Pelo direito de ser

Pelo direito de ser

Ativista diz que está na hora de o Brasil parar de empurrar os gays de volta para o armário

Entrevista com

Maju Giorgi

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2014 | 16h00


Na semana em que o estudante Marcos Vinícius Macedo Souza, de 19 anos, homossexual, morreu esfaqueado em frente ao Ibirapuera - o mais importante parque de São Paulo -, um levantamento com base nos números do Disque 100 revelou que a cada hora um gay sofre algum tipo de violência no Brasil. O criminoso não levou dinheiro, celular ou documentos de Marcos, o que reforça a hipótese de que o jovem tenha sido vítima de homofobia.

O País lidera o ranking mundial de assassinatos de homossexuais e uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia apontou que, no ano passado, um homossexual foi morto a cada 28 horas. Para a jornalista e ativista Maju Giorgi, membro do grupo Mães Pela Igualdade - que apoia e defende a orientação sexual de seus filhos - o Brasil pode ficar na contramão da história. Maju foi uma das protagonistas do ato “Revolta da Lâmpada”, domingo passado na Av. Paulista, que lembrou o ataque com lâmpadas fluorescentes a três homossexuais ali em 2010. Para hoje, estava previsto um “Velaço” no Ibirapuera, em homenagem a Marcos Vinícius. 

Maju saiu do armário junto do filho. Desde que soube da homossexualidade de André, juntou a família e fez seu primeiro ato de militância. “Mandei o André viajar porque não queria que ele tivesse de lidar com isso. Chamei a obrigação para mim e disse: ‘Se alguém discriminar meu filho aqui dentro, nunca mais olho na cara’”. Aos 48 anos, casada e com dois filhos, ela não briga mais apenas pela aceitação social de André, que vai se casar em breve com o namorado. “Sabe aquele gay da periferia com pai e mãe evangélicos, teleguiados por pastor? Eu luto por esse”. 

A luta é desgastante, ela diz, mas as conquistas valem o esforço: “Já ouvi de adolescentes de 15 anos: ‘Não me matei por sua causa’”. Semana passada, a ativista brasileira foi procurada pela Human Rights Watch. A ONG dedicada aos direitos humanos quer conhecer a real situação da causa LGBTTT no País. “A gente vai falando, vai falando... Uma hora começam a escutar”. 

A pesquisa divulgada quinta-feira diz que, a cada hora, um gay sofre algum tipo de violência no Brasil. A questão está se agravando?

Esse dado não foi surpresa para mim. Aliás, se você considerar todo bullying homofóbico que o gay sofre dentro da escola, a violência deve ser muito maior. Os casos do levantamento são os que você fica sabendo. E os que não se sabe? Nós estivemos no centro da pauta política nas últimas eleições e, toda vez que o debate sobre a causa gay avança, o conservadorismo reage. Toda luta por liberdade acontece que nem maré: vai e volta, tem avanços e retrocessos. Até que um dia ela avança e não volta mais atrás. 

O que falta para esse momento chegar?

As pessoas deixarem ser egoístas e darem o direito de o outro ser o que é. No Brasil é todo mundo muito egoísta. E não temos um Obama, um François Hollande ou um Pepe Mujica. O Executivo não tem só que falar, como faz a Dilma, “vamos criminalizar”. Falar, minha filha, falo eu também e não acontece nada. O que tem de fazer é o que fez o Hollande na França: peitar, enfrentar, articular o Congresso e aprovar a lei. Você não pode discriminar por religião, que é uma opção, e pode discriminar o direito de ser gay, que é uma condição? Como pode? É um absurdo. 

Argentina e Uruguai são os primeiros países da América Latina a legalizar o casamento gay. O Brasil está atrasado nesse debate?

Muito atrasado. Porque o Brasil tem uma bancada religiosa forte e, em nosso País, não se respeita a laicidade do Estado. O Uruguai tem um presidente que não tem medo de bancada, não faz conchavo. Já nós dependemos apenas do Judiciário que, entra governo, sai governo, é composto por humanistas e defensores da Constituição. Porque o Congresso Nacional do Brasil é homofóbico e o Executivo é rendido, sequestrado. O Brasil está ficando na contramão da história. 

