Perto da árvore

Mãe de bebê com síndrome de Down diz que a filha vai ser criada como os outros irmãos, enfrentar os desafios e ser feliz a sua maneira

Patrícia Cançado, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2014 | 16h00

Tenho dificuldade para engravidar. Uma endometriose descoberta sete anos atrás, na emergência do hospital, me tirou as trompas e a possibilidade de uma gestação espontânea. Todos os meus três filhos são de proveta. Na última gravidez, aconteceu o que os especialistas chamaram de taxa rara de conversão: dos cinco óvulos que produzi, dois fertilizaram e vingaram. Até 13 de dezembro de 2013, quando Olivia e Mateus nasceram, nunca havia pensado na força daquela equação matemática. Olivia tinha de vir ao mundo. 

Nenhum exame previu que minha filha nasceria com síndrome de Down. Ao receber a notícia ao lado de meu marido, poucas horas depois do parto, eu questionava: ninguém me preparou para essa notícia! Segui fazendo essa pergunta, talvez na tentativa de me desviar do fato. Naquele momento, meu obstetra soube me manter de pé, apesar do baque, com uma sensibilidade e uma firmeza raras de se ver na área médica. Ele dizia: “Ninguém se prepara para essa notícia, se vive essa notícia”. Não me esqueço ainda de outro sábio conselho do dr. Nilson: “O único déficit que Olivia não pode ter é afetivo. Para todo o resto, haverá solução”.

As duas frases viraram meu mantra desde então. Não que tenha sido indolor. Ainda na maternidade, tinha tremores incontroláveis na hora de amamentar minha pequena. Falavam que podia ser efeito da anestesia, mas intimamente eu sabia que era emocional. Na primeira semana, desenvolvi uma diarreia crônica, quando o esperado no pós-parto é exatamente o contrário. Perdi, em apenas sete dias, todo o peso ganho na gravidez e um pouco mais. Provavelmente era meu corpo falando também pelos sentimentos ainda confusos de alegria e dor. Chorava pelos cantos, dormia mal, sentia muito medo do desconhecido. 

Minha mãe tem uma fé inabalável em Deus. Acima de tudo, é uma mulher forte e serena. Econômica nas emoções, ela me acalentou e acolheu Olivia com um amor incondicional, sem nenhum vestígio de preconceito. No mês que passou comigo, repetia, orgulhosa, os pequenos feitos da netinha, tratando-a com uma naturalidade tocante. Sua presença foi fundamental para viver o luto - e me despedir dele. 

Uma das primeiras reações quando se recebe uma notícia como essa é querer ler tudo a respeito da síndrome. Eu não contrariei a tese, mas logo me cansei do assunto. Minha vida com ela tinha outras nuances, particularidades que nenhum livro ou estatística poderiam prever. Foi então que passamos a viver nossa história e nosso amor intensamente. 

Com o tempo, fica cada vez mais claro que Olivia não é seu diagnóstico. Já não me apresso mais em contar, numa primeira conversa, quando perguntam por ela. Digo outras coisas. Não para desviar do assunto, mas porque Olivia, hoje com 7 meses, chama minha atenção por outros motivos. É um bebê curioso e determinado. Elétrica. Na barriga ela já era assim. Gosta de passar seus dedinhos no meu resto, fazendo carinho. Sente cócegas e sorri com os olhos. Ah, esses olhinhos amendoados. Já balbucia e senta sozinha. Não vejo a Olivia como um anjo. É minha filha caçula, com qualidades e defeitos, que vai ser criada como os irmãos, para enfrentar os desafios e ser feliz a sua maneira. 

Sinto que temos uma conexão de alma. Nunca acreditei na teoria de que mães de crianças especiais sejam também especiais, seres superiores, escolhidos. O ser humano é narcisista por natureza. Ter um filho muito diferente dele mesmo pode despertar as piores (rejeição, raiva, medo, frustração) e as melhores (amor, otimismo, gratidão, confiança) emoções. 

Em mim, despertou um pouco de cada, mas fui fisgada pelo que o jornalista Andrew Solomon chama, em seu livro Longe da Árvore, de “paternidade egocêntrica, mas altruísta”. Desenvolvi uma ligação fervorosa com cada aspecto da Olivia. Solomon diz que essa predisposição dos pais para o amor prevalece na mais penosa das circunstâncias. E constata: há mais imaginação no mundo do que se poderia pensar. 

Hoje acredito que posso me tornar uma pessoa melhor por causa dela. Meu marido também sente o mesmo. Nossa família ficou ainda mais unida depois de seu nascimento, numa torcida entusiasmada pela vida da pequena. Olivia desperta em mim a tal da empatia, o colocar-se no lugar do outro. Tenho me percebido mais humana, mais sonhadora, com mais vontade de viver. Suspeito que tenha feito um pacto com a felicidade. É o melhor que posso fazer por mim, por ela e por seus dois irmãos.

Ainda na maternidade, com um misto de indignação e desespero, pensava: meu Deus, é um fardo muito pesado cuidar de gêmeos e de uma criança especial! Não podia ser mais fácil? Ao mesmo tempo, meu lado otimista dizia: Olivia tem sorte de ter vindo junto com o Mateus. Ele é homem, vai protegê-la e estimulá-la. Continuo achando tudo isso, mas hoje também olho para o Mateus e penso: sorte também tem ele de crescer ao lado da Olivia.

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