Petróleo, comida ou os dois?

O consumo maior de energia cobra terras da agricultura. Só que o apetite da humanidade também está crescendo

Paul Kennedy*, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2008 | 18h33

Sempre observei com interesse o papel da coincidência na história do mundo. Vejamos um exemplo. Em meados do século 18, a Grã-Bretanha tinha a maior indústria naval do mundo. Mas, enquanto seus estaleiros lançavam centenas, se não milhares de veleiros, inventores ingleses criavam a magia da máquina a vapor. A instalação de máquinas a vapor nas embarcações resultou, é claro, na substituição dos veleiros pelos navios a vapor. E qual é o carvão mais eficiente para geração de calor? É o carvão betuminoso especial do País de Gales, Grã-Bretanha. Navios a vapor e carvão fizeram com que Império Britânico avançasse mais outros 150 anos. Uma ótima coincidência para o império e seus habitantes.Neste momento podemos estar diante de uma coincidência global de longo prazo, embora num formato muito diferente, já que, uma vez que as tendências geopolíticas comparáveis que aqui descreverei indicam uma situação de perder ou ganhar em lugar do cenário de ganhar e ganhar descrito acima. Essas tendências apontam para um aprofundamento da inter-relação entre petróleo (ou energia) e alimentos no nosso sistema internacional do século 21.A primeira é a tendência para preços do petróleo mundial significativamente mais altos agora, e muito provavelmente no futuro, do que estavam há 10 ou 20 anos. As razões para tanto são conhecidas: há um maciço aumento na demanda por energia da parte das grandes economias asiáticas, principalmente da China e da Índia, acrescido da incapacidade das nações mais ricas (Estados Unidos, Japão, Europa) de reduzirem seu nível de consumo, a não ser em pequenas quantidades.Mas um artigo publicado em 9 de dezembro de 2007 no New York Times ressalta que essa tendência está sendo exacerbada pelo consumo ascendente e esbanjamento de gasolina nos países exportadores de petróleo. Se você está sentado em cima de um lago de petróleo, por que não desfrutar disso?No momento, a gasolina na Arábia Saudita e no Irã custa de US$ 0,30 a US$ 0,50 o galão (3,78 litros) e na Venezuela, ridículos US$ 0,07 o galão. O único problema - e um problema potencialmente catastrófico - é que alguns desses países estão desperdiçando seus bens tão rapidamente que podem acabar precisando importar petróleo num futuro não muito distante. Isso já está acontecendo na Indonésia e pode acontecer no México dentro de uns dez anos, segundo muitos especialistas em energia. Infelizmente, o problema não será somente deles.Com o petróleo a preços muito altos, naturalmente que as pessoas estão sendo conduzidas a fontes alternativas de energia, das quais a atual favorita é o etanol produzido de cana-de-açúcar (principalmente no Brasil) ou de milho (principalmente nos Estados Unidos). À medida que mais e mais hectares no Meio-Oeste americano estão sendo convertidos em plantações de milho, a produção de outras culturas vai sendo reduzida, como a de soja, por exemplo.No entanto, a demanda global por soja está de novo numa espiral ascendente, principalmente devido ao aumento de consumo na Ásia. As dezenas de milhões de porcos da China devoram uma quantidade enorme de farinha de soja por ano. E os preços estratosféricos da soja que impulsionam o rendimento dos agricultores de Estados como Iowa, como ressaltou John Authers recentemente em seu excelente artigo Long View, no Financial Times de 8 de dezembro, poderão fazer muito mais em favor da globalização do que alguns candidatos à presidência possam supor. Será que essa alta no preço - e os preços futuros da soja estão 80% mais altos este ano em relação ao ano passado - deve durar? Ninguém pode ter certeza disso, mas o aumento contínuo da população mundial e a alta do rendimento real de mais de 2 bilhões de pessoas num passado recente certamente vai se traduzir numa demanda ainda maior por proteína no mundo - mais carne de gado, mais carne de porco, mais frango, mais peixe - e, portanto, mais cereais para alimentar esses animais. Como se não tivéssemos o bastante para nos