Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Pesquisador brasileiro oferece interpretação alternativa de Dostoievski

Novo estudo refaz percurso do crítico Mikhail Bakhtin e questiona fortuna crítica do autor russo

Caio Sarack*, Especial para o Estado

16 Junho 2018 | 16h00

A obra Dostoievski e a Dialética: Fetichismo da Forma, Utopia como Conteúdo (Editora Hedra), do escritor, professor e pesquisador Flávio Ricardo Vassoler, desponta com um ímpeto de suma originalidade – e polêmica. Eis a avaliação de Susan McReynolds, especialista na obra de Fiodor Dostoievski (1821-1881) e professora de Literatura Russa da Northwestern University (EUA) – instituição pela qual Vassoler fez sua pesquisa – e do crítico literário Manuel da Costa Pinto, que assina o prefácio. 

Ao longo da entrevista concedida ao Aliás, vejamos por que, ao colocar Dostoievski em diálogo com o crítico russo Mikhail Bakhtin; os filósofos alemães Hegel, Karl Marx e Theodor Adorno (1903-1969); e o pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita, Vassoler afirma que “Dostoievski ainda está se tornando Dostoievski”. 

No livro, você não só reconstrói a tradição crítica sobre Dostoievski, como define seu alcance. Como esse alcance é relevante para seu trabalho?

Poderíamos falar em dois momentos fundamentais dessa tradição que foram importantes para que eu situasse meu livro como uma obra de contradição: as considerações de Mikhail Bakhtin, em Problemas da Poética de Dostoievski (1929), sobre a possibilidade de o escritor ter erigido uma nova forma literária – “o romance polifônico integral” – e as complexas relações entre cristianismo e socialismo em meio à obra de Dostoievski. 

Bakhtin, com honestidade intelectual, reconhece que seu livro não consegue demonstrar, de forma total, como o romance polifônico integral se constitui. Bakhtin apreende a dialogia – a palavra e as ideias postas para e moduladas pelo outro – como uma condição ontológica das personagens dostoievskianas. As vozes comporiam um concerto polifônico. Entrevemos uma crítica velada à ditadura soviética, em meio à qual as vozes sociais não podiam se exprimir dialogicamente diante da ubiquidade totalitária. Mas Bakhtin não analisou sob o signo da contradição. Se tivesse aproximado dialogia e polifonia da dialética, teria sido possível compreender como ontologia dialógica e plano autoral, fé e ateísmo, compaixão e niilismo, utopia e distopia se articulam em meio à obra. Nesse sentido, realizo, em meu livro, uma tomada de posição inusitada em meio à fortuna crítica ao fazer com que a dialética mobilize as aporias e insuficiências que Bakhtin não conseguiu superar, chegando àquilo que conceituo como a dialética polifônica. Proponho, assim, uma totalização para o projeto que o crítico russo iniciou há pouco menos de um século. 

Fale, então, sobre a relação entre cristianismo e socialismo na obra de Dostoievski. 

“Se Deus não existe, tudo é permitido”: o aforismo atribuído a Ivan Karamázov nos faz entender que, para Dostoievski, a morte de Deus e a inexistência da eternidade levariam a uma vacuidade ética que só faria insuflar o egoísmo mais contumaz. Em termos ateístas, Dostoievski pode ser lido como a quintessência da vontade de poder e do caos: homicídio, em Crime e Castigo; ressentimento, em Memórias do Subsolo; extorsão, estupro, suicídio e pedofilia, em Os Demônios; parricídio, em Os Irmãos Karamázov. Sem Deus, o (suposto) altruísmo socialista seria revertido em opressão e barbárie tão logo os revolucionários chegassem ao poder. Dostoievski trouxe à tona tais reflexões décadas antes do horror stalinista. Mas, conforme analiso a partir das antíteses espirituais em Dostoievski, se Deus não existe e tudo é permitido, Deus poderia voltar a existir. O movimento da história teria o potencial de superar o niilismo com base no resgate das noções de ontologia do ser social e compaixão, comunhão e eternidade. O ímpeto pela utopia terrena – a vinda do Éden – voltaria a fazer sentido se esta vida fosse mais uma etapa do longo, contraditório e eterno processo de “cicatrização do espírito”. 

Nesse conceito, seu livro aproxima Dostoievski de Hegel e Allan Kardec, outro movimento inusitado diante da fortuna crítica. Qual é a influência deles para a obra de Dostoievski?

A influência exercida pelo idealismo alemão de Hegel sobre o meio intelectual russo é um ponto pacífico entre os estudiosos. Já a contribuição de Kardec para as investigações espirituais do escritor é uma vereda polêmica – e ainda pouco explorada. O pesquisador Rudolf Neuhäuser, da Universidade de Klagenfurt, publicou um artigo na revista Dostoievsky Studies (1993), asseverando que Dostoievski leu O Livro dos Espíritos (1857), de Kardec. O escritor discorre sobre o espiritismo, com um misto dostoievskiano de admiração e repulsa, em seu Diário de um Escritor, em 1876. Mas, para além do contato imediato de Dostoievski com Kardec, procuro analisar, em diálogo com o conto O Sonho de um Homem Ridículo, as imbricações filosóficas que fazem com que Dostoievski, Hegel e Kardec entrevejam um sentido redentor para a história de modo que a (in)finitude da vida reconcilie suas feridas e escombros sob o signo da utopia – e da eternidade. 

Como você espera que seja a recepção da obra? 

Espero que minhas contribuições possam tensionar certas leituras decantadas – e, por vezes, dogmáticas – que só fazem apreender o escritor russo ora como um rematado niilista, ora como um apóstolo inequívoco da ortodoxia. Se a forma em Dostoievski tem o potencial de acompanhar (e ressignificar) o processo de coisificação das pessoas e fetichização das mercadorias; se o conteúdo das vozes dostoievskianas esgarça e amplia a razão para que a história e a eternidade se transformem em travessias, talvez seja o momento de compreender Bakhtin, quando afirma que “Dostoievski ainda não se tornou Dostoievski”.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela USP e professor dos colégios Sidarta e Nossa Senhora do Morumbi

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