Pesquisadora investiga as raízes do incidente das bruxas de Salem

Pesquisadora investiga as raízes do incidente das bruxas de Salem

'As Bruxas', de Stacy Schiff, oferece informações preciosas para se compreender a extensão da irracionalidade da época

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

13 de abril de 2019 | 16h00

Um homem que era a “autoridade judicial mais confiável da Nova Inglaterra” fez parte do grande júri de Salem, na Baía de Massachusetts, que condenou, em 1692, 19 pessoas e dois cachorros. Na época, a conceituada Harvard, onde muitos dos pastores se formavam, tornou-se o palco de discussões sobre bruxaria. Filósofos e cientistas como Robert Boyle, Isaac Newton e John Locke acreditavam em bruxas. 

É destacando a irracionalidade dessa figuras que Stacy Schiff, autora do recém-lançado As Bruxas, mostra como a crença no sobrenatural unia todas as camadas da sociedade. Nada menos que 55 pessoas confirmaram suspeitas e 185 foram citadas como bruxas nos julgamentos. A primeira enforcada em Salem foi Bridget Bishop, foi também a última perdoada pela condenação, no Halloween de 2001, 309 anos após sua morte. 

Assim, As Bruxas é uma investigação profunda sobre esse período da história que muitos já ouviram falar, mas poucos sabem como começou: com um grupo de adolescentes consideradas enfeitiçadas, que foram as principais responsáveis por apontar as primeiras supostas bruxas que as “atormentavam” com convulsões, sufocamentos, beliscões e mordidas. A primeira acusada foi uma mulher sem família, que incomodava ao pedir doações; a segunda estava envolvida em uma disputa judicial com a principal família da aldeia. Já a primeira a confessar bruxaria foi uma índia escrava, que, com seu relato, duplicou o número de suspeitos e deu urgência à investigação. 

Denúncias e confissões levavam a outras, permitindo que as “enfeitiçadas” fizessem verdadeiros shows de convulsões e desmaios nos tribunais, e dessa forma contribuíssem como provas para as condenações. Em pouco tempo, fora instalado um “tribunal especial para julgar os casos de Salem”. A bruxaria demonstrava como a região era um local escolhido, “pois Satanás se empenhava em destruí-lo” e também provava a importância do clero para a comunidade.

Ser acusado era corriqueiro. Os motivos, inúmeros: bastava ter alguma inimizade, poucas posses, tratar mal esposas, negar a bruxaria ou ter o nome em voga. Não era raro se aproveitarem das prisões para confiscar bens e invadir fazendas, o que também explicaria certas acusações. Além disso, acusar alguém e fingir ser afligido passou a se tornar uma forma de estar seguro: “John deve ter pensado que seria de bom alvitre começar a citar nomes antes que alguém mencionasse o seu”. Dentro dos tribunais, as pessoas também eram levadas a isso através da violência. 

As bruxas “poderiam ser briguentas e resmungonas, ou inexplicavelmente fortes e inteligentes” – por “tradição” elas também eram “marginais, isoladas, intratáveis e coléricas”, ou seja, o contrário daquelas que as acusavam. As primeiras enfeitiçadas eram justamente muito jovens, privadas de direitos, órfãs ou empregadas. “Isso as deixava instáveis quanto ao casamento e à herança, quando não famintas de atenção masculina”, informa Schiff, “educadas para ficarem quietas, as bem comportadas Betty e Abigail convulsionavam. Não conseguiam desabafar, como as espalhafatosas e intrigantes Abigail Hobbs e Mary Lacey [condenadas por bruxaria]”. Já Elizabeth, e talvez muitas outras mulheres, viram nas bruxas uma oportunidade de se livrarem das pesadas tarefas domésticas: “ninguém castigava uma moça afligida, nem mandava catar lenha”.

De modo geral, as pessoas acusadas começaram a confessar. Em Salem, o juiz Stoughton “poupou bruxas confessas, condenando apenas aquelas que se recusavam a admitir a culpa. A confissão era fácil para um povo que acreditava ser o caminho da salvação”. O magistrado era, no geral, uma figura autoritária e poderia fazer pessoas revelarem “coisas extraordinárias”, como ocorreu com uma menina de cinco anos, que, após testemunhar contra e ver a própria mãe morrer enforcada, ficou louca. 

O caso de Salem foi peculiar. Tanto vítimas quanto opressores eram em sua maioria mulheres – embora alguns homens também tenham sido condenados à forca, entre eles um pastor. O que As Bruxas faz é mostrar todos os possíveis lados do episódio, que é citado também no livro História da Bruxaria (Goya), escrito por Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander, reeditado no Brasil. “Por que” torna-se a pergunta que nem sempre é respondida de forma clara. Quando olhamos para os casos mais recentes, como o de Fabiane Maria de Jesus – morta por espancamento no Guarujá, em São Paulo, após uma fake news acusá-la de ter sequestrado crianças e praticado bruxaria em 2014 – nos deparamos com a mesma pergunta. Os motivos de 1692 ainda ecoam.

*BRUNA MENEGUETTI É AUTORA DOS ROMANCES ‘O ÚLTIMO TIRO DA GUANABARA’ E ‘O CÉU DE CLARICE’ E COAUTORA DO LIVRO-REPORTAGEM ‘CORAÇÕES DE ASFALTO’

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