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Paulo Mendes Campos e sua incontornável poesia de viver

Das efemérides deste 2022, importa o centenário do escritor mineiro

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 16h00

Dos vários centenários deste 2022—Modernismo, Independência, 18 do Forte, União Soviética, Judy Garland, Stan Lee etc—os que mais me tocam pessoalmente são os de dois mineiros quase irmãos, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. O do primeiro foi na segunda-feira, o do segundo só daqui a dois meses. Eram os mais velhos de um inconsútil quarteto de “vintanistas” (apud Mário de Andrade) que só a morte conseguiu separar. Fernando Sabino terá de esperar até o ano que vem. E Hélio Pellegrino, até 2024. 

Era pegar ou largar: ou escrevia algo sobre o centurial poeta e cronista aproveitando o Carnaval (Paulinho nasceu na Terça-feira Gorda de 1922, em Belo Horizonte) ou arrumava um jeito de encaixá-lo na guerra da Ucrânia e me redimir um pouquinho de fugir ao mais relevante e obsedante assunto do momento. 

Na guerra, por motivos óbvios, não haveria como encaixá-lo, pois ele se foi deste mundo com a União Soviética ainda de pé e a Ucrânia ainda satélite. Mas acabei arrumando um jeito. Bastou-me lembrar de Clarice Lispector. Que, além de ucraniana da gema, foi apaixonada por Paulinho.  

Noves fora Rubem Braga, único concorrente de si próprio, o autor de Os Bares Morrem Numa Quarta-feira sempre foi o meu cronista favorito —e o de Luís Fernando Veríssimo também. 

Tinha “o olhar perspicaz para descobrir o sabor oculto nas miudezas e circunstâncias da vida, humor e ironia refinados e uma destreza para lidar com as palavras decantada em invenção poética”. Não conheço definição mais concisa e precisa da proesia de Paulinho do que esta, do jornalista Flávio Pinheiro. 

Erudito sem aspas nem negrito, discorria sobre poetas ingleses com a mesma naturalidade com que divagava sobre futebol e seu Botafogo. Jogou basquete na juventude, quase morreu tentando virar piloto, estudou veterinária, direito, farmácia e letras, trabalhou para rádio e cinema. Iniciou-se como mata-mosquito no funcionalismo público, do qual se aposentou como “técnico em comunicação social”.

Retraído, parecia não saber sorrir. Sóbrio, era um gentleman; alcoolizado, um Mr. Hyde, um demônio. Perdeu a conta de quantos bares frequentou em 14 cidades brasileiras e pelo mundo afora, inclusive na China e Rússia. Operoso, escrevia aos borbotões, para todos os fins e meios. Chegou a imaginar um escritório de “fazeção de textos”, que não levou adiante. 

Se ao jovem Otto Lara apresentou o uísque (White Horse), a mim apresentou os profiteroles do há muito extinto restaurante Real Astoria, nos confins do Leblon. Também à mesa, o igualmente poeta Geraldo Carneiro, nossa interface permanente, no Rio e em Rio das Ostras, onde Paulinho encarnou Pedro numa foto do arquiteto Alberto Reis reproduzindo a Santa Ceia de Da Vinci, que o Pasquim tornou célebre no início dos anos 1970. 

Ah, sim, no romance à clef de Sabino, Encontro Marcado, ele é o Veiga.

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