SONORE WANDBEHÄNG
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Peça do músico Erik Satie é traduzida pela primeira vez no Brasil

Autor de 'A Armadilha de Medusa' foi considerado um precursor do dadaísmo e do surrealismo

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

12 de janeiro de 2019 | 16h00

Grande intérprete da obra para piano de Erik Satie (1866-1925), Jean-Pierre Armengaud, também renomado musicólogo, dedicou um estudo de fôlego ao conjunto das criações musicais desse irreverente mestre francês, que realizou uma das mais significativas revoluções estéticas do século 20, tendo influenciado, entre outros compositores, John Cage e Gilberto Mendes, que viram nele um precursor do dadaísmo e do surrealismo. Sobre a “comédia lírica em um ato do Sr. Erik Satie com música de dança do mesmo senhor”, que acaba de ser publicada no Brasil sob o título A Armadilha de Medusa, em tradução de Marina Bento Veshagem, pesquisadora do programa de pós-graduação em estudos da tradução da UFSC, Armengaud afirmou que se tratava de um “objeto” aparentemente inclassificável, o qual ele próprio não conseguiria definir.

Concebida entre 1912-1913, essa obra é, antes de tudo, uma peça de teatro (Satie foi um talentoso escritor que nos legou, entre outros textos refinados e humorados, Memórias de um Amnésico) com quatro personagens em cena: Barão Medusa (nome que remete ao mito grego e também ao animal marinho conhecido como água-viva); Policarpo, seu empregado; Frisette, a filha única do barão; e Astolfo, seu noivo. 

No entanto, existe uma quinta personagem que paira sobre todos os demais como uma terrível ameaça: o General Póstumo, uma das mais interessantes criações de Satie. A esse fantasma o barão dirige uma desastrada carta anônima (esqueceu-se de assiná-la), e com ele também tenta sem sucesso falar por telefone. Numa das passagens mais cômicas da peça, o barão discute com a telefonista: “Senhora, aqui não é a tabacaria... De qual matadouro de cavalo a senhora fala?... Um cavalo se aninhou embaixo da sua cama?... Tire-o daí a pontapés no traseiro!... É muito simples.”

Nesse diálogo surrealista o general é substituído por um cavalo que deve ser enxotado, mas ele não é o único animal mencionado na obra. Além da água-viva, inscrita no nome do barão, aparece também um macaco empalhado que dança sempre que a música é executada ao piano, conforme a primeira versão da obra. 

A estreia parisiense de A Armadilha de Medusa, em 1913 ou 1914, foi uma apresentação privada com a participação do próprio compositor; hoje, para quem queira assisti-la, há opções de montagem na internet, além de uma ótima gravação em CD, no álbum duplo Les Inspirations Insolites de Erik Satie, com “sete pequenas danças para oito instrumentos” (tal como se deu na execução de 1921, sob a direção de Darius Milhaud), o que torna ainda mais ensurdecedor o pandemônio final.

O general póstumo finalmente invade o palácio no meio da cerimônia de casamento (pode-se falar aqui em um final feliz frustrado), acompanhado de um coronel não menos intolerável do que ele, chamado, na tradução brasileira, de Gambá. Como se pode verificar, na peça de Satie, os personagens invisíveis são mais fortes e decisivos do que os demais, os quais estão perplexos e amedrontados, sobretudo o rico barão, que só deseja ir embora após admitir que será derrotado pelo seu opositor redivivo.

Há muitos jogos de linguagem no texto, que está estruturado sobre uma complexa e hilária sequência de diálogos disparatados, repletos de duplo sentido. Um desses jogos se deve ao fato de que, na língua portuguesa, a palavra “armadilha” parece anunciar o poder do próprio barão, que aparentemente conta com uma “arma” e uma “armada”. 

Em um curioso diálogo travado com seu futuro genro, ele pergunta: “Em que armada o senhor serviu?”, estreitando dessa maneira, em torno do rapaz, a sua implacável armadilha; fascinado, ele se deixar dominar e infantilizar. Apenas o general, que é póstumo e invisível, não pôde ser subjugado da mesma maneira pelos poderes da hipnose.

Ao fim de cada cena, como afirmou Armengaud, a música surge brevemente, direta e lapidar, não como um contraponto ao texto, mas como que lhe dando as costas, à maneira de uma “palhaçada”, a qual contribui para tornar a ação ainda mais ridícula. 

A música ativa os movimentos enrijecidos do grande macaco empalhado, o bailarino do espetáculo jovial e desnorteante de Erik Satie.

*Sérgio Medeiros é poeta e ensaísta, publicou, entre outros livros, 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' e 'Trio Pagão', ambos pela editora Iluminuras 

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