Peça de Mikhail Bulgákov crítica a Stalin é traduzida no Brasil

Peça de Mikhail Bulgákov crítica a Stalin é traduzida no Brasil

Espetáculo foi assistido e aplaudido pelo próprio ditador soviético na época

Aurora Bernardini*, Especial para o Estado

03 Novembro 2018 | 16h00

É importante mencionar alguns aspectos da primeira parte da biografia do médico-escritor ucraniano Mikhail Afanássievitch Bulgákov (1891-1940) , hoje considerado mundialmente um dos mais importantes escritores do século 20, uma vez que eles são transpostos em Os Dias dos Turbin, a peça em quatro atos (Editora Cambará), traduzida por Irineu Franco Perpetuo, o mesmo tradutor de O Mestre e Margarida (Editora 34), a obra-prima do autor. A peça, várias vezes censurada, terá sua redação final em 1925, enquanto O Mestre e Margarida, iniciado em 1928 e terminado em 1940, só será publicado postumamente em versão não expurgada em 1969, por ocasião de sua primeira tradução completa em Frankfurt, na Alemanha.

A peça Os Dias dos Turbin, estreada sob frenéticos aplausos do público em 5 de outubro de 1926, no antigo Teatro de Arte de Moscou que os críticos oficiais tachavam de convencional, ultrapassado e... reacionário, é ambientada na antiga casa do autor, em Kiev, num recorte (1918-1919) dos anos da guerra civil russa ( vários grupos fieis ao czarismo chamados “Brancos”, mais a coalizão Inglaterra, França e EUA, contra os Bolcheviques) que , conforme se sabe, só terminou em 1923, com a vitória desses últimos.

A biografia diz que Mikhail Bulgákov, primeiro entre sete irmãos , viveu numa família feliz . O pai, sábio e compreensivo, é professor de Teologia , a mãe, alegre e amante da música, é professora em escolas para moças, Mikhail, dado a paixões repentinas e dotado de uma magnifica voz de barítono, enamora-se , ainda criança, por Tatiana Lappa (mas, terá – ao todo – três esposas), com quem casará aos 22 anos, um ano antes do início da 1.ª Guerra e três anos antes de conseguir seu diploma com distinção e louvor, como médico-cirurgião, especialista em doenças venéreas. Isso em Kiev, capital da Ucrânia.

"Uma cidade maravilhosa, uma cidade feliz. A mãe das cidades russas. Porém, esses eram tempos lendários, tempos em que nos jardins da mais bela cidade de nossa terra vivia uma geração alentada, jovial”, escreve o autor em A Cidade de Kiev, um de seus contos. Tudo isso, infelizmente, há de mudar subitamente. Já em 1916, durante a guerra, ele é destacado como cirurgião em hospitais de campo, para ser, em seguida, nomeado diretor de um hospital do zemstvo, na região de Smolenk, lá permanecendo até 1917, quando é deslocado para Viazma, já dependente da morfina, devido às insuportáveis provações pelas quais tem de passar como único médico responsável por casos desesperadores. Mais tarde ele mesmo será vítima de uma epidemia de tifo, quase perdendo a vida e deixará a medicina para se dedicar exclusivamente à literatura. (Entre seus escritos sobre esse período estão os contos dramáticos Relatos de um Médico Jovem, traduzidos por Homero Freitas de Andrade em O Diabo Solto em Moscou, pela Edusp).

Em março de 1918, Mikhail volta com a mulher para Kiev, onde vai residir por mais um ano e meio e clinicar na velha casa dos Bulgákov. Em novembro de 1918 participa, como oficial, na defesa da cidade de Kiev - de onde os ocupantes alemães, que haviam designado para o governo ucraniano um hétmã fantoche, fogem para a Alemanha - contra a invasão do aventureiro Petliura que está organizando, no campo, um exército de duzentos mil homens, entre cossacos e camponeses.

É nesse momento que começa a peça. Mikhail é encarnado pelo jovem médico Aleksei Turbin, entre os irmãos e os amigos que coabitam na velha residência de outrora e sofrem as vicissitudes das diferentes ocupações de Kiev.

A peça em si justifica seu sucesso. É ágil, habilmente dirigida pelo próprio autor, com os golpes de cena (tiros, traições, amores, bebedeiras, mortes, fugas, reencontros) nos momentos nevrálgicos, com tiradas argutas e com o admirável contraponto das árias cantadas ou das músicas tocadas pela talentosa família. Relata-se que o próprio Stálin teria presenciado 15 vezes a apresentação dos atos da peça, tais como foram condicionados para serem aprovados pela censura, levando a uma espécie de apoteose dos vermelhos.

Mas... há outra menção que se torna necessária, agora: a da fonte originária da peça. Trata-se de O Exército Branco, o primeiro e volumoso romance escrito por Bulgákov, começado e destruído em 1920, retomado em 1924 e cuja segunda parte sairá em 1925, na revista Rossía, fechada em outubro do mesmo ano. Restam as provas da terceira parte, não publicada, mas que sairá clandestinamente em Paris, em 1929. Hoje, na leitura do texto completo descobre-se, em todos os bastidores omissos na peça, que há uma apoteose, e dessa vez verdadeira, não dos vitoriosos bolcheviques e sim dos jovens oficiais do derrotado exército do czar.

Além das obras citadas, foram publicados outros livros de Bulgákov no Brasil, entre os quais Um Coração De Cachorro E Outras Novelas (Edusp), exemplo formidável de sátira e ficção científica, e foi apresentada com sucesso a minissérie britânica de TV em oito episódios, baseada em Diário de um Jovem Médico (A Young’s Doctor Notebook, 2012-2013).

*Aurora Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP

Mais conteúdo sobre:
Mikhail Bulgakovliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.