PHILIP MONTGOMERY|GOOGLE
PHILIP MONTGOMERY|GOOGLE

Pedir (quase) tudo

Repórter passa sete dias em casa encomendando do vermute ao café pelos apps do celular e conta o que ganhou e o que perdeu com isso

Lavanya Ramanathan, The Washington Post

25 Setembro 2015 | 21h13

O café chega por mensagem de texto. Na verdade, chega pelas mãos de um fantasma sem rosto chamado Toni, que, pelo preço de US$ 3, foi ao Starbucks antes das 8 da manhã, comprou para mim um café americano com um pouquinho de leite desnatado, e deixou a bebida para mim do lado de fora do meu prédio sem me incomodar no sono de sábado - como o Papai Noel, ou um namorado muito bom.

Quando recebo a mensagem de texto dele e cambaleio até o térreo apenas de pijama, Toni, que trabalha para o serviço Fetch Coffee, com sede em Washington, já desapareceu, deixando para trás apenas uma misteriosa garrafa térmica dos anos 1970 contendo minha bebida ainda quente, como prometido. Deixo a garrafa térmica na porta, seguindo as instruções de um bilhete, para que a Fetch possa vir buscá-la.

A Fetch foi minha primeira experiência no nascente mundo dos serviços sob demanda, e foi um grande sucesso. Ela me satisfaz o bastante para continuar fazendo pedidos. Durante uma semana, pedi os mais variados artigos, simplesmente esperando que chegassem.

Em todo os Estados Unidos, enxames de Tonis estão vencendo o trânsito, correndo até nossa porta e levando embora nossa roupa suja ou entregando nossos sanduíches de couve-flor grelhada e nosso vermute artesanal praticamente no exato momento em que decidimos que os queremos.

A entrega sob demanda é uma febre no Vale do Silício, o que significa que a moda pode chegar logo a Washington, onde todos trabalham demais, ninguém tem tempo para nada e o único consenso parece ser o fato de que esperar numa fila é equivalente a uma tortura autoinflingida que devemos reservar a turistas e demais otários.

Agora podemos pedir tacos no café da manhã, frango frito coreano e até bebidas do Shake Shack, entregues na nossa porta por serviços como o DoorDash, empresa de Palo Alto, Califórnia, que também opera em Phoenix, Boston, Houston e dúzias de cidades californianas (tamanha é a loucura dos investidores pelos serviços de entrega que a empresa captou US$ 40 milhões em financiamento este ano).

Temos também o Google Express, que manda testes de gravidez comprados na farmácia Walgreens ou maquiagem Urban Decay da loja de cosméticos Ulta. Glamsquad e Veluxe enviam maquiadores e manicures ao seu endereço. Drizly, Ultra e outros serviços de bebidas trazem vodca barata ou o melhor uísque japonês em menos de uma hora. A Washio, que se descreve como Uber da lavanderia, envia “ninjas” para recuperar suas peças de roupa íntima. E temos, é claro, o Uber, que além de entregar filhotes de gato e sorvete, usa agora seus motoristas para fazer entregas de comida por meio de um serviço batizado de Uber Eats. Até a Etsy, mercado de artesanato cheio de bizarrices, deve testar um serviço de entregas rápidas em Nova York… De algo que ainda não sabemos o que será - provavelmente coroas de flores. Certamente coroas de flores.

Dizem que este é o início de um futuro livre das obrigações corriqueiras das gerações passadas, das indignidades da busca por moedas para usar na lavanderia, por restaurantes onde comer e por roupas para vestir de manhã. O site de jornalismo tecnológico Re/Code chamou isso de economia da gratificação instantânea, e ela vai nos transformar. Imagine o tempo que isso nos dará para nos dedicarmos a hobbies e sonhos, melhorando nossos relacionamentos. Imagine tudo que poderemos criar!

Estou pensando no que farei com tanto tempo livre enquanto espero, espero e espero até o Postmates entregar meus tacos de couve-de-bruxelas e abóbora com sementes crocantes.

Estou vivendo o sonho dos libertos. O problema é que o Postmates, uma startup com sede em San Francisco que acaba de se expandir para 40 mercados americanos, publicou o cardápio errado para o restaurante que escolhi, e não há tacos de abóbora. Recebo dois telefonemas e uma mensagem de texto informando que embora não possa comer abóbora, posso comer cogumelos. Mas, toda vez que o Postmates liga, preciso explicar novamente que sou alérgica a cogumelos. Ao final do segundo telefonema confuso, não me sinto nem um pouco liberta.

Os inconvenientes da indústria da conveniência se mostraram um tema recorrente durante toda a semana: certa noite, esperando pela entrega da lavanderia Washio uma hora além do tempo previsto para entrega, percebi que estava verificando o telefone obsessivamente à espera de uma mensagem do meu ninja. Ele não escreveu (nesse sentido, é como um namorado ruim).

Meu pedido de vermute francês e gim, feito por meio do Drizly, traz resultados muito melhores: recebo minhas garrafas numa bela sacola Drizly dez minutos antes do tempo previsto de entrega. Belo truque, penso, enquanto levo as garrafas para cima, mas com que frequência pretendo usar esse serviço? O que realmente preciso é de alguém que me poupe do tédio de comprar papel higiênico.

