Werther | ESTADÃO CONTEÚDO
Werther | ESTADÃO CONTEÚDO

Pegue, pague & apague

Seu passado te condena? Ou simplesmente te atrapalha? Uma nova franquia de clínicas de hipnose promete reprogramar a memória para curar mau hálito, esquecer a pessoa amada e driblar a crise financeira. Tudo em seis vezes no cartão

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2016 | 16h00

Olhe fixamente para o aparelho anti-incêndio no teto do consultório. Como chama isso? Feche os olhos devagar. Como é mesmo o nome disso? Devagar, respire profundamente. Eu não vou relaxar se eu não lembrar o nome desse chuveirinho. Agora, você está na praia. Areia branca, macia. Lembrei, sprinkler! Você está sentindo a areia entre os dedos. E isso é relaxante, muito relaxante. Estou correndo pela praia, uso uma camiseta branca e larga, sou quase um cantor de música latina preso em um clichê de videoclipe. Você está na beira do mar. Você sente aquele restinho de onda morrendo nos seus pés descalços. Muito relaxante. Tranquilo. Tento não pensar em ‘A Um Passo da Eternidade’ ou na Cláudia Leitte de biquíni. Agora, sem presa, você caminha em direção ao mar. Água gelada? A temperatura da água é agradável. Ufa. Você já está com água pela cintura. Não é melhor voltar? Agora, você está boiando. Seu corpo é leve. Você está se sentido bem, muito bem, muito relaxado. Seus olhos estão pesados. Todo hipnólogo tem esse sotaque espanhol?

E eu volto algumas horas no meu passado. Estou folheando o prospecto da clínica. Nele, uma lista de pelo menos 30 problemas que podem ser tratados pela hipnoterapia. O menu é bastante variado, com possibilidades de cura para ansiedade, baixa autoestima, depressão, fobias, ejaculação precoce, impotência sexual, medo de dirigir, enxaqueca, gagueira, mau hálito, obesidade, amor perdido e até a superação da atual crise econômica. De modo que, quando tudo isso acabar, não vai me sobrar muita coisa pra sentir, acho.

Mas sinto medo. Medo de morder uma cebola acreditando ser uma suculenta maçã, medo de cair em um sono profundo depois de um estalar de dedos ou de um “bem dormido”, medo de sair por aí fazendo coisas que eu jamais faria se fosse senhor dos meus atos, medo de tudo aquilo que aprendi no cinema ou na ficção mais rasteira.

Mas o barulho do ar-condicionado da sala de espera, felizmente/infelizmente, me faz entender que aquela não é uma cena de O Gabinete do Dr. Caligari. A clínica tem um ambiente verde-piscina, frio e neutro. Os móveis estão dispostos de forma simétrica, nada parece fora do seu lugar, existe uma ordem e uma certa assepsia opressora. Mensagens de autoajuda se repetem em uma tela plana. Em outra parede, destaca-se um retrato sorridente do fundador e presidente da clínica, Alessandro Baitello. É como aguardar em um limbo anestesiante, onde ciência, espiritualidade, consultório de dentista e, sei lá, um McDonald’s fazem parte de um mesmo pacote.

Os tratamentos oferecidos pela Rede Clínica da Hipnose podem variar de R$ 1.850 a R$ 2.300 – parcelados em até 6 vezes no cartão de crédito. No caso da recém-inaugurada unidade, localizada nas proximidades do Parque Villa-Lobos, em São Paulo, existe uma promoção especial: cinco sessões saem por R$ 1.750 à vista. A minha consulta, no caso, seria (e foi) uma cortesia.

Na sala de espera, a música relaxante vai me colocando em um estado que pode ser descrito como “new age”. Converso com uma paciente recém-saída de uma sessão, a cabeleireira Cristiane Bispo, 37 anos. Ela fuma desde os 14. Dois maços por dia. “Já tentei de tudo. Os exames mostram que tenho um enfisema pulmonar. Tenho medo de câncer, mas não consigo parar”, conta. Cris diz que está esperançosa. Logo na primeira sessão, descobriu que o seu problema está no passado, no dia em que uma vizinha apresentou-lhe um cigarrinho. “Eu lembro que engasguei, não conseguia tragar. Depois, a coisa foi se tornando prazerosa.” Segundo ela, o hipnólogo afirmou que a ideia é voltar ao fatídico dia em que a amiga lhe ofereceu o seu primeiro cigarro e fazer seu inconsciente dizer “não, obrigado”.

