Laura Page
Laura Page

Peça de Beckett é protagonizada por atriz com síndrome de Tourette

'Não Eu' é usada para discutir inclusão e deficiência ao ser encenada para surdos

The Economist

10 Março 2018 | 16h00

A nova encenação de Not I (Não Eu), de Samuel Beckett, vem se somar a um movimento crescente de atores e diretores inserindo a surdez ou a deficiência física em suas peças teatrais.

O papel do Auditor é comumente omitido nas produções do espetáculo Não Eu. O dramaturgo irlandês nunca encontrou uma maneira de esse personagem silencioso, agitado, que gesticula muito, atuar junto com o monólogo da Boca incorpórea, suspensa na escuridão dois metros e meio acima do palco.

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Mas tendo um intérprete da Linguagem de Sinais Britânica (BSL na sigla em inglês) no papel, a nova representação da peça no Battersea Arts Centre em Londres pode ter conseguido. Jess Thom, dramaturga e atriz que sofre da síndrome de Tourette (vivenciando milhares de tiques vocais e motores diariamente), decidiu encenar Não Eu em parte pelo desejo de mostrar a Boca como um personagem com deficiência. Frustrada com o número limitado de teatros acessíveis a artistas e ao público com deficiência, Jess Thom decidiu encenar o texto de Beckett.

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Ela, seu diretor Matthew Pountney, e o diretor do BSL, Deepa Shastri, trabalharam com Charmaine Wombwell numa tradução de Não Eu para a linguagem de sinais. “É preciso encontrar o equilíbrio certo entre expressar o significado do texto de Beckett para um público de surdos e reter um elemento fundamental do monólogo: o fato de ele ser falado tão rápido que há pouca esperança de entender tudo de qualquer maneira. A Boca (como personagem) vive em total isolamento e silêncio, salvo algumas ocasiões em que é consumida e fragilizada por uma “torrente de palavras” em que “sua boca pega fogo”. Algo com que Jess se identifica, já que sofre com a síndrome de Tourette, mas que é importante também para muitas plateias, incluindo o público surdo. Para ela, Não Eu tem a ver com “comunicação, linguagem e exclusão”.

A análise das nuances da tradução do BSL enriqueceu ainda mais suas ideias sobre esta peça tão complexa e raramente encenada.

A produção de Jess Thom tem a marca distintiva da chamada “estética de acesso”, ou o uso criativo do acesso para públicos com deficiência, dentro da estética do teatro, e que envolve discussões sobre o acesso e leva artistas surdos e com deficiência a tomar decisões criativas desde o início de um projeto. Em vez de se fixar apenas na interpretação da linguagem dos sinais, a audiodescrição, ou legendas explicando o fato são técnicas consideradas ferramentas tão fundamentais para a narrativa quanto a luz, o som e o guarda-roupa.

Agora generalizada entre os artistas com deficiência e aqueles que fazem teatro para um público também com deficiência, esta maneira de trabalhar nasceu da necessidade e a pioneira foi a diretora Jenny Sealey, ao assumir o comando da Graeae, companhia de teatro administrada por deficientes, no final dos anos 1990. Ela não podia pagar intérpretes BSL ou de audiodescrição para sua produção, então optou por gravar antes e projetar os sinais. Sua peça foi um sucesso e nas quase duas décadas depois disto ela continua a inovar. Seu musical Reasons to Be Cheerful (2010), baseado em músicas de Ian Dury & The Blockheads é um exemplo. Apresenta legendas no estilo dos slides usados na década de 1970 que são úteis para os espectadores surdos e ao mesmo tempo incentiva o acompanhamento do público, trazendo a atmosfera de um concerto de rock para a peça.

Fundamental para a estética de acesso é a ideia de que uma maior diversidade no palco e na plateia é benéfica não apenas para artistas surdos e deficientes, mas para a cultura em geral. Fazer teatro é contar histórias e quanto mais experiências forem narradas melhores são as histórias. O mundo do teatro tradicional está acordando para as possibilidades oferecidas por esse enfoque. Seis teatros liderados pelo New Wolsey, em Ipswich, participam do Ramps on the Moon, programa de trabalho em que eles se alternam para produzir um espetáculo itinerante em grande escala cujo elenco e equipe de criação são formados 50% por surdos e pessoas com alguma deficiência. A produção este ano, no Nothingham Playhouse é Our Country’s Good, de Timberlake Wertenbaker, sobre um grupo de presos ensaiando uma peça em uma colônia penal na Austrália. Alguns dos seis atores surdos do elenco apresentam suas falas em inglês e na linguagem de sinais, ao passo que outros assinam suas frases enquanto outros atores as enunciam. De qualquer maneira, a interpretação é concebida para ter sentido dentro da estrutura lógica dos relacionamentos na peça. O envolvimento dos atores surdos enriquece a produção artisticamente.

Reforçando tudo isto está o que chamamos de “modelo social” da deficiência, resultado do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência nas décadas de 1980 e 1990, cuja tese é de que os indivíduos são incapacitados não pelas suas deficiências, mas porque a sociedade não leva em conta a diferença. Entender esse modelo social transformou a maneira como Jess Thom se via. “É uma ideia radical para uma pessoa com deficiência, quando repentinamente percebe que ela não é o problema”, disse ela. Em vez de se concentrar em “corrigir” ou “curar” as pessoas incapacitadas, a sociedade tem de remover as barreiras comportamentais, estruturais e ambientais que as impedem de participar dela.

O programa Ramps on the Moon pretende exatamente isto, ampliando os caminhos para a arte para surdos e deficientes e buscando uma mudança estrutural nas organizações de cultura. O projeto recebeu um financiamento do Arts Council England para a segunda metade do programa, o que significa que haverá mais três espetáculos dos teatros participantes, como também mais três anos de trabalho duro fora do palco para a inclusão se tornar elemento básico dentro dessas instituições. Se o projeto for bem sucedido, o público de teatro verá muito mais peças baseadas na “estética do acesso” e um grupo mais diversificado de artistas no palco. / Tradução de Terezinha Martino

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