Menahem Kahana/AFP
Menahem Kahana/AFP

Peregrinos e sionistas

Israel é o que os colonos imaginavam estar construindo na América e é em Israel que talvez nos transformemos - mas não como nossos antepassados pensavam

ROSA BROOKS, FOREIGN POLICY - É PROFESSORA DE DIREITO NA UNIVERSIDADE GEORGETOWN. FOI CONSELHEIRA DO GOVERNO DOS EUA E ESCREVE UMA COLUNA SEMANAL PARA FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h14

Chegou o feriado de Ação de Graças, o que significa que é tempo de pensar em Israel.

A ideia não é tão absurda quanto parece. Os peregrinos que estabeleceram o ritual com que os americanos celebram o dia de Ação de Graças pensavam muito em Israel: tanto eles como o grupo mais numeroso de colonizadores puritanos que os sucederam dez anos depois viam-se como "novos israelitas", obrigados a errar no deserto de terras selvagens por perseguição religiosa.

Dada essa história, o feriado de Ação de Graças nos oferece uma boa oportunidade de examinar os paralelos entre os EUA e Israel. Depois de uma semana de manchetes sobre Israel e a violência que é cada vez mais indissociável da imagem que as pessoas guardam desse país, essa também é uma boa oportunidade para pensar na sorte que temos, pois, apesar de muitos paralelos, os EUA, graças aos céus, não são Israel. Não ainda.

Conta a tradição que a primeira festa de Ação de Graças foi no outono de 1621, quando os peregrinos comemoravam sua primeira colheita. Em 12 de dezembro de 1621, Robert Cushman fez aos peregrinos o sermão mais antigo que chegou até nós. Deus, disse Cushman, havia aberto "um caminho (...) para que os que têm asas pudessem voar pelos céus até este deserto", de modo que "da perseguição que levou à dispersão da igreja judaica (...) uma luz possa se elevar no escuro". Uma Nova Israel nascera na Nova Inglaterra.

Se os primeiros colonizadores viam paralelos entre si e os antigos israelitas, nós, americanos modernos, também podemos identificar paralelos entre os peregrinos americanos e os sionistas judeus que se instalaram na Palestina entre o fim do século 19 e meados do século 20.

Afinal, os Estados Unidos e Israel compartilham de narrativas de fundação semelhantes: os peregrinos que içaram velas e se fizeram ao mar no porto inglês de Plymouth, em 1620, fizeram-no contra o pano de fundo das guerras, massacres e perseguições religiosas que assolavam a Europa; ao passo que os judeus que fundaram o moderno Estado de Israel fugiam dos séculos de antissemitismo europeu e dos horrores sem precedentes do Holocausto.

Ambos os grupos viam-se colonizando terras ermas e em grande medida, despovoadas: "Este lugar em que vivemos, nós o encontramos ermo, esvaziado dos que aqui viviam, achando-se eles todos mortos ou tendo daqui partido", relatou Cushman em 1621. Trezentos anos depois, e a quase 8 mil quilômetros dali, os sionistas judeus procuravam "uma terra sem povo para um povo sem terra". A Palestina "é, por ora, um território turco praticamente inabitado, abandonado, dilapidado", entusiasmava-se em 1902 Israel Zangwill, um dos primeiros sionistas. Tempos depois, ele se daria conta do engano ("Infelizmente, no país vivem 600 mil árabes"), mas nessa altura a ideia de estabelecer uma pátria judaica na Palestina ganhara um ímpeto avassalador que não havia mais como conter.

Tanto os peregrinos como os colonos sionistas - separados como estavam por séculos e quilômetros - subestimaram a resistência dos habitantes locais. Na "Nova Israel" da Nova Inglaterra, Cushman observava que os nativos se achavam "muito abatidos ultimamente, em virtude de uma grande mortalidade que se derramou entre eles de três anos para cá" (Cushman não devia saber que a "grande mortalidade" era causada pela varíola, tifo e por outras doenças que os pescadores europeus traziam inadvertidamente para a América). No tocante aos "pobres pagãos", escreveu ele, "nossa preocupação tem sido manter a paz entre eles".

