Pedro Almodóvar faz exercício de autoficção em 'Dor e Glória'

Pedro Almodóvar faz exercício de autoficção em 'Dor e Glória'

Filme com Antonio Banderas evoca 'Oito e Meio', de Federico Fellini

Luiz Zanin Oricchio*, Especial para o Estado

06 de julho de 2019 | 16h00

Uma porta de entrada para Dor e Glória seria dizer que é o Oito e Meio de Pedro Almodóvar. Assim como Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) do clássico de Federico Fellini, também Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um alter ego do diretor. Mais que isso, ambos interpretam cineastas em plena crise criativa. 

À beira de completar 70 anos, em setembro, Almodóvar vê-se diante da necessidade de um balanço da sua vida – pessoal e profissional. Evoca a relação com as mulheres, com a mãe em particular, e também com o pai. Com colegas, com a vida louca de Madri desencadeada no fim do franquismo. Pelas incertezas da criação artística, na qual sempre se começa do zero, pela força do desejo, dos paradoxos da sexualidade, do abismo das drogas, de tudo enfim. Até mesmo ele, que muitas vezes é autorreferente, se dá ao luxo de brincar com a autoficção, que entrou na moda e já saiu. Ou seja, falar de si mesmo, mas nos termos tanto protetores quanto incendiários da invenção de si por meio da arte.

Nas primeiras cenas, vemos Salvador boiando numa piscina como quem flutua num líquido amniótico, bebê envelhecido a exibir no corpo a cicatriz de uma profunda cirurgia a que foi submetido. Salvador é um tipo atacado por males tanto reais como imaginários. Um hipocondríaco, envelhecido precocemente. Papel tão árduo possibilita a Banderas, antigo parceiro de Almodóvar (este é o oitavo filme juntos), fazer talvez aquele que seja seu melhor trabalho no cinema. Tanto assim que ganhou a Palma de interpretação no Festival de Cannes deste ano. 

O combalido Salvador passa da piscina/ventre à recordação do seu “pueblo” de infância, do menino que observava as mulheres lavando roupa no rio e cantando para entreter o trabalho árduo. Entre elas, sua mãe Jacinta (Penélope Cruz). Os tempos se sobrepõem e saltam de um período a outro. O menino inteligente, que descobre a sexualidade na infância, dá vez ao diretor envelhecido, que reata a amizade com o ator de um dos seus filmes, Sabor, Alberto Crespo (Asier Etxandia), e também reencontra o amor de juventude, Federico (Leonardo Sbaraglia). As imagens da mãe jovem (Penélope), alternam-se ao diálogo com a mãe velha e já doente (Julieta Serrano). 

Nada dessas idas e vindas no tempo é feita com intenção de confundir o espectador. Pelo contrário, a montagem torna tudo muito fluido e convincente. Tudo natural, como naturais são os fluxos de memória de cada um de nós ao lembrar caoticamente de nossas vidas. Não somos lineares. Assim também é o personagem de Salvador. Ele, como qualquer um de nós, vive em vários tempos simultâneos – entre as exigências do presente e as recordações (boas ou más) do passado. Projeta-se para o futuro, se pudermos nos convencer de que existe um porvir para cada um de nós. No caso de Salvador/Almodóvar, esse futuro possível seria superar traumas que produzem o bloqueio criativo e voltar a filmar. Pois, afinal, “sem o cinema, a vida não tem sentido”, como diz em determinado momento. Mesmo porque cinema e vida se confundem quando se é um artista para valer.

Almodóvar é um mestre dos diálogos e, em Dor e Glória, estão alguns dos mais comoventes de sua obra. Em particular, a conversa íntima com mãe idosa, já preparada para morrer e que passa a Salvador as instruções para seu enterro. Nessa hora de ajuste fino de contas, ela diz que ele não havia sido um bom filho. Não permitiu que ela viesse morar com ele em Madri quando havia se tornado uma pessoa famosa. E também diz que as vizinhas do pueblo se queixam da maneira como ele as retrata em seus filmes, como caipiras estereotipadas. Inutilmente Salvador tenta se defender, dizendo que devia tudo a elas, à mãe e às suas amigas do interior, e as retratava com todo amor. Jacinta, a mãe, encerra a conversa: “No les gusta”. Elas não gostam. 

Esse re(encontro) de Salvador com Jacinta lembra aquele outro, terrível, de Guido Anselmi em Oito e Meio com os pais em um cemitério imaginário e transfigurado. Lembra também outro reencontro imaginário, o do escritor Luigi Pirandello com a mãe morta, na velha casa da família em Agrigento – o texto chama-se Colóquio com a Mãe e está no filme de episódios Kaos, dos irmãos Taviani. 

Da mesma forma, é longo e civilizado o reencontro de Salvador com seu amor de juventude, seu parceiro dos tempos loucos, e que reaparece de maneira inesperada. Aliás, a relação de Salvador com Federico (Sbaraglia) já havia sido trabalhada pelo diretor num texto ainda inédito, O Vício, que ele hesita em filmar ou encenar, mas que será levado ao palco por seu ator, Alberto. 

Dor e Glória se compõe de todo esse tecido, desse conjunto de acasos que vai se montando em narrativa lógica, alinhavado pelo arbitrário da vida, mas também pelo determinismo do desejo humano. Ele é que imanta o personagem e, assim o fazendo, ilumina também a nós que assistimos ao filme. Toda grande obra – e Dor e Glória é uma delas – ressoa aquela velha máxima latina de Horácio: “De te fabula narratur”: a história fala de você. 

Resta dizer que Dor e Glória é um filme absurdamente bem escrito. Nele não há uma linha, uma fala ou uma interjeição fora de lugar. É trabalho de ourivesaria, de veterano em pleno domínio de seu instrumento. 

Mas, nessa obra de maturidade, temos um Almodóvar mais sóbrio e reflexivo que em suas obras anteriores. As cores são menos berrantes, os encontros e desencontros entre personagens menos estridentes, os movimentos de câmera mais sutis. Por isso mesmo, a emoção instala-se mais devagar e de maneira mais profunda e duradoura. A música de Alberto Iglesias acompanha esse refinamento e produz uma atmosfera de suave beleza. É um filme em que o sentimento se instala de maneira discreta e permanece com o espectador, quando ele sai da sala e o filme continua a ressoar em seu íntimo. Exceção à nossa época de descartáveis, Dor e Glória é feito para durar.

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