ALIK KEPLICZ/AP
ALIK KEPLICZ/AP

Pecado inexpiável

Em Auschwitz, autor se perguntou, como Primo Levi: limparia eu as câmaras de gás para me deixarem viver mais um dia?

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 16h00

Na terça-feira, uma cerimônia assinalou os 70 anos da libertação do campo de Auschwitz pelas tropas soviéticas. A tenda que abrigava líderes mundiais e cem sobreviventes foi montada num local simbólico: a parada do trem que trazia os prisioneiros.

O papel libertador representado pelo Exército Vermelho foi uma ironia sardônica: afinal, na URSS, Stalin semeara a própria rede concentracionária, o Gulag. É instrutivo que, ainda hoje, seja tão pouco conhecido o nome de Kolima, o Auschwitz soviético. 

Auschwitz virou o supremo símbolo do Holocausto e do mal absoluto. Ali morreram 1 milhão de judeus e milhares de ciganos, prisioneiros de guerra russos, resistentes poloneses e homossexuais. No funesto século 20, não foi o único genocídio baseado no fanatismo ideológico. Mas o que distingue o Holocausto é sua dimensão industrializada e racional, o extermínio de seres humanos com a frieza burocrática de uma linha de montagem operada por homens comuns. 

Steven Spielberg foi um dos presentes à cerimônia. Com A Lista de Schindler, ajudou a reparar aquilo que seu colega Jean-Luc Godard chamou de “o pecado inexpiável do cinema” - não filmar os campos de extermínio no momento em que eram construídos. 

No mesmo dia, TVs do mundo inteiro exibiram o documentário A Noite Cairá, do inglês André Singer. Nos EUA, o filme foi apresentado por Helena Bonham-Carter. O filme de Singer compila 12 minutos de um documentário inédito de 1945, Campos de Concentração Alemães, com o selo de Alfred Hitchcock. Na época, as imagens foram consideradas tão excruciantes que o filme acabou arquivado no Imperial War Museum. Consta que o próprio mestre do suspense, ao examinar as cenas, de tão abalado adoeceu por uma semana. 

O “pecado do cinema” também é redimido por dois documentários magistrais sobre o Holocausto: Noite e Neblina, de Alain Resnais, e Shoah, de Claude Lanzmann. Ambos - e toneladas de documentos - refutam a tese neonazista do “negacionismo”, de que a “solução final” nunca existiu. A “solução final” foi ativada em 20 de janeiro de 1942, depois da Conferência de Wannsee, como o comandante de Auschwitz, Rudolph Hoss, testemunhou em Nuremberg. 

Ainda mais do que o cinema, a literatura nomeou o inominável, desmentindo a tese do filósofo Theodor Adorno de que “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”. Judeu romeno e sobrevivente dos campos, Paul Celan se tornou um dos maiores poetas da língua alemã com um verso radioativo: “Ninguém testemunha pelas testemunhas”. 

É outra ironia lúgubre que Auschwitz tenha proporcionado dois Prêmios Nobel. O húngaro Imre Kertész (Nobel de 2002) passou três dias no campo polonês, antes de ser transferido para Buchenwald - experiência relatada na obra-prima Sem Destino. Nobel da Paz em 1986, Elie Wiesel evocou Auschwitz numa série de livros - o mais memorável é A Noite. 

Mas o mais profundo avatar literário do Holocausto - É isso um Homem?, do judeu italiano Primo Levi - foi esnobado pela Academia Sueca. Com os números ignóbeis tatuados no braço, Levi morreu em 1987, aos 68 anos, num provável suicídio. Porém, como realçou Elie Wiesel, “ele já tinha morrido em Auschwitz 40 anos atrás.”

Registro indelével do Holocausto é o próprio museu de Auschwitz, hoje Patrimônio Mundial da Unesco. “O lugar mais cruel da terra” recebe 1 milhão de visitantes por ano, tantos quanto as pessoas que ali pereceram. Apesar disso, quase fechou por causa de dificuldades econômicas para manter seus 155 edifícios (entre as quais os fornos e as câmaras de gás), milhares de objetos pessoais (sapatinhos de crianças, próteses de mutilados) e montanhas de óculos e de cabelo. 

Meu romance Estamos todos tão Sozinhos introduz o médico de Auschwitz Joseph Mengele, que morreu afogado em Bertioga em 1989. Por isso visitei o campo de concentração anos atrás. Fora recentemente roubada a inscrição da entrada, “O Trabalho Liberta” (o mais ignóbil humor negro da história). Parte-se da cidade de Cracóvia. Há um ônibus que faz o percurso, mas não há placas indicando “Auschwitz”. De repente, passa-se por um edifício com um bar, um quiosque de souvenirs e uma bilheteria. Ali marcavam os prisioneiros com os números, raspavam-lhes a cabeça e os oficiais nazistas escolhiam as escravas sexuais judias. 

O ônibus prossegue, mas não se detém senão em Auschwitz III (o I era administrativo, o II de extermínio). Ali foram escravos Primo Levi e Elie Wiesel. E lá operava a I. G. Farben, fábrica de produtos químicos que controlava o “trabalho” em Auschwitz. Era a quarta maior empresa do mundo, depois da GM, U.S. Steel e Standard Oil. O pesticida Zyklon B, do qual a Farben detinha a patente, era usado nas câmaras de gás. Depois da guerra, a Farben foi obrigada a fechar, mas não sem antes criar colossos como a Agfa, a Basf, a Bayer e a Hoeschst. 

Fui embora formulando a pergunta que Primo Levi fez a si próprio: seria eu capaz de limpar as câmaras de gás para me deixarem viver mais um mês, uma semana, um dia? De encher os fornos crematórios? 

A palavra “museu” vem do grego e significa “templo das musas”, nove entidades mitológicas que inspiravam a criação. Neste caso, a que interessa é Mnemósine, deusa da memória. Tomara que a cerimônia dos 70 anos mantenha o Museu do Holocausto funcionando. A lição que ele ensina é: quem não tem memória, sabe tudo de olvido.

PAULO NOGUEIRA, JORNALISTA, É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM (INTERMEIOS)

Mais conteúdo sobre:
Auschwitz judeus Segunda Guerra Mundial

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.