A sra. mencionou as eleições. Em um dos debates, o candidato Levy Fidelix disse que os gays precisam de ‘ajuda psicológica’...

É, inclusive fui gritar na porta do Levy. Ele estava destilando o ódio. É o famoso afiador de faca. Não mata com as próprias mãos, mas incentiva o louco a matar. Percebemos que, depois disso, a violência aumentou absurdamente. A palavra para o ser humano daquele tipo é esta: leviano. Leviano Infidelix. Que importância tem a opinião de uma pessoa que nunca viveu, nunca sofreu, não faz a menor ideia do que seja essa realidade? 

Foi por isso que a sra. declarou, sobre o momento atual, que ‘estão querendo empurrar nossos filhos de volta para o armário?’ 

Eu me referia àqueles que são contra a liberdade. Silas Malafaia (pastor da Assembleia de Deus), Jair Bolsonaro (deputado federal pelo PP-RJ), João Campos (deputado federal pelo PSDB-GO)... Quando olho o perfil dessas pessoas, vejo uma aura de maldade. Porque acho que meu filho tem direito à felicidade plena e ele só vai conseguir fora do armário - sendo quem ele é.

O que a sra. espera do Congresso recém-eleito, o mais conservador desde 1964? 

Primeiro quero ver que conservadorismo é esse. Acredito que o conservadorismo político e econômico do Congresso aumentou, mas não necessariamente o de costumes. Só o PSDB de São Paulo está mandando para Brasília três deputados federais ligados à causa gay: Floriano Pesaro, Mara Gabrilli e Bruno Covas. Você não pode colocar os conservadores no mesmo saco. Por exemplo, a “elite branca paulistana” é conservadora do ponto de vista político, mas extremamente inclusiva com os gays. Então vamos aguardar e ver. 

Como a polícia trata o gay hoje? 

Com desdém. A maioria dos policiais é homofóbica. A polícia faz parte da sociedade. Se a sociedade é homofóbica, a polícia também é. E aqui no Brasil ela tem essa mania de pôr a culpa na vítima. É a mulher que estava com a saia curta, é o gay que estava não sei quê... Ou você está dentro da caixinha ou não existe. Ou se encaixa no padrão que o conservadorismo considera certo ou você não existe. Vai ser perseguido. É um círculo vicioso que tem que ser quebrado. É cultural, muito complicado. Não adianta eu, Jean Wyllys, João Nery (um dos primeiros brasileiros a fazer mudança de sexo), Márcia Rocha (travesti, militante e empresária), falarmos dia e noite sobre essas coisas. É preciso mais gente debatendo o tema para quebrar esses estigmas culturais que foram construídos durante séculos. 

As novelas têm tratado bastante do tema. Em sua opinião, elas mais combatem ou mais reforçam a homofobia?

Depende do autor. Alguns são realmente capazes de sensibilizar e a gente morre do coração de tanta sensibilidade. Outros só reforçam o estigma e prestam um desserviço a nossa causa. É o caso desse jornalista gay que aparece na novela das 8 (personagem Téo Pereira, interpretado por Paulo Betti, em Império, na Rede Globo). Já o primeiro beijo gay (na novela Amor à Vida, entre os personagens Niko e Félix) foi sensibilidade pura. Porque ali a dramaturgia conseguiu o que a militância tenta: separar a sexualidade do afeto. Na realidade, o homofóbico quando olha para o gay vê apenas o sexo - nunca o afeto. Nossa briga é para que se veja o afeto. Porque meu filho sempre falou para mim: mãe, se não existisse sexo, eu ia ser gay do mesmo jeito. Porque é o coração, não é genital.

Quando a sra. percebeu pela primeira vez que seu filho era gay?

