Vantoen Pereira Jr.
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Pena que Jabor foi embora antes de o filme terminar

Vizinhos, tínhamos, enfim, um inimigo comum como na ditadura

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 16h00

Quando perdemos um velho amigo, uma das primeiras coisas que fazemos (pelo menos eu faço) é tentar lembrar de como, onde, e, se possível, quando nos conhecemos. Minha imagem mais remota de Arnaldo Jabor – alto, bonito, espaçoso, falante, veemente – tem por cenário a redação do legendário jornal estudantil O Metropolitano, órgão da Ume (União Metropolitana de Estudantes) do Rio, em que nos iniciamos, ao mesmo tempo, no jornalismo. 

Quase um feudo dos estudantes de Direito da PUC-Rio, nele Cacá Diegues chefiava a reportagem, Roberto Pontual editava as páginas de Cultura e David Neves dividia comigo a gleba cinematográfica. Jabor cuidava da crítica de teatro e então desdenhava o cinema como uma “arte inferior”. Com uma desídia agravada pelo trabalho a leite de pato, vez por outra, sem saco para fechar sua coluna, pegava uma peça de algum autor em evidência (Brecht, Ionesco, Camus), traduzia-lhe um trecho e o despachava para a oficina.

Dava para se ir a pé da redação do jornal à Maison de France. Um dia, Jabor foi até lá e voltou aluno e depois assistente de Jack Gelber, do vanguardista Living Theatre, na encenação carioca da peça O Contato, em março de 1961. Seu destino, porém, acabou sendo a inferior arte das imagens em movimento que apreciava depreciar. Para surpresa geral, em pouco mais de um ano, ei-lo inscrito num curso de cinema que o diretor sueco Arne Sucksdorff (1917-2001) organizou, sob os auspícios da Unesco e do Itamaraty.

Além de revelar Jabor, Eduardo Escorel e outros talentos da segunda geração do Cinema Novo, Sucksdorff nos apresentou ao “som direto” como, na época, só o revolucionário gravador suíço Nagra era capaz de oferecer. Nem a chegada da primeira câmera Mitchell ao Brasil resultou tão fundamental para a evolução técnica (e não apenas técnica) de nosso cinema.

Foi, aliás, como técnico de som do primeiro longa de Diegues (Ganga Zumba) e assistente de direção de Leon Hirszman, em Maioria Absoluta, que Jabor debutou atrás das câmeras, para em seguida realizar seus primeiros voos solos nas asas do “cinema verdade”, em O Circo e Opinião Pública.

Creio ser irrelevante desfiar, a essa altura, o que eu achava de seus filmes. Mesmo reconhecendo que ninguém reproduziu na tela com iguais brilho e afinidade a operística dramaturgia de Nelson Rodrigues, também para mim Tudo Bem permanece como sua criação mais inspirada e incisiva.

Vizinhos de prédio no Rio, só deixamos de nos visitar mutuamente e trocar confidências noturnas regadas a vodca quando as divergências políticas que culminariam com a ascensão de Bolsonaro lograram esfriar nossa pré-histórica amizade. Mas já estávamos apalavrados para celebrarmos juntos a queda do Arturo Ui da Ribeira, que tanto nos infelicitou nos últimos três anos. Tínhamos, enfim, um novo inimigo comum, como nos tempos da ditadura. Pena que Jabor tenha saído antes de a fita acabar.

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