Museu do Prado
Museu do Prado

Personagens astutos em lendas gregas, indígenas e orientais são tema de estudo

Entre os chamados tricksters, pode-se colocar Macunaíma, Exu, Hermes, Loki e muitos outros

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

20 Maio 2017 | 16h00

Quando Mário de Andrade alçou Macunaíma a protagonista de seu romance de 1928, afirmou que ele “não é só do Brasil, é da Venezuela também, e o herói, não achando mais a própria consciência, usa a de um hispano-americano e se dá bem do mesmo jeito”. Numa das narrativas míticas consultadas por ele, esse personagem de perfil pan-americano faz um feitiço para criar feridas no próprio corpo, mas depois, farto delas, as lança nos caminhos, tornando difícil a vida dos viajantes. O malandro indígena que está sempre com o “pé na estrada” e faz indistintamente coisas boas e ruins por onde passa é conhecido como trickster, um termo difícil de definir. 

O estudioso norte-americano Lewis Hyde dedicou ao trickster um estudo de fôlego, publicado agora no Brasil: A Astúcia Cria o Mundo - Trickster: Trapaça, Mito e Arte. Hyde não cita Macunaíma, mas analisa vários heróis similares que incansavelmente cruzam fronteiras e confundem distinções, oriundos de diferentes ciclos míticos nos quais a verdade e a falsidade não estão bem diferenciadas. Com inegável erudição e destreza narrativa (embora seja prolixo e repetitivo em muitas passagens), o autor vai da Grécia arcaica às tribos ameríndias, passando pela China, Índia e África, sem esgotar esse tema tão complexo. Segundo sua definição, os tricksters se mostram alternadamente sábios e tolos em todas as aventuras, mas, sobretudo, estão sempre preocupados com o próprio estômago: “O trickster mente porque tem um estômago, diz a história.” O trickster inventa tanto a linguagem quanto a armadilha de pesca, pois “a mitologia das figuras trickster é, em uma primeira leitura, a análise da inteligência surgindo do apetite”. 

Como todos os heróis míticos, também o trickster é um modelo de comportamento, embora sua atuação seja sempre ambígua e paradoxal. Hermes, Exu ou Coiote são exemplos estudados por Hyde, ao lado de vários outros. Que moral se poderia extrair das suas narrativas, que em geral são absurdas e cômicas? “Seria melhor aprender a jogar com ele”, afirma Hyde, “ainda melhor desenvolver estilos (culturais, espirituais, artísticos) que permitam algum intercâmbio com o acidental e alguma aceitação das mudanças que a contingência sempre engendrará”. Após a desordem provocada pelas ações irresponsáveis do trickster, o mundo sempre renasce, parecendo-se, porém, cada vez mais com o mundo no qual vivemos. 

Segundo a lente cristã, o trickster é o demoníaco. Macunaíma, o importante herói amazônico, foi, no entanto, num primeiro momento, associado ao deus cristão pelos tradutores da Bíblia para uma das línguas locais, como afirmou Koch-Grünberg, que coletou suas narrativas: “O nome do supremo herói tribal parece conter como parte essencial a palavra Maku=mau e o sufixo aumentativo Ima=grande. Assim, o nome significaria ‘O grande mau’, que calha perfeitamente ao caráter intrigante e funesto deste herói”. Hyde toma o cuidado de explicar, porém, que o Diabo e o trickster não são a mesma coisa: o primeiro é um agente do mal, e o segundo, um herói transformador amoral (não imoral).

Um dos pontos altos do livro é a discussão do caráter de Exu, divindade da cultura iorubá. Conhecido por fazer com que as pessoas briguem umas com as outras, como afirma Hyde, Exu é um exemplo de que o apetite insatisfeito exige uma inteligência ardilosa. Para ele, aquilo que deveria permanecer separado pode se encontrar, uma atitude transgressora que o autor do livro descobre também em grandes nomes da arte moderna, como Picasso e Duchamp. O último, que apostou na contingência, é associado a Exu do mercado, “promotor de desordem para quem a parte mais interessante do museu é a porta da frente, com seus guardas de libré azul. Cortejou o acaso por suas aberturas divertidas e deixou atrás de si uma cadeia de acidentes que passaram sem ser percebidos pelos guardas e mudaram todas as exposições”. Deus da incerteza e do acaso, Exu é o inconstante mediador entre extremos. 

No campo antropológico, ao opor o trickster ao xamã, o estudo Hyde enfatiza o papel da paródia, já analisado por Mac Linscott Ricketts: “A humanidade teve duas respostas quando confrontada com tudo o que engendra assombro e temor neste mundo: o caminho do xamã (e dos sacerdotes), que supõe um mundo espiritual, curva-se perante este e procura fazer alianças; e o caminho do trickster (e dos humanistas), que não reconhece poder além de sua inteligência, que procura aprender e subjugar o desconhecido com razão e astúcia.” Em muitas aventuras, de fato, o trickster ironiza as viagens místicas do xamã que aspira a penetrar em outros mundos. Ao contrário do seu colega e rival, o malandro errante prefere manter os pés chão. 

*Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Publicou, entre outros, 'Makunaíma e Jurupari' (2002) e 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' (2017), ambos da editora Iluminuras

A Astúcia Cria o Mundo

Autor: Lewis Hyde

Tradução: Francisco R. S. Innocêncio

Editora: Civilização Brasileira

546 páginas

R$ 94,90

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