidade: “Ela canta, pobre ceifeira, / Julgando-se feliz talvez; / Ah, poder ser tu, sendo eu! / Ter a tua alegre inconsciência, / E a consciência disso! Ó céu! ” (Cancioneiro). Associar a consciência à felicidade, a descrença à necessidade de seguir fazendo é, por um lado, possibilidade desacreditada; por outro, no dizer de Britto, não há como não “Permanecer aqui, / apesar e além. / Estar, mesmo assim, / mesmo sem”.

Reinscreve-se, em outro plano, o horizonte drummondiano da “vida besta” e do estado geral de descrença e derrota da ilusão: mesmo para quem “detesta / a inútil narrativa” dessa história sem mistério, cujo final – como se sabe “desde o início – / é banal, / melancólico, besta / e isento de moral”, não há alternativa senão buscar “um mal preciso” para “o remédio já encontrado”, “Pois é mister que se aproveite / o que se tem, por mais daninho, / que da pedra que há no caminho / se extraia o leite”. Prosseguir é inevitável: “a esta altura, desistir / não é mais uma alternativa: / o fracasso se tornou / a própria textura da vida”. 

A falta de sucesso – e a falta, de modo geral, – convertem-se em presença: textura da vida. O ato de reverter o abismo, atribuir um valor (ou sinal) ao nada, dirige-se ao que virá em determinada ordem de criação, a um sentido que se segue a partir de um princípio, ao que se torna positividade: “ Os dias / vêm antes das noites, não depois ”; se “Todas as coisas que existem no mundo / fazem sentido ”, “Ficam sem efeito as contradições / todas ”.

Apesar de tudo, ou do nada, fazer: no caso de Nenhum Mistério, fazer com feições nítidas: os poemas são bem demarcados formalmente, elaborados com a consciência do ritmo e do metro, e de se tirar proveito deles para a ideia, assim como de outros recursos da poética. Há predominância, no conjunto, do uso da métrica uniforme; encontram-se versos decassílabos, por vezes com acentuação regular, como no jâmbico “Seria igual se fosse diferente”; hexassílabos como estes, também com acentuação uniforme:

“Tempo agora perdido / (todo tempo se perde) / vivo só nos vestígios”. Há, também: redondilhos maiores – “Não se fazem mais lembranças / como as de antigamente”; redondilhos menores – “pois não há teoria – / só práxis – da ausência”; octossílabos – “Palavra perdida no fundo / do corpo entre sonho e lembrança”; eneassílabos, como “falsos começos, fins em aberto”, feito de dois tetrassílabos com igual disposição de sílabas tônicas; etc. Há poemas que combinam metros diversos, com critérios depreensíveis, como o que associa versos de dez, oito, seis e quatro sílabas (a parte II do poema que dá título ao livro); há os que se valem da métrica para incorporar sentido, como no caso de Muro, no qual a quebra na palavra refere-se metalinguisticamente ao que se diz: “Serve qualquer material / que seja sólido e rígido, / capaz de criar desconti- / nuidade no mundo físico”. 

Por meio do uso coerente de recursos tradicionais, inserido no contexto contemporâneo, o livro de Paulo Henriques Britto mostra-se, a este leitor, como um maduro trabalho de mestre, que incorpora referências e repertórios múltiplos e opta por manter-se num espaço formal definitivamente decantado, como sedimentação do encontro da fluidez com o rigor, da oralidade efêmera com a escrita perene, da significação imediata (ainda que etérea) com as significações decorrentes da apreensão posterior dos sentidos que se desdobram.

*Marcelo Tápia é poeta e ensaísta, doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP 

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