The New York Times
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Pequenas livrarias crescem e ficam menos uniformes em Nova York

Mais de 300 livrarias abriram as portas nos últimos anos em várias partes da cidade, como em Chinatown

Alexandra Alter e Elizabeth A. Harris, The New York Times

16 de julho de 2022 | 16h00

As pessoas diziam a Lucy Yu que era um péssimo momento para abrir uma livraria na Chinatown de Nova York. Era início de 2021 e a pandemia tinha devastado o bairro, forçando o fechamento de dezenas de lojas e restaurantes. O aumento dos crimes de ódio contra asiáticos abalara moradores e empresários locais. Mas Yu acreditava que uma livraria era exatamente o que o bairro precisava.

Ela arrecadou cerca de US$ 20.000 no GoFundMe, o suficiente para alugar um espaço de fachada bem estreita – uma antiga loja de material funerário – na Mulberry Street, no centro de Manhattan. Um programa do bairro deu a ela US $ 2.000 para prateleiras e os livros. E, em dezembro, ela abriu a Yu and Me Books, especializada em títulos de e sobre imigrantes e pessoas não brancas. A loja começou a dar lucro em quatro meses, disse Yu.

A Yu and Me Books é uma das mais de trezentas novas livrarias independentes que surgiram nos Estados Unidos nos últimos dois anos, um renascimento surpreendente e bem-vindo após uma queda inicial na pandemia. E à medida que o número de lojas cresceu, o negócio de venda de livros – predominantemente branco – também ficou muito mais diverso.

“As pessoas estavam famintas por um lugar focado em histórias de americanos asiáticos e imigrantes”, disse Yu, 27 anos, que trabalhava como engenheira química e gerente de cadeia de suprimentos antes de abrir a loja. “É uma coisa que eu sempre procurava quando ia às livrarias, então queria que as pessoas viessem aqui e não precisassem mais procurar”.

Dois anos atrás, o futuro das livrarias independentes parecia sombrio. Enquanto o coronavírus forçava os varejistas a fechar as portas, centenas de pequenas livrarias nos Estados Unidos pareciam condenadas. As vendas das livrarias caíram quase 30% em 2020, mostraram dados do US Census Bureau. A indústria editorial estava preparada para um baque no seu ecossistema de varejo que poderia remodelar para sempre a maneira como os leitores descobrem e compram livros.

Em vez disso, aconteceu algo inesperado: pequenos livreiros não apenas sobreviveram à pandemia, mas muitos estão prosperando.

“É meio chocante quando você pensa na situação que as livrarias estavam enfrentando em 2020”, disse Allison Hill, CEO da Associação Americana de Livreiros, uma organização comercial para livrarias independentes. “Vimos um rali como nunca tínhamos visto”.

A associação tem 2.023 lojas associadas em 2.561 locais, um aumento em relação às 1.689 no início de julho de 2020. Parte do crescimento reflete a renovação de associações por lojas existentes que adiaram sua entrada no ano passado em meio à incerteza causada pela pandemia. Mas também houve um aumento acentuado e sustentado de novas livrarias, e mais de 200 lojas adicionais estão se preparando para abrir no ano que vem ou no próximo, disse Hill.

Muitas lojas também viram um aumento nos lucros. Em uma pesquisa com livreiros no início deste ano, a associação descobriu que cerca de 80% dos entrevistados disseram ter visto vendas mais altas em 2021 do que em 2020, e quase 70% disseram que suas vendas no ano passado foram superiores às de 2019, disse Hill.

Na Blue Willow Bookshop, em Houston, a receita aumentou 20% em 2021, e a loja ganhou mais dinheiro no ano passado do que em 2019, segundo a proprietária, Valerie Koehler. Mitchell Kaplan, fundador da Books & Books, uma rede independente no sul da Flórida, disse que as vendas aumentaram mais de 60% em 2021 em comparação com 2020.

Muitas das novas livrarias que abriram durante a pandemia são administradas por livreiros não brancos, entre elas a The Salt Eaters Bookshop em Inglewood, Califórnia, especializada em livros de e sobre meninas, mulheres e pessoas não binárias negras; a Libros Bookmobile, uma livraria móvel de propriedade de latinos em um ônibus escolar convertido em Taylor, Texas, que vende ficção em espanhol e inglês; e a Reader’s Block, uma livraria de propriedade de pessoas negras em Stratford, Connecticut.

Terri Hamm decidiu abrir a Kindred Stories, em Houston, quando sua filha, que agora tem 14 anos, disse que estava entediada com os livros que sua mãe levava para ler em casa. Leitora ávida, ela gravita em torno de livros sobre a juventude negra.

“Percebi que ela não tinha um espaço em Houston para descobrir e explorar todas as obras incríveis do mercado que são escritas por vozes negras”, disse Hamm. “Não havia um espaço com uma curadoria que pensasse nela”.

O rápido crescimento das livrarias físicas é especialmente surpreendente em um momento em que as lojas físicas enfrentam a concorrência esmagadora da Amazon e de outros varejistas online. Muitos donos de livrarias também estão enfrentando novas incertezas de uma perspectiva sombria para a economia em geral: escassez de mão de obra, problemas na cadeia de suprimentos, aumento de aluguéis e taxas de juros, custos mais altos de mercadorias e uma recessão iminente que pode reduzir os gastos do consumidor.

