Pesquisa, só, não muda voto

Prévias influenciam o eleitor, mas são vinculadas à opinião dos amigos, da família, renda, educação, desempenho dos candidatos

Célia Retz Godoy dos Santos, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 01h48

Ao ouvir falar em pesquisa política, a maioria das pessoas pensa naquela voltada unicamente a levantar a intenção de voto em corridas eleitorais. Realmente, não há como negar sua eficiência em quantificar a intenção de voto nas proximidades dos pleitos e no delineamento do perfil do eleitor, mas ela não se restringe ao âmbito eleitoral. A pesquisa política fornece subsídios para o direcionamento de campanhas eleitorais, trazendo informações relevantes aos candidatos e, o que talvez seja seu maior mérito, também proporciona a possibilidade de adequação dos gestores e programas de governo às demandas sociais, além de ser capaz de avaliar serviços e políticas públicas.

Nos últimos anos, há uma visível ampliação do uso da pesquisa para se levantar a opinião dos cidadãos, seus perfis, demandas e aspirações, possibilitando não só a elaboração de campanhas, mas de planos de governo mais ajustados aos anseios da população (pelo menos em tese). No entanto, é difícil sustentar que uma pesquisa política, quase sempre vinculada ao funcionamento ou à manutenção do poder, não seja politicamente comprometida e, muitas vezes, desvirtuada, tanto em relação à investigação quanto à utilização dos resultados para fins particulares.

A influência das pesquisas pré-eleitorais tem sido polêmica. Informam ou desinformam? Devem ser divulgadas ou não? São manipuláveis? Seus resultados prejudicam o processo eleitoral ou ampliam a democratização de informações? As respostas envolvem considerações éticas, jurídicas e metodológicas. Estas últimas se referem aos critérios de delimitação do universo pesquisado, ao plano da amostragem, ao tempo de "validade" da pesquisa, à margem de erro estimada e, até mesmo, ao modo de formulação das perguntas, que pode induzir respostas.

Quando se fala em influência, há que se considerar os impactos indiretos da pesquisa eleitoral, que se dão nos bastidores da esfera política. Os resultados de uma pesquisa exercem grande efeito no desenrolar de uma campanha e sua adequação, na arrecadação dos fundos, no apoio dos militantes, nas decisões dos líderes partidários, no espaço da mídia e no dimensionamento das verbas, fatores que vão incidir fortemente nas chances de vitória do candidato.

Já com relação à influência direta da pesquisa sobre o eleitorado, é muito difícil de mensurar, pois as variáveis que interferem na opinião pública em época eleitoral são muitas, como a propaganda na TV e no rádio. A divulgação das prévias eleitorais é, sim, uma das fontes de influência no eleitorado, mas não pode ser desvinculadas da mídia objetiva, da mídia partidária, do desempenho dos candidatos nos debates, do prestígio social de famílias, amigos e colegas, dos líderes de opinião, além de outros fatores como educação e renda.

Vários estudos realizados sobre as influências das prévias na decisão de voto ou na formação das opiniões do eleitor indicam que as pesquisas, longe de gozarem de reconhecimento universal, são objeto de desconfiança e indiferença de consideráveis parcelas do eleitorado. Ao contrário do que se imagina, é uma falácia dizer que o eleitor "ingênuo", menos escolarizado, seja o mais atingido. Este, que se traduz na maioria dos eleitores, não acredita nem confia nas pesquisas, argumentando que nunca foi entrevistado. Além disso, não possui conhecimento sobre os procedimentos amostrais nem embasamento teórico para compreender os procedimentos estatísticos. Já os eleitores com maior nível de escolaridade não tendem a votar no que está vencendo, mas, muitas vezes, utilizam o resultado das pesquisas para o voto tático ou útil, no qual optam pelo candidato mais próximo a seu favorito, com chance de vencer o líder nas pesquisas.

Portanto, a crença de que as pessoas tendem a votar no candidato que está vencendo não se configura realidade. Se as pessoas votassem sempre nos que lideram as pesquisas, uma vez destacado o favorito, jamais uma eleição mudaria. Lula, por exemplo, seria eleito presidente em 1998, pois nas primeiras pesquisas eleitorais tinha o mais alto porcentual de intenções de voto.

As sondagens eleitorais são retratos do momento. Seus resultados não informam sobre o que vai ocorrer, não predizem o futuro, apenas indicam uma tendência. Além da utilidade de levantamento de dados e mensuração de atitudes para planejamento de campanha e estratégias políticas, as pesquisas eleitorais têm dado uma valiosa contribuição por consolidarem, de alguma forma, as aspirações, as crenças, as motivações de um povo, auxiliando nos processos de democratização em vários países. Infelizmente, no Brasil, não muito diferentemente do resto do mundo, é comum que elas sejam principalmente voltadas para as definições de estratégias eleitorais e, lamentavelmente, é difícil encontrar um candidato eleito que continue encomendando pesquisas para averiguar as necessidades da população ou avaliar os serviços do seu governo. Uma pena.

CÉLIA RETZ GODOY DOS SANTOS É PROFESSORA DA FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO DA UNESP E COORDENADORA DE GRUPO DE PESQUISAS SOBRE OPINIÃO PÚBLICA

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