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Peitando a mesmice

Massagista diz ter implantado terceiro seio antiluxúria e entra no saldo credor feminino de um mês em que as mulheres dominaram o noticiário

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 16h00

A atriz Emma Watson ainda curtia a glória de seu discurso feminista na ONU quando Charlo Greene, repórter da emissora KTVA baseada no Alasca, aproveitou o telejornal noturno de domingo passado para outro feito histórico. A certa altura do noticiário, após identificar-se como proprietária do clube de maconha Alaskan Cannabis Club, a jornalista revelou que passaria a dedicar toda sua energia à luta pela liberação da droga e pediu demissão no ar, arrematada por um sonoro “fuck it!” 

Emma é branca, Charlo é negra, mas compartilham o mesmo sexo e a mesma franqueza. É preciso ter peito para dizer o que a angelical Hermione de Harry Potter disse na assembleia da ONU e para chutar o pau da barraca como fez a repórter, sem dar o mesmo chilique daquele âncora vivido por Peter Finch no filme Rede de Intrigas. 

Também é preciso ter peito para concretizar um delírio como o que uma massagista da Flórida chamada Jasmine Tridevil acalentava desde a década passada: acrescentar outro seio aos dois que já possuía. Sobretudo porque Jasmine não pretendia assemelhar-se a Ártemis de Éfeso ou a uma deusa indiana, muito menos aumentar seus dotes sedutores, mas afastar todo e qualquer homem de sua vida, tornar-se um breve contra a luxúria.

A uma emissora de rádio de Tampa a massagista contou ter consultado em vão meia centena de cirurgiões plásticos para realizar o insólito implante, e finalmente encontrou um que dela exigiu sigilo absoluto e US$ 20 mil. Não teria sido mais fácil saciar sua misandria extraindo um dos seios, como as mitológicas amazonas, ou borrifando ácido no próprio rosto? Teria se Jasmine, nascida Alisha Hessler, não pretendesse também estrelar um reality show com o rosto que a natureza lhe deu junto com dois seios. 

Como a polimastia por ela almejada é apanágio da mitologia e da ficção científica (vide a prostituta de O Vingador do Futuro), logo se desconfiou que tudo não passara de um logro, de mais um trote da web, tal qual as ameaças feitas a Emma Watson, que afinal escapou de ter fotos suas com os dois seios à mostra espalhadas por hackers na internet, como recentemente ocorreu com a atriz Jennifer Lawrence. Fora de fato uma lorota. 

Mesmo sendo uma invencionice - como, aliás, Ártemis, Istar, Parvati e outras deusas com três mamas foram -, Jasmine Tridevil não pode ser excluída do saldo credor feminino do mês. Há muitos setembros as mulheres não dominavam tão amplamente o noticiário como neste que depois de amanhã chega ao fim. E não apenas como vítimas (de assédio e violência física, como a jovem Jandira dos Santos Cruz, esquartejada e carbonizada na zona oeste do Rio, a advogada de direitos humanos Sameera Salih Ali al-Nuaimy, torturada e executada por guerrilheiros do Estado Islâmico, as companheiras dos jogadores de futebol americano Ray Rice, Greg Hardy e Adrian Peterson, e as celebridades cinematográficas achacadas por bullies digitais), mas também como paradigmas de uma ação afirmativa, de uma nova práxis feminista voltada ao combate a iniquidades que as lutas de meio século atrás não conseguiram abolir. 

Não incluiria nessa casta a goleira da seleção de soccer americana, Hope Solo, surpreendida espancando a irmã e um sobrinho. Atos de violência, não importa o sexo de quem os cometa, não são afirmativos, mas negativos. E, por não ter sido punida sequer com uma suspensão, como foram Rice, Hardy e Peterson, a goleira colaborou, involuntariamente, para esvaziar um pouco a retórica igualitária das feministas.

Não me refiro precipuamente a mulheres que chegaram ao poder como presidentes, chanceleres, ministras e congressistas, embora elas sejam a face mais em evidência de uma lenta e gradual conquista de espaço e mando. “E ainda é pouco”, ressaltou essa semana a senadora por Nova York Kirsten Gillibrand, empenhada ao máximo na eleição de uma mulher para a Casa Branca e numa recomposição do Congresso para que o eleitorado feminino, metade da população, possa estar fielmente representado em Washington. 

“Ou você conquista um lugar na mesa ou se arrisca a acabar no cardápio”, resumiu bem a questão a combativa senadora por Massachusetts Elizabeth Warren, que a melhor cepa dos democratas de ambos os sexos adoraria ver ocupando o picadeiro sucessório, no lugar de Hillary Clinton.

É outra mulher quem mais vem se destacando no combate à venda e posse de armas no país, enfrentando os fanáticos da “liberdade de expressão balística” com o destemor de quem já encarou a morte. Há quase quatro anos, Gabrielle Giffords levou um tiro na cabeça durante um atentado em Tucson (Arizona), aposentou-se compulsoriamente do Legislativo e fundou uma ONG para, ao lado do marido, mobilizar a América a favor de leis mais duras para o comércio de armas. 

Seus filmetes, exibidos na TV e onde mais os aceitem, sempre carregam no lado emocional. No último da série, o depoimento de uma mãe arrasada pela morte da filha, assassinada pelo namorado ciumento, despertou a ira de um parlamentar republicano, que o difamou como “apelativo” e “moralmente chantagista”. Giffords não se tocou, embora pudesse ter dito que qualquer forma de persuasão se tornou válida depois do que ocorreu em Columbine, Aurora e Newtown, para não mencionar Tucson e outras cidades já aterrorizadas por dementes assassinos e machões possessivos.

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