Mas um resultado inesperado da pandemia foi a maneira como muitas comunidades se reuniram em torno de suas livrarias locais em tempos de crise. Quando as compras presenciais despencaram durante os lockdowns, as livrarias aumentaram rapidamente suas operações de vendas on-line e encontraram outras maneiras de manter seus clientes, como coleta na calçada, entrega em domicílio, lojas pop-up ao ar livre e bibliotecas móveis. Durante a pandemia os leitores ficaram ansiosos por livros impressos, e o aumento nas vendas continuou em 2021, quando as editoras venderam quase 827 milhões de livros físicos, um aumento de aproximadamente 10% em relação a 2020, de acordo com o NPD BookScan.

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Durante a pandemia os leitores ficaram ansiosos por livros impressos, e o aumento nas vendas continuou em 2021, quando as editoras venderam quase 827 milhões de livros físicos
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A nova safra de livrarias também pode ser um subproduto de mudanças mais amplas causadas pela pandemia, quando as pessoas reavaliaram suas vidas e mudaram de profissão, e os espaços de varejo ficaram mais acessíveis. A assistência do governo a pequenas empresas ajudou muitas livrarias a resistir ao fechamento, e os cheques de estímulo permitiram que algumas pessoas deixassem seus empregos e iniciassem novos negócios.

Julie Ross deixou o emprego em recursos humanos no Google este ano para abrir a Pocket Books Shop em Lancaster, Pensilvânia, com dois amigos que deixaram a academia. Eles abriram sua “livraria independente feminista e queer” – há uma mesa perto da entrada com livros sobre aborto – em uma área conservadora do estado, perto da casa onde cresceu um dos coproprietários.

A pandemia “estourou a bolha de acreditar que tínhamos algum controle sobre o que estava por vir”, disse Ross. “Chegou o momento em que pensamos: ‘o que estamos esperando?’”

Laura Rodríguez-Romaní, fundadora e proprietária da Los Amigos Books em Berwyn, Illinois, abriu sua livraria em junho. Ex-professora do ensino fundamental, Rodríguez-Romaní começou vendendo livros on-line e depois organizando eventos. Ela usou seu cheque de estímulo do governo para comprar livros e lançar um site, depois encontrou um espaço físico e mais tarde ganhou um concurso para empreendedores locais e conseguiu dinheiro para os móveis.

Ela sabia que era um investimento arriscado, mas sentia que a comunidade precisava de um espaço que oferecesse livros infantis em inglês e espanhol.“Não temos representação dessas categorias de livros nas livrarias típicas”, disse Rodríguez-Romaní. Vários outros novos donos de livrarias disseram que foram motivados pelo desejo de criar mais visibilidade para livros e autores mais diversos.

Nyshell Lawrence, uma nova livreira em Lansing, Michigan, teve a ideia de abrir uma livraria há cinco anos, depois de visitar uma loja local e constatar que tinha poucos títulos de mulheres negras. Mãe e dona de casa com quatro filhas, ela começou com um clube do livro online e eventos durante a pandemia, depois se mudou para uma microloja que compartilhava espaço com outro negócio. Por fim, ela encontrou um espaço de cem metros quadrados no Lansing Mall e abriu em janeiro.

Sua loja, a Socialight Society, traz uma seleção com curadoria de trezentos títulos de autores negros – a grande maioria mulheres – e tem uma seleção mais ampla em seu site.“As pessoas realmente estão procurando uma comunidade onde recebam recomendações de verdade de pessoas de verdade”, disse Lawrence. “Não estamos baseando as coisas em algoritmos”.

Em uma tarde recente em Chinatown, um fluxo constante de compradores folheava e conversava com Yu em sua loja, que tem cerca de 2 mil títulos e fica em um trecho da Mulberry Street perto de uma funerária, uma lanchonete e uma lavanderia. Nos fundos da loja, os clientes se acomodavam em um aconchegante recanto de leitura. “Já vi alguns encontros acontecendo ali”, disse Yu. “Alguns bons. Outros ruins”.

Uma compradora perguntou a Yu se ela poderia recomendar um livro de receitas para presente; Yu entregou a ela uma pilha de opções. Outra cliente, a escritora Ava Chin, que trabalha em um estúdio de redação no bairro, parou para ver se um livro que ela tinha encomendado já estava lá. Yu encontrou – Wayward Lives, Beautiful Experiments, de Saidiya Hartman.

Chin, cuja família vive em Chinatown há gerações, disse que a loja se tornou um ponto de encontro para os artistas e escritores da região e uma espécie de centro literário asiático-americano. Seu calendário repleto inclui uma leitura de poesia bilíngue com o poeta Yam Gong, um lançamento de livro com a escritora e ensaísta Larissa Pham e uma sessão de autógrafos com a romancista Marie Myung-Ok Lee.

Em um momento em que os crimes de ódio contra asiáticos aumentaram, a livraria também passou a parecer um porto seguro, disse Chin. Em março, a loja realizou um evento de conscientização e distribuiu mais de 1 mil alarmes de segurança e latas de spray de pimenta.

“Não é só uma livraria, é um espaço comunitário de verdade”, disse Chin. “Acho que não sabíamos quanto precisávamos de uma livraria até termos uma”.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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