Iko Freese/Drama Berlin
Iko Freese/Drama Berlin

Peça que estreou dez dias antes de Hitler subir ao poder volta a ser encenada em Berlim

Opereta escrita por um autor judeu passou 87 anos sem ser encenada na Alemanha, e sua partitura quase se perdeu na 2ª Guerra Mundial

Joshua Barone, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 17h05

BERLIM - Era uma noite no final de janeiro de 1933, pouco antes de Hitler assumir o cargo de chanceler alemão, quando a opereta de Jaromir Weinberger, Frühlingsstürme (tempestades de primavera, em tradução livre), estreou.

A turbulência política que se aproximava não se perdeu no programa de criadores predominantemente judeus, que escreveram piadas que cintilavam aludindo às camisas pardas, tropas de assalto nazistas, que carregavam tochas pelas ruas próximas.

As pessoas na plateia devem ter adorado o que viram; eles aplaudiram o astro da opereta, Richard Tauber, através de vários bis para sua grande ária. As gravações espalharam os hits da partitura, cantados por Tauber e pela soprano Jarmila Novotna.

Mas Frühlingsstürme foi apresentada por apenas 10 dias antes que Hitler assumisse o poder, efetivamente terminando a República de Weimar - o breve, mas conturbado período da história alemã que também trouxe uma era de ouro da libertação artística e sexual, mesmo no palco das operetas de Berlim.

Logo depois, Tauber deixou a Alemanha. (Dizem que durante as apresentações, a juventude de Hitler iria vaiá-lo da galeria.) Weinberger também foi embora, se estabelecendo nos Estados Unidos, onde sua vida acabou em suicídio. Frühlingsstürme, a última opereta da República de Weimar, desapareceria de Berlim por mais de 80 anos - até sábado, quando uma nova produção reconstituída por Barrie Kosky estreou na Komische Oper.

A opereta - uma forma que evoluiu dos espetáculos irreverentes da Paris de Offenbach para a Viena da virada do século e a Berlim de Weimar - teve um renascimento nos últimos anos, com Kosky como seu santo padroeiro. Suas redescobertas de obras de compositores como Paul Abraham e Emmerich Kalman, e agora Weinberger, serão consideradas o projeto definitivo de seu mandato na Komische Oper, onde é diretor artístico desde 2012.

As operetas que estrearam em Berlim nos anos 1920 e início dos anos 30 foram um afastamento de seus antecessores vienenses: mais urbanas, mais influenciadas pelo jazz americano. Elas eram subversivas em termos políticos, sexuais e raciais. Eles também eram uma forma de arte comercial, bem como a Broadway.

Mas, sob o domínio nazista, o teatro tornou-se subsidiado - e regulamentado. Muitos dos artistas que prosperaram na Berlim de Weimar simplesmente foram embora. Alguns continuariam revolucionando a cultura americana de meados do século; outros nunca conseguiram se recuperar. Na Alemanha, porém, a opereta permaneceu apenas como uma sombra sem alma de si mesma.

“Depois ficou um tédio”, disse Ulrich Lenz, dramaturgo do Komische Oper, “e depois veio a moralidade, o que é realmente estranho”.

Por exemplo, em Ball im Savoy, de Abraham - uma das operetas mais amadas no repertório da Komische Oper -, uma esposa decide que desde que o marido a traiu, ela é livre para fazer o mesmo com ele. No final da década de 1930, enredos como esse foram proibidos, em favor de representações de casais alemães “ideais”.

Quando as operetas desfrutaram de um ressurgimento após a 2ª Guerra Mundial, foram assexuadas, tornaram-se exultantes e pouco subversivas. E os cantores abordaram a música como se fosse uma ópera lírica.

“Não era ruim o suficiente que os nazistas apagassem isso, mas eles também arianizaram a música nos anos 1950”, disse Kosky. “É como se Anna Netrebko cantasse Poppea. Se sua voz não é barroca, por que você faria isso?"

Algumas músicas da era Weimar foram perdidas; durante muito tempo, pensou-se que a partitura completa de Weinberger para Frühlingsstürme fora destruída na 2ª Guerra Mundial. Mas, como Lenz e outros pesquisadores descobriram, não poderia ter sido: houve uma apresentação e transmissão na República Checa em 1947.

Então, quando Kosky e sua equipe decidiram montar uma produção para a Komische Oper - trabalhando naquele momento a partir de nada mais do que antigas gravações e partituras para piano - eles se voltaram para a emissora para ver se as partes da orquestra existiam em algum lugar do arquivo. Mas nada apareceu.

A Komische Oper finalmente encomendou uma nova orquestração, por Norbert Biermann. É sempre uma arte complicada, mas ainda mais no caso de Frühlingsstürme: a partitura piano-vocal tinha sinais instrumentais, e as gravações existentes ofereciam apenas algumas sugestões.

Os registros anteriores de Weinberger também não foram necessariamente úteis. Ele é mais conhecido pela ópera Schwanda the Bagpiper, cuja música não se parece muito com o ecletismo quase pós-gênero de Frühlingsstürme - no qual você pode ouvir ecos de Smetana, Strauss e jazz, todos dentro da mesma ária, todos navegaram habilmente pelo maestro Jordan de Souza.

A história também mistura estados de espírito: é um thriller de espionagem que se passa durante a Guerra Russo-Japonesa, mas existem elementos de comédia romântica e espetáculo show-tune. (E, como se trata de opereta, a guerra não impede que uma viúva rica arremesse uma bola.) Ao contrário da maioria dos outros programas da época, seu final é mais agridoce do que certinho e alegre.

Não sei se, no geral, isso contribui para um programa totalmente bem-sucedido. Afinal, ser a última opereta da República de Weimar não torna Frühlingsstürme inerentemente boa; apenas confere a infeliz honra de ter sido apresentada apenas alguns dias antes dos nazistas assumirem o poder.

É, no entanto, uma adição inestimável ao repertório da Komische Oper, especialmente como o primeiro trabalho da empresa em Weinberger.  / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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