No entanto, o fato é que os índios americanos tinham opiniões próprias sobre os europeus que tinham vindo "errar no deserto" e, nas décadas seguintes, o avanço do homem branco sobre terras indígenas foi cada vez mais motivo de conflito. A Nova Inglaterra assistiu à Guerra de Pequot em 1637; algumas décadas depois houve a Guerra do Rei Felipe, que se estendeu de 1675 a 1676 e causou a morte de centenas de colonizadores e milhares de índios.

Os sionistas que se instalaram na Palestina também mergulharam em conflitos. Com o aumento da população judaica, que passou de pouco mais de 10% do total dos habitantes da região, no início dos anos 1920, para 33% após a 2ª Guerra, as tensões com a maioria árabe se exacerbaram. A partir do fim da década de 30, os ataques de militantes árabes a assentamentos judeus começaram a ser retaliados com ações de grupos paramilitares judeus.

Aqui, porém, o caminho seguido por Israel diverge do que foi trilhado pela América dos primeiros tempos. Os índios já haviam sido gravemente debilitados por moléstias contagiosas e conflitos intertribais quando os colonizadores europeus começaram a chegar em grande número. Ainda que escaramuças sangrentas entre europeus e índios tenham se estendido pelo século 20 adentro, em meados do século 18 a população nativa deixara de representar uma ameaça à sobrevivência dos colonizadores europeus e a nação que então se formava pôde voltar sua atenção para outras questões. Para os colonizadores, foi um sinal da Providência. Para os índios, uma tragédia.

Na Palestina as coisas foram diferentes: os habitantes árabes se recusaram a morrer de vontade própria, o que deixou os colonos judeus cercados por um povo ressentido com a perda de suas terras. Ataques e contra-ataques que causavam cada vez mais destruição enredaram os israelenses num ciclo de violência e retaliação. Quando, em 1948, David Ben-Gurion anunciou a criação de um Estado judeu, a eclosão da guerra com Egito, Síria, Transjordânia e Iraque foi imediata. Israel levou a melhor - mas, nas quase sete décadas que se seguiram, o país permaneceu em estado intermitente de guerra.

O ciclo de guerra e intensificação da violência irrompeu novamente na semana passada, quando Israel, em resposta aos ataques com foguetes do Hamas, submeteu Gaza a um bombardeio aéreo. Nesse conflito - como em todos os anteriores - a superioridade militar de Israel (que se deve, em grande medida, às armas e à ajuda fornecidas pelos americanos) torna o embate assimétrico: até a última quinta-feira, 5 israelenses e cerca de 130 palestinos haviam morrido. No último conflito em Gaza - a Operação Chumbo Grosso, ocorrida entre 2008 e 2009 -, 13 israelenses e 1.400 palestinos morreram durante as três semanas de combate. Na guerra entre Israel e Líbano de 2006, para cada israelense morto houve dez vítimas do lado libanês. Mas a imensa superioridade militar de Israel gerou apenas ganhos ilusórios. De que vale vencer quando a vitória só faz plantar as sementes do próximo conflito, um seguindo-se ao outro em rápida sucessão?

Como escreveu na semana passada Janine Zacharia, ex-chefe do escritório do jornal The Washington Post em Jerusalém, "a resposta de Israel a esses incessantes ataques com foguetes é perfeitamente justificada. Mas isso não quer dizer que seja inteligente. O fato é que faz cinco anos que Israel está envolvido numa guerra de pequena escala com o Hamas em Gaza e, com exceção de uma estratégia militar equivocada, os israelenses não têm um plano para pôr fim ao conflito... É claro que, mais uma vez os objetivos táticos de curto prazo serão atingidos (...) mas, ao fim e ao cabo, em vez de aumentar sua segurança, Israel só conseguirá ampliar seu isolamento no mundo e deixar seus vizinhos cada vez menos tolerantes com suas retaliações agressivas".

