Karsten Moran/The New York Times
Karsten Moran/The New York Times

Peça dribla política migratória de Trump e leva refugiados ao palco

Sucesso em Londres, 'The Jungle' tem atores iranianos e sírios para contar história do acampamento de refugiados de Calais

Michael Paulson, The New York Times

08 Dezembro 2018 | 16h00

The Jungle (A Selva), uma nova peça britânica sobre o campo de refugiados francês de Calais, era uma candidata óbvia a estrear em Nova York: é elogiada pela crítica, atual, muito comentada e um sucesso de bilheteria.

Mas havia um grande problema: 3 dos 17 atores do elenco londrino são cidadãos de países predominantemente muçulmanos cujos residentes foram proibidos pelo presidente Donald Trump de viajar para os Estados Unidos.

A equipe de criação da peça e os produtores hesitavam em levar o espetáculo sem o elenco completo. Eles alegavam que as experiências de vida dos atores – muitos deles viveram no campo de refugiados de Calais, de que fala a na peça – é que dão autenticidade ao trabalho. 

Entretanto, tentar levar dois refugiados iranianos e um sírio aos Estados Unidos da era Trump para representar um drama simpático à causa dos refugiados era, para dizer o mínimo, uma experiência assustadora. 

“As probabilidades eram contra nós”, disse Stephen Daldry, que divide a direção da peça com Justin Martin. “Sabíamos desde o início que seria um desafio.”

Durante meses, uma coalizão de celebridades (como o músico Sting, ex-líder da banda The Police, e o ator de Hollywood Benedict Cumberbatch), líderes religiosos (Rowan Williams, o ex-arcebispo da Cantuária) e políticos (os prefeitos de Nova York, Bill de Blasio, e de Londres, Sadiq Khan) juntou suas forças para persuadir o governo americano a abrir para os atores uma exceção no embargo a viagens.

Havia, é claro, planos de contingência: um ator iraniano-americano, Arian Moayed, voou discretamente para Londres e ensaiou intensivamente para um papel chave, chegando a participar de uma apresentação. A ideia é que ele pudesse substituir um dos refugiados em Nova York, se houvesse necessidade. 

Outra ideia: depois que um dos iranianos foi inicialmente rejeitado pelo Departamento de Estado, os produtores decidiram que não tentariam persuadir os EUA a admitir a entrada do ator sírio, mas procurariam conseguir para ele a cidadania britânica, na esperança de que isso lhe facilitasse o acesso a Nova York. 

Funcionou. Os três atores – Ammar Haj Ahmad, o refugiado sírio que acabou se tornando cidadão britânico, e os dois iranianos – Moein Ghobsheh e Yasin Moradi – receberam do Departamento de Estado vistos de trabalho. Eles agora ensaiam na área de Dumbo, no bairro do Brooklyn, em Nova York.

“Ainda não acredito que estou nos Estados Unidos”, disse Ahmad, de 36 anos, que era ator na Síria antes de procurar asilo na Grã-Bretanha, onde ele e os dois iranianos vivem hoje. “É bizarro vivermos numa época em que é preciso todo esse trabalho para chegar a outro país e ao mesmo tempo é espantoso que tenhamos conseguido. Sinto-me um privilegiado. Cada dia que passo aqui penso nos milhões de pessoas que não podem ir de um lugar para outro.”

Com o elenco intacto, The Jungle vem fazendo algumas performances antes da estreia. Hoje, 9, o espetáculo será encenado no St. Ann’s Warehouse, um prestigiado e globalizado teatro situado à beira-mar, no Brooklyn. 

A peça tem um cenário imersivo – a plateia senta-se na réplica de um café afegão do campo de refugiados e as atividades e discussões após o espetáculo são na mesma cúpula geodésica usada pelos roteiristas, Joe Murphy e Joe Robertson, quando estabeleceram o Good Chance Theater no acampamento, que era conhecido como “A Selva de Calais”, em 2015. A temporada de The Jungle tem duração prevista de oito semanas, o que faz dela a mais duradoura da história desse teatro. 

