Acervo Estadão
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Peça censurada de Oduvaldo Vianna Filho é publicada em livro

'Papa Highirte' foi encenada em 1979 e satiriza um ditador exilado de seu país

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

23 de março de 2019 | 16h00

De repente, livros do século passado começaram a se tornar mais atuais do que nunca e parecem ter sido escritos ad hoc, com o objetivo de apresentar ao leitor o tempo em que ele vive. A reedição de alguns clássicos parece uma tendência mundial, da qual o Brasil não ficou de fora. É nessa onda que volta às prateleiras das livrarias (cada vez mais virtuais e menos físicas por aqui) Papa Highirte (Editora Temporal), do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho. A peça, escrita em 1968, em plena ditadura militar, venceu, no mesmo ano, o Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro (SNT), o que não a impediu de ser censurada logo em seguida. Aliás, a censura atingiu o próprio Concurso de Dramaturgia do SNT, que ficou suspenso até 1974.

Papa Highirte conta a história de um ditador que, após ser deposto, precisa abandonar a sua Alhambra, uma república latino-americana fictícia, e se refugiar na também imaginária Montalva. Segundo Maria Sílvia Betti, que assina a apresentação e o posfácio dessa nova edição da peça, “a alcunha ‘Papa’ coloca-o em analogia histórica direta com François ‘Papa’ Doc Duvalier, ditador do Haiti entre 1957 e 1971”. O problema das analogias é que elas se multiplicam, e, nesse sentido, diria que esse ditador, vindo de Alhambra, nome de uma fortificação espanhola localizada em Granada, Espanha, remeteria também a outros regimes totalitários ao redor do mundo, principalmente ao do general espanhol Francisco Franco, que governou com punho de ferro seu país por quase quatro décadas.

Na realidade, Papa Highirte fala sobre golpes de Estado em sucessão: o ditador foi deposto por um, mas quem toma o seu lugar passa a ser vítima de outro, uma vez que ele desagrada quem verdadeiramente governa o país, o “estrangeiro”, numa clara alusão aos Estados Unidos da América e aos empresários. 

A peça de Vianna Filho, escrita no passado, surpreende, como disse acima, por remeter ao presente. Se pensarmos na Venezuela de hoje, Papa Highirte poderia ser comparado ao presidente Nicolás Maduro, que, tal como o ditador da peça de Vianna Filho, tenta se comunicar com os norte-americanos num inglês ordinário: “Queremos isso, queremos aquilo, we want, we want, we want.” Mas, ao contrário de Maduro, que tem os americanos como inimigos, Papa Highirte sabe que eles são indispensáveis para fazê-lo retornar ao poder, mesmo que depois venham a cobrar um preço alto e mesmo que não os considere confiáveis. A propósito, ao pedir um empréstimo ao “estrangeiro”, este reponde que seu país só dá empréstimo a governos democráticos, enfurecendo Papa Highirte, que o acusa de mentiroso, elencando os muitos países autoritários que receberam ajuda dele. E tem sido assim até hoje: os Estados Unidos lutam pela democracia na Venezuela enquanto se sentam lado a lado com o ditador norte-coreano.

Todo ditador é, no fundo, grotesco. Papa Highirte não foge à regra. Considera-se acima de tudo amado pelo povo e um grande líder, que assinou os mais disparatados decretos, como o de obrigar que se usassem 60% de trigo no pão. 

O ditador sente-se, portanto, pronto para voltar ao poder, mas é o General Perez y Mejia quem lembra que Papa Highirte é apenas “um mero coronelzinho e coronelzinho devia ter ficado...”. Os militares sabem que ele não tem competência para governar, e, se um dia o apoiaram, não tornariam a fazê-lo. Mesmo assim, para acamá-lo, reservam a ele um ministério.

Outro tema que a peça traz à tona é o da imprensa livre, vista com reserva e desconfiança pelos regimes autoritários, razão pela qual o general Perez y Mejia cobra que o Clarín, o fictício jornal de Alhambra, seja fechado; afinal, ele “publica com destaque tudo o que não interessa ao governo”. Mas, em vez de fechar o jornal, Papa Highirte resolve cobrar dele a dívida na Previdência Social. Desse modo, mantém manso o veículo que poderia incomodá-lo. 

Diz o ditador deposto que o povo de seu país vê o trabalho como servilismo, que deveria espelhar-se nos americanos e, de maneira simplista, conclui, colocando a culpa na população: “sabe por que somos pobres? Porque ninguém se concentra durante mais do que 40 segundos na América Latina, eu deveria ter usado a violência, sabe? Ferro e fogo; com vocês só ferro e fogo...”. É assim, aliás, que ele trata as mulheres, com fortes bofetadas que ele considera nada de mais, apenas “um tapa de leve”. 

Nesse caos moral e governamental, o ditador segue, contudo, fazendo flexões: “Um... Dois... (Flexão de braços) Um... Dois... Bravos...”. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CENAS DO TEATRO MODERNO E CONTEMPORÂNEO’ (EDITORA ILUMINURAS)

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