Houve tempo em que Israel representava um sonho de liberdade, segurança e paz para os judeus que haviam sido perseguidos na Europa. Mas as décadas entremeadas por guerras, homens-bomba e ataques com foguetes deixaram o país isolado, ameaçado e correndo o risco de perder sua alma. Cada nova rodada de ataques assimétricos lançados pelos palestinos ou por países vizinhos suscita uma reação militar desproporcional por parte de Israel, que conquista assim alguns anos de relativa tranquilidade até o início de uma nova escalada de violência. Enquanto isso, Israel se tornou um Estado militarizado, que se define quase unicamente por sua permanente preparação para a guerra e vai perdendo a cada ano mais algumas de suas tradições democráticas.

Armas dos fracos. Isso não é um "ataque a Israel". Homens-bomba e foguetes artesanais são armas dos fracos, mas deixaram mesmo assim um rastro de corpos mutilados, dilacerados, e o Holocausto ainda projeta uma grande sombra. Hoje, os netos e bisnetos dos sobreviventes do Holocausto enfrentam os netos e bisnetos dos árabes que foram expulsos ou mort os pelos colonos judeus que criaram o Estado de Israel. Todos são vítimas, e todos se tornaram agressores.

Dahlia Lithwick, articulista da revista eletrônica Slate, escreveu recentemente o melhor texto que li até agora sobre a vida em Israel em meio ao atual conflito: "Os relatos pungentes, que vêm de ambos os lados, falando de porões destruídos e sapatinhos de bebê, não constituem um diálogo (...). Registrar o sofrimento dos seus compatriotas é uma maneira muito boa de não lidar com os verdadeiros problemas, e acreditem em mim quando eu digo que todo mundo está sofrendo e a tristeza é generalizada. Mas a tristeza tampouco ajuda a resolver os problemas (...). Cobrir o outro lado de bombas é tão adequado para resolver o conflito quanto contar em público o número de suas crianças mortas (...). Por favor, evitem fazer julgamentos. Trabalhem em busca de soluções. Porque todos, de ambos os lados, estão desesperados. Isso não é vida que se preze, e todos nós sabemos disso".

No conflito árabe-israelense há um lado mais forte e um lado mais fraco, mas não há um lado "certo".

Estamos no feriado de Ação de Graças e eu agradeço por todas as bênçãos prosaicas, mas essenciais: crianças felizes, um marido e uma família que me amam, um trabalho que adoro, boa saúde. Também agradeço a relativa paz e prosperidade em que nós, americanos, ainda vivemos. E, este ano, sou particularmente grata por não viver em Israel, pelos EUA não serem Israel, e pelo fato de que o caminho dos EUA divergiu há muito do de Israel.

Não foi exatamente por mérito nosso que isso se deu, já que a república americana se construiu sobre a virtual destruição dos índios que aqui viviam. Devemos muito de nossa paz e prosperidade a felizes acidentes geográficos - que sorte a nossa termos oceanos de ambos os lados do país! - e mais ainda ao sofrimentos de outros (a escravidão também projeta uma grande sombra).

Mas não devemos supor que os EUA estejam a salvo do destino de Israel. Atordoados pelos atentados do 11 de Setembro, os americanos deram uma guinada brusca na direção do caminho trilhado por Israel e acabaram se envolvendo em duas sangrentas guerras de ocupação. Como a nossa temporária aceitação da prática de tortura, chegamos muito perto de perder a alma nacional.

Ainda que tenhamos repudiado a tortura, continuamos a achar tentador o caminho de Israel. Prisões por tempo indeterminado tornaram-se uma realidade aceita nos EUA, em conjunto com um Estado policialesco agressivo e em expansão. Antes do 11 de Setembro, os EUA condenaram os "assassinatos seletivos" de supostos terroristas praticados por Israel. Agora, essa se tornou a tática preferida dos militares americanos.

Com nossas ações antiterroristas, estamos nos embrenhando no mesmo beco sem saída em que Israel se encontra: como acontece com os israelenses, cada missão executada por um drone nos faz afundar cada vez mais no interminável ciclo de ataque, retaliação, contra-ataque e contrarretaliação, sem que, tudo somado e subtraído, alguém ganhe alguma coisa com isso, além de cadáveres de ambos os lados.

Israel é o que os peregrinos se imaginavam estar construindo e, a menos que tenhamos boa dose de sorte e sabedoria, é em Israel que talvez ainda nos transformemos - mas não da maneira que nossos antepassados esperavam.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.