Ghobsheh, compositor e músico de 23 anos que agora está usando seu primeiro nome, Milan, e Moradi, lutador de kung fu de 26 anos que fez parte da equipe nacional iraniana, foram descobertos para o teatro no acampamento de Calais. Moradi é curdo e disse que deixou o Irã porque a vida estava ficando cada vez mais difícil para seu povo. Ele dava aulas de kung fu para outros refugiados quando começou trabalhar como ator e acredita na força da peça para “ajudar a mostrar nossa história”.

Matthew Covey, advogado do Brooklyn cuja banca é especializada em ajudar artistas internacionais com problemas de visto, juntou 160 páginas de argumentação legal e cartas de apoio ao St. Ann’s e aos refugiados. Ele disse que artistas performáticos enfrentam há anos desafios para entrar nos EUA, mas a proibição de Trump é um obstáculo novo que ainda não havia sido testado. Além de Síria e Irã, o decreto de Trump proíbe voos procedentes da Líbia, Iêmen, Somália, Venezuela e Coreia do Norte. A proibição foi sancionada em junho pela Suprema Corte, após duas versões anteriores serem derrubadas. 

“A questão dos refugiados está hoje na mente de todos”, disse Covey. “Assim, uma peça teatral poderosa saída desse contexto é muito convincente. Quando o caso chegou até nós, dissemos ‘temos que fazer dar certo’.”

Uma ajuda importante veio da senadora Kirsten Gillibrand, democrata do Estado de Nova York. Seu escritório pediu urgência ao Departamento de Estado e à Embaixada dos Estados Unidos em Londres para uma decisão sobre o caso. “Nosso país e a Estátua da Liberdade sempre receberam bem os refugiados. Essa peça é importante porque dá a eles a chance de trazer sua poderosa experiência para os Estados Unidos”, disse a senadora. 

Um funcionário do Departamento de Estado que não quis se identificar disse que não discutiria detalhes do “caso Jungle” alegando confidencialidade. Acrescentou, porém, que o governo concede visto a pessoas cuja entrada seja “do interesse nacional” e “não represente ameaça à população e à segurança nacional”, e ainda no caso de uma eventual proibição “criar dificuldades desnecessárias”. 

Os promotores da peça dizem que ela é de interesse nacional, como atestariam o patrocínio do governo do Conselho de Artes do Estado de Nova York e os testemunhos de figuras de destaque. “Temos uma história que o povo deveria ouvir, e só essas pessoas podem contá-la”, disse David Lan, ex-diretor artístico do Young Vic Theater, de Londres, onde The Jungle foi apresentada antes de migrar para o West End.

Sting e a mulher, Trudie Styler, escreveram para a Embaixada dos Estados Unidos em Londres argumentando que “a peça discute temas e histórias dificilmente acessíveis fora do mundo da arte”. O ex-arcebispo de Cantuária Rowan Williams classificou a produção britânica como um “um genuíno evento nacional” e disse acreditar que “a produção em Nova York terá profundo significado para o mundo cultural dos Estados Unidos”.

The Jungle não é a primeira produção a escapar da proibição de viagens aos EUA imposta pelo governo americano, mas os casos de sucesso são raros. Rami Farah, dançarino sírio, conseguiu permissão para se apresentar no Centro de Artes Contemporâneas de Cincinnati. A Divan Orchestra, situada em Londres, afirmou que músicos sírios e iranianos de seu elenco foram autorizados a entrar para uma turnê por cinco cidades dos EUA. E Nassim Soleimanpour, dramaturgo iraniano, recebeu permissão para participar da montagem americana de sua peça Nassim, cujas apresentações devem ser executadas nesta semana no New York City Center.

Os envolvidos no esforço de levar os atores de The Jungle a Nova York disseram que o sucesso de sua iniciativa servirá tanto para mostrar os novos obstáculos levantados contra artistas de países restritos quanto para trazer  à discussão a possibilidade de que esses obstáculos venham a ser removidos. 

“Em parte, o que torna essa história excitante é que ela mostra que há canais pelos quais é possível se chegar ao objetivo”, disse Covey. “O sistema de imigração dos Estados Unidos está obviamente conectado à atual administração, mas o valor de uma peça como essa ainda é reconhecido, embora pareça ir contra o que diz o governo.” / Tradução de Roberto Muniz

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