Perdoados & purificados

A morte absolve Celso Pitta e os mensaleiros voltam à ativa: ao relevar culpas, estamos zerando a história

Carlos Guilherme Mota*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2009 | 00h13

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BONS TEMPOS - O então prefeito Celso Pitta acena

para o público na reinauguração da Ponte dos Remédios

Será verdade que toda história é remorso, como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade? É fato consabido que a memória coletiva brasileira é a mais seletiva de todas do mundo, camufladora e marcada por escapismos, tanto do ponto de vista social quanto do político. Memória fraca, retém mal as lições do passado, as de ontem ou anteontem. Políticos, ideólogos, intelectuais, operários, transitam quase sem compromisso de um lado para outro, pulando para o galho de estatal ou grupo de interesses que lhes renda mais dividendos.

País atrasado dos sem-teto, dos sem-terra e dos sem-educação strictu e latu senso, dominado pelos sem-história (entenda-se: sem consciência social historicamente responsável), o Brasil vive de hiatos e apagões mentais, com variações ciclotímicas de euforia e depressão. Quando não de surtos esquizofrênicos, como se verificou quando o Rio de Janeiro - hoje palco de uma guerra civil cruenta - foi escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016 e muitos olhos nacionais ficaram úmidos, pois a "alma brasileira", "nosso modo de ser" acolhedor, etc., etc. Nesse mundo dos sem-história, como compreender que o ex-prefeito e sucessor de Paulo Maluf, Celso Pitta, tenha sido "absolvido" na morte, ou, quando menos, se tenha silenciado e passado batido no noticiário sobre sua folha corrida, no mesmo momento em que a ínclita ex-prefeita Luiza Erundina se vê em dificuldades para pagar uma derrota na Justiça? Como entender que mensaleiros eminentes continuem a circular com desenvoltura, e até articular "uma política" para seus partidos, além de atuar em lobbies legislativos e estatais como ratos contentes em paiol de milho, agindo como se nada houvesse acontecido?

Perdoar e esquecer Pitta, mas punir Erundina? O tema do perdão, sabem os historiadores, está no cerne da memória histórica e obriga à evocação tanto de experiências ancestrais como as de um passado recente. Quando, como e a quem perdoar? Judas, evocado recentemente pelo presidente? A questão não é saber como, de fato, as sociedades enfrentam, ou por vezes apagam, temas problemáticos e personagens de sua consciência social? Todas as grandes civilizações e religiões defrontaram-se com a questão do vigiar, punir, condenar, anistiar, perdoar, esquecer, reabilitar. Algumas sociedades criaram leis pétreas para não repetir o padrão das selvas e da barbárie em que germinam os autoritarismos, e resguardaram-nas adotando um rígido sistema ético, de educação e de reeducação, no caso, carcerária, em que a punição é irrevogável e - repita-se o conceito - educativa. E a impunidade, combatida, sem perdão ou atenuantes.

O perdão evoca uma postura em que a história é zerada, para um novo começo. "Perdoar, só a Deus", diz a letra de um samba clássico. "Bola pra frente!", é outro dito popular que pode significar a vontade de nada resolver, fugir de um impasse, "virar a página" e driblar o mal-estar que um ato punitivo gera nesta nossa pervertida cultura de conciliação e de arreglos. Perdoar é uma forma fácil de passar uma esponja no passado, mas também um jeito de a sociedade da conciliação se esquecer de seus membros "inconvenientes", de seus mortos, banidos, torturados e humilhados.

Afinal, pergunta-se: perdoar os algozes do Holocausto não teria o mesmo sentido que perdoar as sucessivas elites dirigentes desta sociedade selvagem, que assiste à morte diária e anunciada de motoboys em suas cidades, ou ao turismo sexual de europeus "civilizados" com menores no Norte e Nordeste? Ah, os motoboys, esses jovens heróis trabalhadores ou chefes de família que suprem as deficiências de um sistema de comunicações que nosso capitalismo selvagem não providenciou. Como perdoar essa "boa sociedade" que observa do alto de seus autos blindados, escondida por vidros fumé, os verdadeiros pátios dos milagres em que se transformaram nossas principais cidades, hoje anticidades? Tais autobunkers representam a varanda móvel pós-moderna da qual os senhores e senhoras de engenho de outrora observavam sua escravaria, alternando ares de indignação pseudoestamental com "aquela sujeirada toda" e uma condescendente e cordial bonomia, sonhando, porém, com Paris e um novo modelo de charrete ou tílburi... Autobunkers que hoje transportam o novo senhoriato, escoltados em alta velocidade por outros autos pretos com seus seguranças, para seus (con)domínios, bunkers amuralhados vigiados por outros seguranças, enquanto os motoboys atropelados jazem estendidos no chão (a média diária paulistana é de 14).

Perdoar a quem, hoje? Esquecer os males que Pitta, Maluf e outros prefeitos fizeram a esta cidade, que, segundo os cálculos mais otimistas, entrará em colapso em cinco ou seis anos, e "deixar prá lá" os danos que causaram a esta sociedade, esquecendo-nos da perda irreparável em termos de valores para as novas gerações?

Inúmeras experiências e interpretações a propósito do perdão podem ser encontradas na Bíblia, outras, no budismo, em que a compaixão é um de seus conceitos chave. Mas suas figuras maiores - Cristo e Buda - nem sempre foram mansos e meditativos, e fora do ar e da história. Em perspectiva cristã ou budista, ou mesmo laica, os assassinos de Vladmir Herzog, Chico Mendes, irmã Dorothy e centenas e centenas de outros devem ser perdoados um dia?

Em suma, teria razão Drummond, nosso poeta maior, ou Raymundo Faoro, o jurista historiador, que temia chegar a época em que nosso país viria a obter, no ranking das nações, o lugar onde se concentra o maior contingente de otários? E, no tocante à educação cidadã, que posição nosso país deverá ocupar no plano mundial nas próximas décadas? Terá razão o historiador inglês Eric Hobsbawm, para quem Brasil, nesta era de extremos, continua "um monumento à negligência social"? Será verdade que a contribuição maior que o Brasil deu à história política de nosso tempo foi a tocaia, método mais eficiente para liquidação do inimigo, ou a arte finória e malandra de se driblar as regras da República? Por fim, até quando, nesta terra de bananas, otários e vigaristas a dialética da malandragem continuará a funcionar como disfarce para a corrupção, além de assunto para "teses" amenas de universitários?

Que Drummond me perdoe, nem toda história é remorso. No enfrentamento radical dos mais graves conflitos ligados à educação, saúde, segurança, propriedade agrária, em nosso país, quase sempre ocorre o apagamento cordial e o silenciamento, cedendo lugar à autossatisfação ufanista e bisonha, que o educador Anísio Teixeira denominava de "cultura da miséria farta".

No Brasil atual, ainda no plano da literatura e da história, o conde de Monte Cristo, se saltasse das páginas de livros para a realidade nua e crua, morreria de depressão, pois seria constrangido a tudo esquecer e a todos perdoar. E o advogado Robespierre, na vanguarda da Revolução Francesa, seria guilhotinado no primeiro momento da revolução por ter dito que era "talhado para combater os corruptos, não para governá-los".

*Historiador e professor titular de história na USP e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor, com Adriana Lopez, de História do Brasil - Uma Interpretação (Senac)

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