Pênalti na área ucraniana

Dilema europeu: como ir aos jogos da Eurocopa sem encher a bola do mentiroso Yanukovych?

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h09

Deveriam os líderes europeus assistir às partidas da Eurocopa na Ucrânia? Ou seria melhor boicotá-las em protesto pela prisão política da líder da oposição Yulia Tymoshenko, pela corrupção mafiosa que envenena o país e pelo violento racismo de torcedores? Ou propor outra forma de protesto?

Yulia não é nenhuma santa, mas seu julgamento forjado e atual aprisionamento em Kharkiv, uma das cidades anfitriãs da Eurocopa 2012, são exemplos da mais franca truculência política. O analista político ucraniano Mykola Riabchuk diz que o presidente Viktor Yanukovych está perseguindo a rival com "espírito vingativo digno de um mafioso". Poderíamos também descrever seu comportamento como "vingança tipo Bacia do Donets", o estilo de política em meio ao qual ele cresceu naquela região áspera e industrial do leste da Ucrânia. Ouvir Yanukovych justificando a detenção de Yulia como decisão de um Judiciário independente num Estado de Direito é como ouvir um homo sovieticus que não sabe nem mentir. Antes, ele tinha assegurado a líderes europeus que mudaria a lei ou encontraria outra solução para o caso de Yulia - o que mostra que ele sabia que estava mentindo descaradamente e nós sabíamos que ele sabia, e ele sabia que nós sabíamos que ele sabia.

Ou seria mais adequado dizer que ele mentiu como um oligarca? Nem é preciso dizer quanto o fracasso de Yanukovych em cumprir promessas reflete sua determinação medrosa e teimosa de eliminar uma rival, assim como é conhecida a hostilidade implacável do oligarca Dmitry Firtash, um dos principais financiadores do presidente, em relação a Yulia. Firtash é o dono do grupo RosUkrEnergo, que foi ferrado - com o perdão do meu ucraniano grosseiro - pelo acordo de exploração do gás com Vladimir Putin, pelo qual Yulia está sendo castigada.

Ainda mais grave que o passado sujo - e a vingança suja que dele decorre - é o presente sujo. Um representante da UE comenta que se trata de um país em transição: de uma oligarquia econômica para uma oligarquia mafiosa. De acordo com a lista de ricos da Forbes, o filho mais velho de Yanukovych, Oleksandr, supostamente um dentista, é dono de uma fortuna de US$ 99 milhões. Mesmo pelos padrões americanos, isso deve fazer dele o dentista mais caro do mundo. Mas é claro que ele é também um trabalhador honesto, e todo esse dinheiro pode ser o fruto do seu suor e tino comercial infalível.

A suposta corrupção - suposta! como dizem os advogados londrinos de Firtash, Yanukovych e cia. - se estende até o preço extorsivo praticado pelos hotéis de cidades que receberão os jogos da Eurocopa, o que levou o presidente da Uefa, Michel Platini, a falar em "bandidos e corruptos". E, como demonstrado por uma reportagem da BBC, qualquer torcedor que tenha a pele mais escura deve manter distância dos hooligans ucranianos. "Assistam aos jogos pela TV", advertiu o ex-capitão da seleção inglesa Sol Campbell depois de assistir às chocantes imagens de atos racistas violentos cometidos no estádio do FC Metalist, em Kharkiv.

Seria de se pensar que os líderes poloneses pós-Solidariedade, lembrando de sua experiência nos anos 80 em que eram esnobados pelos políticos da Europa Ocidental, principalmente da Alemanha, seriam os primeiros a defender a ideia de não ir à Ucrânia. Engano. Em vez disso, o premiê polonês, Donald Tusk, voltou do jantar informal da UE na semana passada, dizendo ter convencido "quase todos" os colegas a comparecer à Eurocopa. "Quase" é um exagero. Enquanto a maioria dos líderes da UE está reticente, os presidentes do Conselho e da Comissão Europeia disseram que não irão. É como se os alemães estivessem se comportando como poloneses, e os poloneses como alemães. "Diplomacia silenciosa é melhor que a dos megafones; caso contrário o país será empurrado de volta aos braços de Moscou." Ouvimos esses argumentos da boca dos políticos alemães dos anos 80 enquanto estes viravam as costas aos dissidentes poloneses.

Os poloneses têm hoje argumentos melhores. Um deles é que é difícil boicotar um campeonato do qual são coanfitriões. Mas isso não significa que devam insistir para que outros líderes da UE visitem a Ucrânia. Nesse ponto, os poloneses defendem que é preciso diferenciar Yanukovych da Ucrânia. "Boicotem Yanukovych, não a Ucrânia", escreve o historiador Jaroslav Hrycak. Até Yulia disse que é contra um boicote. Mas o que poderia ter dito, sem complicar mais sua situação nem permitir que Yanukovych a retratasse como uma traidora?

A dificuldade é: como marcar claramente a diferença entre um presidente criminoso e um país nobre? Ir às partidas sem cumprimentar Yanukovych? O protocolo diplomático não permitiria. Ir aos jogos, mas participar de entrevistas comentando o caso de Yulia, os abusos contra os direitos humanos e a corrupção no país? Ou talvez o número de equilibrismo proposto pelo ministro alemão do interior, Hans-Peter Friedrich: ir, mas com a condição de poder se reunir com Yulia Tymoshenko?

Não existe regra universal que determine quando se deve boicotar um evento esportivo ou cultural, seja a Eurocopa 2012, as Olimpíadas de Moscou ou Pequim ou o recente concurso de canções realizado pela Eurovision no Azerbaijão, ainda mais opressor e corrupto que a Ucrânia. Por causa do dilema vivido pela Polônia, não pode haver um posicionamento unificado da UE. Assim, cada líder terá de tomar a própria decisão. A chanceler alemã, Angela Merkel, vai se ver diante de uma escolha difícil caso a seleção da Alemanha chegue à final.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, e o ministro das Relações Exteriores, William Hague, podem ser poupados destes dilemas morais graças ao desempenho da seleção inglesa. Mas, se a Inglaterra chegar às quartas de final na Ucrânia e Tymoshenko ainda estiver na prisão, eles não deveriam ir à partida. Esse tipo de turismo esportivo-político tem valor questionável, e eles têm coisa mais importante para fazer em casa - como salvar a economia britânica. Que risco eles correm ao ficar longe dos jogos? Será que o presidente Yanukovych boicotará a Olimpíada de Londres como vingança? Quem nos dera tamanha sorte! / TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS DA UNIVERSIDADE OXFORD, BOLSISTA SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE STANFORD. PUBLICOU RECENTEMENTE O LIVRO FACTS ARE SUBVERSIVE

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