A própria recepcionista da clínica também diz que já passou por sessões de hipnose e que foi através delas que largou um vício menos fatal, o de roer unhas. “Na regressão, descobri que a minha compulsão veio do nervoso que passei durante um assalto à mão armada”, afirma. “Eu descontava tudo nas unhas”, completa.

Baitello chega vestindo um jaleco da mesma cor do consultório. Apesar do uniforme, pede pra não ser chamado de doutor. Da mesma forma, ninguém ali é tratado como paciente. Somos clientes. Isso porque Baitello não é médico. Renegar o termo “doutor” serve para evitar problemas com a Sociedade Brasileira de Hipnose, que considera aptos para o exercício da profissão apenas médicos, dentistas, psicólogos ou fisioterapeutas. Baitello tem duas faculdades incompletas (jornalismo e psicologia). Sua carreira profissional foi toda construída como palestrante motivacional.

A passagem para o mundo da hipnose aconteceu depois de o próprio ser hipnotizado e encontrar a cura para seus bloqueios acadêmicos. “Não terminava meus cursos, não me achava à altura, não achava que podia ter um diploma universitário.” Com a hipnose, garante ter descoberto que o problema estava na figura paterna, que vivia repetindo que não pagaria uma faculdade para o filho. “Quem assiste a uma palestra se motiva por apenas um dia. Quem passa pela hipnose é curado por uma vida toda”, ele define.

Baitello me conta um pouco sobre o seu business. É ele quem cuida de todas as pontas da operação e alavanca a expansão da Rede Clínica da Hipnose vendendo sua marca e modelo, com uma franquia que custa R$ 160 mil (investimento inicial). Atualmente, são sete clínicas (São Paulo, Santos, Campinas e Rio de Janeiro), mas a expectativa é de que até o final do ano sejam pelo menos 20. Coordenador de uma escola de hipnose, Baitello também é responsável pela formação dos profissionais que, invariavelmente, serão seus funcionários no futuro (com cursos que podem custar até R$ 3 mil por mês).

Vou para uma das salas da clínica. O espaço é pequeno. O mesmo verde-piscina da recepção. Nenhum elemento místico, nada pendurado, tudo absolutamente clean. Começamos com uma mistura de entrevista e pré-consulta. Me acomodo em uma confortável cadeira reclinável. Baitello se senta ao meu lado e abre um laptop. Pergunto se não vai usar um pêndulo ou algo assim. “Não é necessário, nós podemos atingir o transe hipnótico sem necessidade de um objeto, mas através das palavras e de técnicas de relaxamento.” Ele também me avisa que, provavelmente, não ficarei inconsciente, que vou me lembrar de tudo o que disser e vivenciar. Acho mais seguro, fico mais tranquilo. Pergunto se preciso acreditar, se tenho que ter algum tipo de fé. “Tem que estar disposto a passar por isso. Aqui, respeitamos qualquer crença.” Para exemplificar sua posição, Baitello dá um exemplo polêmico: “Demiti um hipnólogo judeu que parou uma consulta depois que a cliente admitiu admirar Hitler”. Negócios são negócios.

Baitello explica que a raiz de quase todos os nossos males está no passado e que como hipnoterapeuta o trabalho dele é buscar no inconsciente o que está prejudicando o presente e comprometendo o futuro. E, ao encontrar aquele momento exato em que uma fobia ou problema foi plantado no inconsciente, o hipnólogo trabalha para removê-lo, repaginá-lo e consertá-lo.

Assim, garante que já atendeu mais de 5 mil clientes, curando coisas sérias e prosaicas. Lembra da vez que livrou um rapaz do mau hálito usando técnicas de regressão, fazendo-o descobrir que o mau cheiro bucal tinha origem em um “pé na bunda” adolescente, quando uma garota teria dito para que ele nunca mais se aproximasse de ninguém. Ou seja, inconscientemente o homem obedeceu àquele "comando" e criou uma forma de afastar todas as pessoas da sua vida. Recentemente, uma cliente também teria emagrecido mais de 10 quilos depois de ‘engolir’ um balão gástrico hipnótico durante uma sessão.

