The Economist
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Perdido na tradução e na política também

A expressão “vote him out”, usada pelo semanário britânico 'The Economist', foi interpretada como uma incitação ao assassinato de Bolsonaro, mas foi mal traduzida pelo governo

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2021 | 15h00

Tem origem nobre o sesquicentenário provérbio italiano “tradutor é traidor”, usado pela primeira vez por um tradutor de Goethe, Schiller, Shakespeare e Milton chamado Andrea Maffei. O bom tradutor, segundo ele, na verdade não trai, recria, mantendo-se fiel às duas línguas com as quais opera; é um bígamo linguístico.

Nessa categoria não se encaixa quem, na Secretaria Especial de Comunicação Social do governo, o Ministério da Propaganda bolsonarista, traduziu ou interpretou a expressão “vote him out”, usada pelo semanário britânico The Economist, como uma incitação ao assassinato de Bolsonaro. 

Ainda que isso refletisse – e é plausível que reflita – o desejo secreto de uma considerável parcela da população, o autor da matéria de capa sobre “a década sombria do Brasil” apenas nos exortou a enxotar Bolsonaro do poder pela via eleitoral, com as armas do voto, as únicas de que dispomos.

O “traditore” da Secom poderia ter consultado o empresário Carlos Wizard, tão à mão da presidência e do ”Gabinete Paralelo” da Saúde, mas não o fez porque sua malévola interpretação e a papagaiada artificialmente criada a partir dela lhe possibilitariam a criação de mais uma cortina de fumaça destinada a desviar o foco da CPI do Genocídio e da blindagem ao ex-ministro Pazuello acintosamente montada pelo presidente e seus generais amestrados.

Durou tão pouco e tão pouca gente atingiu o esperneio da Secom contra o “vote him out” da Economist (ou Ecommunist, como bolsonaristas sem noção a apelidaram), que acabei desistindo de inclui-lo entre os grandes mal-entendidos de tradução que há anos coleciono para um livro que jamais escreverei. 

Seu estrago foi menos do que mínimo, praticamente nenhum; nem às instâncias diplomáticas chegou. 

Nada que se compare, por exemplo, a uma saia-justa entre o presidente dos EUA em 1830, Andrew Jackson, e o governo francês, por conta do verbo “demander”, que, traduzido literalmente em inglês por “demand”, parecia mais exigência que solicitação. Furibundo com a suposta exigência, Jackson só não ordenou a invasão da embaixada da França porque estava ocupado perseguindo índios e cometendo outras iniquidades comparáveis às de Donald Trump, seu mais fiel sucedâneo civil na Casa Branca. Jackson era general. 

Em plena Guerra Fria, o premiê soviético Kruschev predisse, em discurso na ONU, que sobreviveria aos seus inimigos americanos, praga bem russa (“estaremos vivos quando vocês forem enterrados”), porém entendida como uma ameaça, tipo “irei destrui-los”. Como se vê, o traditore da Secom nem original foi.

As relações diplomáticas são vítimas frequentes de traduções toscas ou ambíguas, que ora provocam risos, ora bate-bocas, muitos até belicosos – quando não comprometem a vida de um povo e um país. Nova Zelândia tornou-se colônia da Inglaterra por causa de um erro de tradução no Tratado de Waitanga. Pela versão lida e aprovada por seus chefes tribais, os Maori não perderiam o controle de seu território. Na tradução britânica, perdiam tudo – como afinal perderam. 

No histórico encontro de Richard Nixon com o chanceler chinês Zhou Enlai, este respondeu a uma indagação do presidente americano com um comentário que entrou, equivocadamente, para os anais, já fartos, da sabedoria chinesa. Nixon quis saber como o líder chinês avaliava os acontecimentos políticos de Maio de 68 na França. “Ainda é cedo para avaliá-los”, respondeu Zhou Enlai, observação tão cautelosa quanto sensata a que Nixon reagiu com perplexidade, pois o intérprete, ao traduzi-la para o inglês, confundiu Maio de 68, distante quatro anos daquele encontro, com a Revolução Francesa, já distante 183 anos. O equívoco nunca foi corrigido.

Desavença parecida com a provocada pelo “vote him out” recomendado pela The Economist ocorreu no início do século, quando o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pediu que Israel fosse varrido do mapa, “wiped off the map”, na tradução para o inglês veiculada pelas agências de notícias e pelos veículos de imprensa mais importantes do mundo inteiro. 

Consultados vários entendidos em fársi, o persa moderno, descobriu-se que o enfezado líder iraniano na verdade dissera que “o regime que ocupa Jerusalém tem que desaparecer da página do tempo”, não do mapa. Não fora uma imprecação belicista, uma clara ameaça de destruição. E as garras foram recolhidas.

Um erro de tradução ou interpretação pode deflagrar uma guerra ou o seu fim, ainda que de forma trágica como aconteceu em Hiroshima. Em julho de 1945, os líderes aliados reunidos em Potsdam submeteram os termos da rendição incondicional dos japoneses ao primeiro-ministro Kantaro Suzuki. O preço da desobediência seria o aniquilamento do Japão. 

Pressionado pelos correspondentes de guerra por uma pronta resposta, Suzuki usou a palavra “mokusatsu”, traduzível por “sem comentários”, porém interpretada e explorada pela imprensa ocidental como uma rejeição arrogante. “Mokusatsu” apareceu na manchete do jornal japonês Asashi Shimbun em 28 de julho, dois dias após o ultimato dado pelo presidente Harry Truman. Nove dias depois, uma bomba atômica pulverizou Hiroshima, matando milhares de pessoas, embora não tanto quanto a covid-19 no Brasil. 

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