preocupar, a Economist transmitiu uma mensagem inequívoca num artigo altamente detalhado, esplêndido e muito assustador intitulado O Fim da Comida Barata. O artigo começa remontando ao índice alimentos-preços de 1845 em meio ao debate sobre a abolição das tristemente famosas Leis do Milho (tarifas agrícolas) na Grã-Bretanha. Esse índice está mais alto que nunca nos seus 162 anos de existência, com perspectivas realmente melancólicas para os pobres urbanos do mundo, mas também com benefícios financeiros para os agricultores. Se os líderes da República Popular da China pretendem atender à demanda de seus 1,4 bilhão de consumidores cada vez mais ambiciosos, então sua necessidade de encontrar mais fontes fora da própria China - mais petróleo, mais gás, mais alimentos, mais madeira, mais ferro, aço, zinco e cobre - manterão altos os preços das commodities globais. Será interessante observar como essa crescente dependência afetará a política externa da China. Será que o país vai se tornar mais e mais um participante mundial, compartilhando o ônus, mais e mais um país em busca da estabilidade - do que um forasteiro ou franco-atirador? Ou será que a China vai sentir, como muitos países ascendentes de séculos anteriores, que precisa depender principalmente da própria força para se garantir? (Ninguém deve esperar ver a expansão naval chinesa diminuir nos anos vindouros, pois uma frota crescente deve acompanhar um comércio crescente.) E os Estados Unidos? Aqui está o que eu quis dizer acima quando me referi a um cenário de ganhar e perder. O consumo contínuo de altos níveis de petróleo não é bom para os americanos do ponto de vista estratégico e econômico, agora que eles se tornaram tão dependentes de fontes externas de suprimento. Isso prejudica a balança de pagamentos, enfraquece o dólar e faz com que os Estados Unidos fiquem vulneráveis a ameaças reais ou até imaginárias de um colapso nos oleodutos ou nas rotas marítimas de suprimento. Talvez os leitores possam apontar outras commodities, mas minha pressuposição é que o petróleo seja o ponto mais sensível de dependência externa dos Estados Unidos. Por outro lado, as tendências do preço global dos alimentos e da produção agrícola apontam para uma força duradoura. Na época de alimentos a preços baixos (as últimas décadas), uma vasta área de terra arável americana foi licenciada, posta fora de produção. Boa parte dessa terra pode ser revertida para a plantação de milho, trigo, soja e até para a dispendiosa criação de gado e porcos. Então, num mundo altamente mutável, louco e confuso, os Estados Unidos podem ao mesmo tempo ser prejudicados por sua crescente dependência da energia, mas também ganhar uma vantagem internacional por meio de sua posição natural de vasto celeiro mundial.O mundo aprendeu muito coisa sobre a relação "alimentos por petróleo" que manchou o nome das Nações Unidas durante alguns anos. Mas eis um aspecto mais interessante, mais amplo e mais duradouro das relações entre essas duas commodities, ambos tão vitais para a condição humana. É claro que não é o caso de que a maioria de nós enfrente a escolha entre o pão e o petróleo, embora centenas de milhões de pobres do mundo provavelmente façam essa escolha. O que sugere é que, nas décadas vindouras, as nações do globo venham a desenvolver uma apreciação cada vez maior por commodities como cereais, água limpa e petróleo. Aqueles países que têm tudo isso se darão bem. Aqueles que tiverem poucos desses recursos enfrentarão um futuro melancólico. E aqueles que, como os Estados Unidos, têm tanto pontos fortes como deficiências, estarão sujeitos a ter uma época difícil pela frente. *Paul Kennedy é professor de história e diretor de Estudos de Segurança Internacional na Universidade Yale. Seu livro mais recente é The Parliament of Men, sobre a ONUQUARTA, 2 DE JANEIROBateu nos US$ 100Pela primeira vez, o barril de petróleo atingiu a marca de US$ 100 na Bolsa de Mercadorias de NY. A alta teve a ver com crises políticas, como as do Paquistão e Quênia, e ao rigoroso inverno norte-americano. No final do pregão a cotação caiu para US$ 99,62.{TEXT}

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.