Mas a coisa vai mais além. Baitello promete livrar-nos de amores encruados, diz que faz a “operação” resignificando a ex-amada (o) em nosso inconsciente. Fiquei impressionado com a possibilidade e liguei para uma ex-cliente da clínica que passou por esse tratamento. Vanessa (nome falso) conta que tinha dificuldade para esquecer o primeiro namorado e que não conseguia emplacar nenhum novo relacionamento. Como de praxe, a culpa estava no passado. “Minha mãe vivia me dizendo que nenhum homem prestava. Eu somatizei isso. Então, a hipnose me fez voltar no tempo e limpar essa má-formação.”

Entre as maravilhas da hipnoterapia também estaria a possibilidade de superar a crise econômica brasileira. Fico curioso em relação ao tratamento. Baitello diz que com a hipnose, ele é capaz de apagar o nosso medo de enfrentar a crise, nosso receio de crescer, fazer novos investimentos e prosperar. Embora ainda não saiba como fazer o dólar baixar, já deve estar apto para compor a equipe do ministro Nelson Barbosa. Ele diz, por exemplo, que boa parte da crise está na nossa cabeça e me oferece outro argumento: “Veja o zika vírus. As pessoas sentem os sintomas sem nunca terem sido picadas pelo mosquito”.

Chegou a minha vez. Vou sentir o gostinho da hipnose. O primeiro passo é uma entrevista feita pelo próprio Baitello. Enquanto respondo, ele vai preenchendo uma ficha virtual – que estará disponível em todos os computadores da rede clínica. Entre as perguntas, destaco: Religião? Cidade, montanha ou praia? Já foi abusado sexualmente? Cinco defeitos? Cinco qualidades? Quem é você? O questionário, segundo ele, serve para o hipnólogo ter uma base do meu perfil e saber como encaminhar o tratamento. Com minhas respostas, ficou definido que meu problema, entre outros, era de baixa autoestima.

Depois da entrevista, fui para outra sala. Minha sessão não seria com Baitello, mas com um dos seus hipnoterapeutas contratados, o J. Duke. O seu sotaque espanhol me parece extravagante. “Sou brasileiro, minha mãe que é espanhola. Peguei dela”, fala. Duke me explica que o certo seria eu passar por cinco sessões e vivenciar o tratamento completo. “Hoje, vamos apenas dar um primeiro passo em direção aos seus problemas.”

E lá vou eu. Lá vou eu com os meus problemas e o meu passado. Todo ele. Estou sentado na cadeira reclinável. Ele pede para que eu concentre minha atenção em um aparelho anti-incêndio. Duke diz que estou na praia, diz que entrei no oceano e estou boiando. Depois, o hipnólogo me tira daquele cenário paradisíaco e me coloca de frente para um outdoor. Nele, pede para que eu projete minha própria imagem. Pede para que eu me enxergue grande, gigante mesmo. Duke fala para eu ir melhorando minha imagem, acrescentando mais brilho e cor. Diz pra eu imaginar uma injeção de autoconfiança nas minhas veias, pede para que eu me sinta bem e bonito. Neste ponto, já estou me vendo como uma espécie de George Clooney, juro. Fico consciente o tempo todo. E ele diz: “Quando alguém te fizer uma crítica, responda mentalmente: ‘dane-se’”. Isso, dane-se, ele repete. Dane-se. Abro os olhos lentamente.

No fim, Baitello entra na sala. Não estive em transe profundo. Mas, sim, relaxei um pouco (mesmo cheio de pensamentos invasores, autocrítica e cinismo). Não senti nenhuma diferença imediata. Sou alertado sobre a impossibilidade de avaliar a eficácia do tratamento com apenas uma breve experiência. Concordo. Mas não garanto o meu retorno. Saio da clínica com aquela frase do final de Palmeiras Selvagens, do William Faulkner, na cabeça: “Entre a dor e o nada, escolho a dor”. Quem, hoje, escolheria a dor? De uma certa forma, não estamos todos escolhendo o nada ou algo como a hipnose clínica? 

Meia hora depois, tento pagar meu almoço apresentando o RG como se fosse um cartão de débito. O garçom ri do meu engano. Depois, tiro R$ 15 da carteira imaginando ser R$ 25. O garçom ri outra vez. Quando, finalmente, entrego meu cartão, erro duas vezes a senha. O garçom não ri mais. Ponho culpa na hipnose e vou embora. Dane-se.

 

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