Hans Von Manteufell
Hans Von Manteufell

Peça natalina 'Baile do Menino Deus' completa 15 anos

Criado por iniciativa da Rádio Eldorado, espetáculo de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima usa elementos regionais para celebrar o Natal

Mariana Oliveira*, Especial para o Estado

15 de dezembro de 2018 | 16h00

Em dezembro, as cidades brasileiras se enfeitam de renas, trenós, neve de isopor e Papai Noel. Esse imaginário natalino vindo do Leste Europeu toma conta de casas, ruas e shoppings em pleno verão, com temperaturas de até 40ºC. No início dos anos 1980, o cenário já era parecido. As referências natalinas tinham como base esses símbolos e pouco se via ou se falava sobre José, Maria e o Menino Jesus. A cena do nascimento divino, com a Sagrada Família, os Reis Magos, pastores e manjedoura tinha sido proscrita da Noite de Festas. No seu lugar, o consumo reinava absoluto. 

Os amigos Antônio Madureira, músico do Quinteto Armorial, o escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito e o poeta Assis Lima se incomodavam porque os filhos não tinham a chance de conhecer as brincadeiras populares do ciclo natalino: reisado, lapinha, pastoril, boi de reis e cavalo-marinho, que marcaram a infância repleta de tradição ibérica. Aí, resolveram criar uma brincadeira de Natal que pudesse ser encenada, gravada em disco e publicada em livro, resgatando tradições seculares. Assis Lima e Ronaldo Brito criavam a dramaturgia do Baile do Menino Deus, enquanto Madureira se ocupava das músicas com os ritmos de ciranda, caboclinho, coco, frevo, maracatu e marcha de pastoril. 

Antônio Madureira acabara de gravar uma coleção de três LPs para o Estúdio Eldorado – Brincadeiras de Roda, Estórias e Canções de Ninar, Brincando de Roda e O Menino Poeta, por encomenda de Aloísio Falcão, diretor da rádio e da gravadora. Com o material pronto, procuraram a Eldorado e, em 1983, o disco Baile do Menino Deus foi lançado. Poucos dias depois, o espetáculo, cuja única pretensão era ser uma brincadeira de crianças, estreou no Recife, em palco italiano, para uma plateia surpresa. Essa primeira montagem ficou em cartaz por mais de oito anos seguidos e multiplicou-se pelo País, sobretudo depois que o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) comprou e distribuiu meio milhão de exemplares do livro editado pela Objetiva. 

Hoje, 35 anos depois, os autores já perderam a conta das montagens em teatros, escolas, comunidades, ONGs, praças, ruas e até em presídios. Mas é a encenação em forma de cantata cênica, que comemora 15 anos este ano na praça do Marco Zero, no Recife, a mais famosa. 

O palco grandioso é ocupado por orquestra, coros adulto e infantil, solistas, bailarinos e atores para encenações nos dias 23, 24 e 25 de dezembro. O público, de todas as idades e classes sociais, chega às 70 mil pessoas. Os números superlativos também aparecem na equipe de 300 pessoas, artistas e técnicos, atuando no palco ou nos bastidores. Os recursos captados através da Lei Rouanet foram fundamentais para redimensionar o espetáculo, que hoje gera muitos empregos diretos e indiretos e transformou-se no evento mais importante do Natal do Recife.

O fascínio das pessoas pelo Baile parece não esmorecer nunca. Na última fala, o Mateus, espécie de palhaço como os da commedia dell’arte, afirma: “...o baile aqui não termina, / o baile aqui principia / do mesmo jeito que o sol / se renova a cada dia, / da mesma forma que a lua / quatro vezes se recria, / do mesmo tanto que a estrela / repassa a rota e nos guia”. Foi o que aconteceu, para surpresa de Brito, Lima e Madureira, que se transformaram em autores de um espetáculo de domínio público com autores vivos. 

A dramaturgia do Baile do Menino Deus se inspira no auto de reisados. Nessa brincadeira, dois Mateus tentam abrir a porta de uma casa para celebrar o nascimento de um menino. Depois de mil peripécias e estripulias, rezas, sortilégios e cantigas, a porta finalmente se abre, revelando um mundo sagrado, onde habitam o Menino Divino, o Pai e a Mãe. É um tema arcaico, presente em várias mitologias, esquecido pela modernidade, mas que desperta algo familiar, a alegria e o contentamento diante de uma revelação simples, a de que cada homem tem a sua partícula de sagrado. É o que explica Correia de Brito, tentando justificar o sucesso cada vez maior dessa “brincadeira” que completa 35 anos. “Vivemos um tempo de fronteiras, muros e portas cerradas. O Baile propõe que se transponha fronteiras e cercas. ‘De um mundo sem portas ando à procura, para a porta sem porta sigo adiante’, afirma o Mateus palhaço. No Baile do Menino Deus, pelo menos nele, todas as portas se abrem”, garante o autor. 

Apesar de o espetáculo ser o mesmo, a cada ano a representação traz novidades. Originalmente, o Baile tinha 12 músicas, que foram registradas no disco da gravadora Eldorado, em 1983. Hoje, na encenação do Marco Zero, chegam a 30. Elas mudam sempre, embora se mantenha o núcleo da peça original, publicada pela Companhia das Letrinhas. Os autores estão vivos, a encenação é aberta e sempre pode ser atualizada, justifica Brito. A cada três anos, muda-se a direção de arte. Desde 2017, a África inspira figurinos, danças, adereços, textos e canções. Nada mais justo. Somos uma nação predominantemente negra. 

A história universal do nascimento de Jesus ganha novas possibilidades no Nordeste brasileiro com referências de Portugal, de Espanha, do trovadorismo francês e italiano, que resiste e convive com outras narrativas. Num dos principais shoppings do Recife, a decoração se inspira no Papai Noel e em elementos de um Natal “congelante”. É possível ver um presépio nesse palácio das compras? Sim, no último andar, num canto escondido, por onde as pessoas passam apressadas e às cegas para entrar na próxima sessão de cinema. É um alento saber que, na cidade, celebra-se um outro Natal. 

*Mariana Oliveira é jornalista

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