Marcos Bezerra/Futura Press
Marcos Bezerra/Futura Press

Perigoso vazio

Drama do professor que se suicidou com o filho mostra um vácuo social que novas normas não preenchem

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h14

A tragédia de Osasco, do pai que, com o filho de 6 anos de idade no colo, atirou-se do 13º andar de um prédio não constitui, infelizmente, caso isolado. Uma semana antes, em Jarinu, na vizinhança da mesma região metropolitana de São Paulo, um pai matou a tiro o filho de 7 anos de idade e se matou. Ainda na mesma região, em Alphaville, Santana de Parnaíba, em 2013, um pai matou a tiros três filhos, de 5 a 16 anos, e se matou em seguida. Outros casos ocorridos nos últimos anos indicam uma recorrência que ultrapassa o limite do caso eventual.

Mesmo em face de reduzido número de casos, é inevitável tentar compreendê-los a partir daquilo que neles se repete. No caso de Osasco, o pai decide morrer abraçado ao filho, levando-o junto. No caso de Jarinu, o pai matou o filho, que dormia, deitou ao seu lado e se matou. No caso de Alphaville, o pai deu aos filhos brigadeiro por ele preparado, provavelmente, com sonífero para poupar-lhes o sofrimento. Os três casos envolvem pessoas da classe média. No de Osasco, o suicida era professor de inglês, casado com professora de química na USP, com doutorado, dona de um respeitável currículo acadêmico. No de Jarinu, o suicida era empresário. No de Alphaville, era corretor de imóveis. Em dois dos três casos, os suicidas estavam em segundo casamento, tendo filhos do primeiro e do segundo. No caso de Osasco, o suicida sofria com a impossibilidade de encontrar e ver uma filha do primeiro leito. No caso de Alphaville, o suicida incluiu os filhos do primeiro casamento no homicídio.

Nos três casos, o modo como se deu a morte dos filhos não nega o afeto dos pais por eles. De certo modo, foram homicídios abraâmicos. Deus pede a Abraão que lhe ofereça o filho em sacrifício, o cordeiro do holocausto. Abraão amava Isaque, mas o pedido de Deus colocou-o entre a fé em Jeová e o amor por Isaque. A fé era maior que o amor, e entregar a Deus o próprio filho era o supremo ato de amor. Tratava-se de uma prova de fé e o sacrifício não foi consumado. A disposição de Abraão fora suficiente demonstração de fé. É claro que estou falando de uma referência mítica e arquetípica consubstanciada no dilema da relação entre Abraão e seu filho Isaque.

Um caso ocorrido em Piracicaba, em 2013, embora não envolva crianças, parece confirmar esse conteúdo sacrificial de homicídio e suicídio em família. Um pequeno comerciante, que com a esposa mantinha ao lado da casa um salão de cabeleireiro, tinha um único filho, de 21 anos, vendedor de automóveis. O rapaz, muito ativo, teve um problema na coluna, foi operado e ficou paralítico. A família, muito recatada e doméstica, entrou num processo depressivo. Não conseguiu aguentar a aparente falta de perspectivas para o filho. Num domingo, o pai matou a tiros a mulher e o filho, quando dormiam, foi para sua chácara, ali perto, e se matou.

Todos esses casos sugerem uma certa unidade orgânica da família, uma negação da individualização tão própria da sociedade moderna e urbana. Eram pessoas de vida regulada por valores da sociedade tradicional. Mesmo nos casos de Osasco e de Alphaville, de dois casamentos, em que significativamente as segundas esposas foram poupadas, esse valor referencial está presente. No caso de Osasco, o marido, lutador de judô, surrou a esposa violentamente pouco antes do suicídio e era contumaz na violência, tendo lhe quebrado um braço anteriormente. O que só reforça a concepção matrimonial arcaica, o segundo casamento secundário em relação ao primeiro, não obstante este já estivesse desfeito.

O caso de Osasco, de certo modo, repete outro, ocorrido há alguns anos em Santo André, quando um desempregado de classe média matou-se e ao filho, deprimido pela relação desigual com a esposa, uma profissional bem-sucedida. Não tem sido incomuns as referências, em relações matrimoniais desiguais, à impotência sexual do marido, com danos de identidade que acabam em tensão, doença e conflito. É claro que essas ocorrências não são a regra. São excepcionalíssimas, mas compreensíveis numa sociedade de fortes raízes patriarcais, como a nossa, expressões limites de uma possibilidade que está na própria estrutura histórica da família.

Esses casos não devem ser remetidos ao elenco de outros de violência doméstica. Há neles um altruísmo patológico, um medo à solidão compensado com o apego ao filho até na morte. O mesmo temor apareceu em caso oposto, recentemente, aqui em São Paulo, o do menino, filho único, doente, que matou os pais, da Polícia Militar, e também a avó e a tia, as pessoas que lhe eram mais próximas no cotidiano e seu grupo afetivo de referência. São variantes mais significativas da ocorrência frequente de infanticídios no Brasil. Trata-se um cenário muito diversificado de crise da família, mas também de crise social. A sociedade brasileira está mergulhada num cenário de crescente anomia, de corrosão das normas tradicionais de comportamento sem que novas e eficazes normas surjam para preencher o perigoso vazio.

Após uma discussão com a mulher na noite de segunda-feira,

o professor de inglês Edemir de Mattos, de 52 anos, se jogou com seu filho de 6 anos no colo do 13º andar de um edifício em Osasco (SP). Pai e filho foram encontrados mortos pela PM por volta das 22h30.

*José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Entre outros livros, autor de A Sociologia Como Aventura (Contexto, 2013).

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