Ainda criança. Quando ele tinha 5 anos, falei para meu irmão: ele é gay. Meu irmão falou: ‘Ah não, imagina. Como você já pode saber?’. Mas sabia. E tive dez anos para me preparar. Por mais que me achasse preparada, a hora que ele me falou o chão se abriu debaixo de meus pés. Me senti péssima. Não por ele ser gay. Porque para mim tanto faz, é meu filho do mesmo jeito. O problema é que você sabe toda a discriminação que vai sofrer. No caso dele, sofreu mesmo. Além de todo o bullying na escola, sofreu três ataques homofóbicos. Tenho certeza absoluta de que meu filho pensou em se matar muitas vezes. Apesar de ter uma família inclusiva e ter para onde voltar. Porque apesar de ser honesto, trabalhador, não ser criminoso, não encher a paciência de ninguém, ele é um pária da sociedade. A criança judia sofre preconceito na rua e volta para o colo da mãe judia. A criança negra sofre o racismo na rua e volta para o colo da mãe negra. A criança LGBTTT não tem para onde voltar. E muitas vezes ela sofre mais homofobia dentro de casa que na rua. Veja o pai que matou um filho de 8 anos porque o menino foi lavar louça. Uma criança linda de morrer, e o cara esfacelou o rim do menino na pancada porque o filho queria lavar louça. É para esse lugar que a criança LGBTTT volta. Um lugar onde ela é torturada e não tem colo de ninguém. 

Que ataques seu filho sofreu? 

Uma vez, ele estava andando em Taboão da Serra, cuspiram nele e chamaram de veado. Outra vez tava no McDonald’s da Av. Faria Lima na hora do almoço. Quando se levantou para sair, as amigas que estavam com ele escutaram um pitboy falar ‘vamos pegar o veado’. Elas começaram a gritar e os seguranças do McDonald’s pararam um táxi e puseram meu filho dentro. Então você acha que a gente consegue dormir à noite? Tenho uma amiga da Mães pela Igualdade que a filha foi apedrejada. Apedrejada. Ano de 2014, mundo ocidental. Como a gente dorme à noite? A gente não dorme. O André Baliera (estudante de Direito da USP, agredido em 2012) foi espancado às 17h na Henrique Schaumann (avenida movimentada da zona oeste de São Paulo). Você dorme à noite? Não tem como.

E como foi o terceiro ataque homofóbico que seu filho sofreu?

Ele acabara de sair de férias e foi para Natal, no Rio Grande do Norte. Sofreu um ataque homofóbico que durou horas. Horas. Uma coisa horrorosa. Filme de terror. Ele estava na praia com o namorado, os dois tinham acabado de chegar lá e foram abordados por um cara que os roubou e dizia: ‘Ah, branquinho, vou te levar ali no mato para te estuprar’. ‘Você é lindo, branquinho. Vou te estuprar.’ ‘Se você falar que te roubei para alguém vou te matar. E para mim é fácil porque mato veado todo dia. Você é só mais um.’ 

Ainda assim os casais gays devem andar de mãos dadas e enfrentar olhares na rua?

Claro. Você quer um melhor jeito de militar pela causa do que esse? É dizer: eu estou aqui, eu existo e vocês vão ter que me engolir. Com certeza! Até para banalizar a história. Porque tudo que vira natural deixa de ser manchete. Sair do armário é um ato político. Se todo mundo se esconder, a gente não sai do lugar. 

A postura do papa Francisco em sinalizar uma abertura na Igreja Católica de diálogo sobre os gays aponta para novos tempos de progresso no debate?

Vou falar bem claramente meu ponto de vista: o papa não pode mudar a religião. Existem dogmas e os dogmas têm que ser seguidos. Mas o papa dizer para parar com a perseguição é fantástico. É humano. Não tenho a menor expectativa de um dia ver um gay casando na Igreja Católica. A expectativa que tenho é que religiosos peçam para parar de perseguir. Hoje você está vendo o dalai-lama, Desmond Tutu e o papa Francisco fazendo isso. Agradeço aos três porque é um avanço muito grande, e não espero que eles desconstruam a própria religião. Meu filho é devotíssimo de Nossa Senhora e acho que ele também não espera casar na Igreja Católica.

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