Perdedor vencedor

Propostas radicais de Arnaud Montebourg, derrotado nas primárias do PS francês, seduzem vastas camadas em seu país e na Europa

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h10

GILLES LAPOUGE

No domingo realiza-se o segundo turno das primárias socialistas para designar o candidato que enfrentará Nicolas Sarkozy nas eleições para a presidência, em 2012. A escolha fica entre dois socialistas de qualidade, Martine Aubry e François Hollande. Provavelmente o indicado será o plácido, terno e honesto François Hollande.

Na verdade, o real vencedor das primárias é outro, o homem que obteve a terceira posição no primeiro turno, domingo passado, Arnaud Montebourg. Claro que está fora da disputa e não será o candidato socialista. No entanto, ele é a estrela. E os debates dos socialistas devem girar em torno das suas ideias.

Por que essa ascensão para a glória de Montebourg? Em primeiro lugar, ele é o oposto dos notáveis socialistas, Hollande e Aubry. É novo e audacioso. Os prognósticos eram de uma derrota pesada, ele conseguiria apenas 5% dos votos. Seu programa é estrambólico: fim da globalização, controle dos bancos, protecionismo, etc. Sem nenhum recurso, ele obteve 17% dos votos. E desde domingo, Montebourg, que até agora era um joão-ninguém, um esfarrapado, começa a ser cortejado. Tornou-se o homem forte da política.

Como explicar a reviravolta? Montebourg é talentoso, eloquente, vivo, eficaz. Ator e orador. Uma mudança da linguagem triste, arquejante e espasmódica de Hollande e dos discursos pedagógicos, apagados e lúgubres de Aubry. É alto e belo. Também nesse caso a comparação é mortal: Montebourg remete os dois rivais mais velhos para o século 19.

Mas seu discurso não envolve apenas forma: envolve também conteúdo. E esse conteúdo espanta. Vai no caminho oposto de todas as ideias que prevaleceram até agora. Prega o fim da globalização. Meu Deus, que horror! E se distancia da União Europeia. Quer uma reforma bancária. Denuncia um "liberalismo sem-vergonha". Defende um imposto sobre as transações financeiras e gostaria de introduzir uma dose de protecionismo no comércio. Em resumo, é um louco.

Todas essas ideias foram demolidas pelos economistas, de direita e de esquerda, sarkozistas ou socialistas. Montebourg foi vilipendiado, taxado de delirante. Suas ideias, se aplicadas, conduziriam a França à ruína.

Ora, o seu programa absurdo seduziu 17% dos socialistas. Por quê? Primeiramente, ele tem o mérito de ser novo. Há anos a direita e a esquerda chapinham nas mesmas ideias, engancham suas bandeiras nos mesmos sacrossantos pilares: liberalismo, respeito aos mercados, aos bancos, Europa, o euro, a livre circulação das riquezas, etc. Claro que entre Sarkozy e os socialistas existem nuanças: a direita se considera mais rigorosa; a esquerda salpica sobre sua sociedade liberal um pouco de humanismo e consola os pobres com pitadas de compaixão. Mas, no tocante às grandes opções, a direção é a mesma.

Sem dúvida essa é a razão pela qual 17% dos socialistas se renderam a Montebourg. Uma linguagem nova surgia, pouco importando que fosse um pouco bizarra, perigosa. Pelo menos era uma linguagem viva, iconoclasta. No mínimo, aqueles que não suportam Sarkozy viram que lhes era proposta não uma versão light do sarkozismo, como fazem os socialistas "sensatos", mas uma aventura inédita.

O sucesso surpreendente de Montebourg deverá alterar a paisagem política da França. Sobretudo porque essa pregação anticapitalista é compartilhada por vastas camadas da sociedade francesa além do socialismo. Por exemplo, a Frente de Esquerda, formação que reúne antigos comunistas e dissidentes do partido socialista sob a liderança de Jean-Luc Mélenchon, se reencontram nas flechas envenenadas que Montebourg lança contra a globalização, os bancos e o liberalismo.

Além disso, há a direita radical, da Frente Nacional. O velho fascista Jean-Marie Le Pen deu seu lugar à frente do partido à filha Marine, mais fina que ele. Ora, Marine compartilha da cólera de Montebourg e Mélenchon. Ela também abomina a globalização, a União Europeia, o euro, os bancos e os mercados. O partido de Le Pen conquista em todas as eleições entre 15% e 20% dos votos. A Frente de Esquerda de Mélenchon reagrupa 6% dos franceses. Se acrescentarmos a esses dois porcentuais os votos recebidos por Montebourg nas primárias, temos de admitir que grande parte dos franceses não se reconhece nem em Sarkozy, o liberal de direita, nem nos socialistas, os liberais de esquerda, mas nas "maluquices" de Montebourg.

Talvez seja preciso olhar também além das fronteiras da França. Em diversos países, o descontentamento contra as ideias hoje dominantes aumentou. As ideias lançadas pela Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos, criada na França em 1998, proliferam. A construção europeia, há muito um "consenso", se desfaz. Existem até economistas de renome denunciando o absurdo da Europa. Nesse clima, os 17% de votos arrebatados pelo socialista Montebourg devem ser lidos como um sintoma, a prova de que os preceitos que regem o mundo há 30 anos estão sendo contestados por amplas camadas da opinião pública francesa e europeia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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