É aí que o Instacart seria útil. Mas, dessa vez, nem chego a fechar o pedido. A caixa de areia para gatos que posso comprar pessoalmente por US$ 8,99 na Giant custa US$ 13,49 no Safeway por meio do serviço, mais US$ 5,99 em taxas de entrega, no mínimo, se quiser receber o produto em até uma hora (o Drizly cobra US$ 5; o Google Express cobra US$ 4,99 por cada loja incluída no pedido). Adoro a ideia de alguém me poupar de transportar 10 quilos de artigos para bichos de estimação, mas, ao analisar os preços, percebo que também quero poupar dinheiro.

No Google Express - “entregando mais tempo livre!” - não consigo encontrar os filtros de café em forma de cone que gosto de usar, e os salgadinhos com um toque de limão que chegam ao meu carrinho de compras são tirados dele com a mesma rapidez. O estoque se esgotou antes de eu fechar o pedido e, além disso, o Google Express me informa que não poderá me trazer o macarrão com queijo em formato de personagem de Guerra nas Estrelas hoje. Todos os períodos de entrega do dia - que me obrigariam a ficar no apartamento por quatro horas - estão indisponíveis.

Mick Jagger tinha razão: nem sempre podemos ter o que queremos. Pior, não consigo nem mesmo as coisas que necessito (a menos que esteja disposta a pagar US$ 0,40 a mais, além da taxa de entrega). Desisto e vou de carro até a loja.

As entregas não são novidade, é claro. Faz décadas que abrimos a porta de casa e encontramos jornais, flores, pizza, comida chinesa e telegramas cantados. A Peapod, fundada em 1989, tinha feito um milhão de entregas de produtos alimentares até 1998. E, tecnicamente, alguns empreendedores fanáticos lançaram a entrega sob demanda no final dos anos 1990 com sites como Urbanfetch e Kosmo.com, que traziam guloseimas, DVDs e preservativos tão rápido quanto uma pizza pedida pelo telefone.

Mas agora podemos inserir o número do cartão de crédito diretamente num aplicativo (para nossa conveniência, o número será provavelmente armazenado para sempre). Não temos medo de tocar na tela do telefone uma ou duas vezes e resolver o assunto. Em se tratando de chamar um táxi, esse tem sido nosso método preferido.

O cofundador da Fetch Coffee, Tony Chen, diz que essa mudança cultural abriu as portas para uma onda desses novos exploradores da conveniência. O que ainda não se sabe é como eles vão ganhar dinheiro. “As margens não são altas”, diz Chen do seu empreendimento de café, que cobra US$ 3 por entrega e tem apenas algumas dúzias de assinantes regulares. Mas ele diz que “a maioria das empresas de entregas trabalha com margens muito baixas”. As margens de lucro reduzidas não eram problema para serviços como o Kosmo.com, que fechou em 2001 depois de perder muito dinheiro dos investidores: eles simplesmente chegaram cedo demais para uma sociedade que ainda não confiava nas compras online, insiste Chen.

Bem, sim, mas agora, embora eu possa receber um café entregue na minha porta - desde que seja um café do Starbucks, e a entrega seja antes das 10 da manhã - não consigo deixar de pensar que poderia simplesmente ir até a esquina andando e pegar o café eu mesma. Então, por que tenho a sensação de não dispor do tempo para fazê-lo?

Porque estamos trabalhando tantas horas quanto nossos corpos permitem.

“As expectativas no trabalho aumentaram muito nos 30 anos mais recentes, e realmente não temos mais tempo para nada na vida”, diz Brigid Schulte, ex-repórter do Washington Post e autora do best-seller Overwhelmed: How to Work, Love and Play When No One Has the Time (algo como “Sobrecarregados: como trabalhar, amar e brincar quando ninguém tem tempo”). Provavelmente não é coincidência que a entrega sob demanda seja ideia do Vale do Silício, onde as empresas oferecem almoços, áreas para soneca e outros “benefícios” destinados a manter os funcionários no trabalho, e não presos no trânsito, ou cuidando de suas vidas sociais, por exemplo.

O que foi perdido em nome da eficiência? Não tenho mais conversas amigáveis com o funcionário do café do meu bairro nem com o proprietário da minha lanchonete preferida. Não posso explicar ao sujeito da lavanderia o elo sentimental que desenvolvi com o vestido de estampa africana que trouxe de viagem. Meus muitos ninjas podem me enviar mensagens de texto, mas nunca consigo falar com eles.

As entregas oferecem a velocidade e uma fuga de tarefas que há muito consideramos entediantes, mas Brigid diz que interagir com os outros aumenta nossa felicidade. A economia das entregas “realmente levanta essas questões que envolvem os elos humanos”, diz ela. “Será que isso libera mais tempo para que possamos estar com as pessoas de quem gostamos? Isso pode ser bom. Ou será que é apenas outra forma de nos afastar dos outros?”, indaga ela.

Depois de uma semana desenvolvendo meu experimento, acordo com vontade de comer bahn mi. Há um restaurante na cidade que entrega uma boa versão do prato, mas fecha às segundas feiras. Já comecei a aceitar que a cultura das entregas envolve a arte de se conformar. Posso seguir o fluxo e decidir que me satisfaria com comida mexicana. Mas o restaurante na minha rua também está fechado, ou ao menos é o que diz meu aplicativo DoorDash.

Rapidamente, telefono para lá. Para minha surpresa, não estão fechados. Peço uma torta de abacate para viagem e, antes de desligar, pergunto quando estará pronta. Do outro lado da linha, a mulher faz uma pausa. “Err... Cinco minutos?” Quando desligo e pego as chaves, estou quase rindo à toa. Finalmente, encontrei aquilo que estava procurando: gratificação instantânea.

/TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.