Eric Thayer/Reuters
Eric Thayer/Reuters

Philip Roth é desmascarado em nova antologia de textos sobre literatura

‘Por Que Escrever’ reúne conversas e ensaios do autor norte-americano, morto em maio de 2018

Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

05 de março de 2022 | 16h00

Philip Roth morreu em 2018, aos 85 anos, aclamado como o maior romancista americano. Tinha pendurado a pena seis anos antes, decidindo que já fizera sua parte. E que parte: 31 livros, dos quais 27 de ficção, vira e mexe protagonizados pelo alter-ego do autor, Nathan Zuckerman – sem falar de Operação Shylock, em que um narrador chamado “Philip Roth” confronta alguém fingindo ser... Philip Roth

O escritor embolsou os prêmios Pulitzer e Man Booker International, venceu o National Book Circle Award e o National Book Award, e foi homenageado com a National Medal of Arts e a National Humanities Medal pelos presidentes Clinton e Obama. Barbada infalível para o Nobel de Literatura umas trocentas vezes, bateu sempre na trave – azar do Nobel. 

Em 2012, já sentindo aquele bafo patibular no cangote, Roth escolheu Blake Bailey para biógrafo autorizado. Bailey fora finalista do Pulitzer pela sua biografia do grande contista John Cheever. Roth confiou-lhe 300 caixas de correspondências. Um proverbial mulherengo, o autor fez um pedido ao biógrafo: “Não transforme isso na história do meu pênis”. E uma sugestão: “Concentre-se nas minhas obras, não em fofocas. Não quero que me reabilite. Apenas me torne interessante.” Três anos depois ficou pronta a biografia monumental, de 800 páginas. O livro descreve as campanhas de Roth em favor de autores dissidentes atrás da Cortina de Ferro, e suas amizades competitivas com Saul Bellow, John Updike e William Styron

A roupa suja mais encardida já tinha sido lavada em praça pública nas memórias da atriz Claire Bloom, ex-esposa de Roth, sugestivamente intituladas Leaving a Doll’s House (Deixando uma Casa de Bonecas). Bloom espinafra o ex do primeiro parágrafo ao ponto final, incluindo sua ameaça biruta de multá-la em US$ 62 bilhões durante o divórcio. 

Houve inúmeras biografias anteriores de Philip Roth e ele deu sua versão: The Facts (1999) E ainda houve romances de ex-amantes nos quais ele é ficcionalizado, como o galante escritor Jack Sprat em The Furies, de Janet Hobhouse, e o decrépito Ezra Blazer em Asymmetry, de Lisa Halliday.

Até Blake Bailey entrou na dança, acusado em 2021 por várias mulheres de assédio sexual e indefectivelmente cancelado. A agente dele deu no pé e a editora suspendeu a distribuição da biografia, que outra casa editorial acabou assumindo. Com Philip Roth a bordo, tudo é possível: a escritora Cynthia Ozick, dos píncaros dos seus hieráticos 93 anos, resenhou a biografia no New York Times Book Review e não regateou panegíricos ditirâmbicos: “Simplesmente dostoievskiana!”

Por Que Escrever, Conversas e Ensaios Sobre Literatura, que a Companhia das Letras acaba de lançar, é o último volume das obras completas de Roth, publicado pela Library of América ainda antes da sua morte. A seção II, Entre Nós, de 150 páginas, já fora publicada em um volume com esse mesmo título, em 2008. 

O resto é inédito – e esplêndido. Além da sua aptidão ficcional, a proficiência hermenêutica de Roth também era invejável (fez mestrado em Literatura Inglesa na Universidade de Chicago). Nada a ver com tantos autores contemporâneos, que parecem que escreveram muito mais livros do que leram. Há ensaios sobre a sua obra e alheias, réplicas, agradecimentos de prêmios, réquiens pela morte de amigos. 

E amigos que ficaram no quase. “Na Itália para me encontrar com Primo Levi, no outono de 1986. Ele me pareceu um indivíduo sólido e enraizado. Passamos quatro dias conversando em seu escritório em Turim e o convidei para ir aos EUA – certo de que tinha feito um novo e maravilhoso amigo. Na primavera, ele se suicidou.” Levi, que sobrevivera a Auschwitz e escrevera um dos livros supremos sobre o Holocausto, É Isto é Um Homem? O comentário de Elie Wiesel foi mais sagaz que a avaliação de Roth: “Primo Levi morreu em Auschwitz há quarenta anos”.

No ensaio magistral que abre o livro, sobre Kafka, Roth destila a sua destreza estilística: “Orelhas com o formato de asas de anjo; um olhar intenso, quase desumano, de uma serenidade assustada; cabelos negros levantinos penteados junto ao crânio. Milhares de crânios assim esculpidos foram removidos dos fornos com pás; caso tivesse vivido, o dele teria sido mais um, assim como aconteceu com o crânio de suas três irmãs mais moças. Naturalmente, pensar que Kafka poderia ter estado em Auschwitz não é mais terrível do que pensar em todos que lá estiveram. Mas ele morreu bem antes do Holocausto. Caso estivesse vivo, talvez tivesse escapado com seu bom amigo Max Brod, que se refugiou na Palestina, adotou a cidadania israelense e lá morreu em 1968. Mas Kafka escapando? Parece de certo modo improvável para alguém tão fascinado pelas armadilhas que terminam com uma morte angustiada”. Em 2005, no dia que Newark (terra natal do escritor) chama Philip Roth Day – 23 de outubro – foi inaugurada uma praça com o nome do autor de Pastoral Americana. Ele tascou: “Hoje, Newark é a minha Estocolmo, e esta placa é o meu prêmio.”

Por fim, no papo com Milan Kundera, que, aos 92 anos, continua na ativa, o esgar do autor checo: “A vida humana é limitada por dois abismos: de um lado, o fanatismo; do outro, o ceticismo absoluto.” Afinal, parece que a polarização esteve sempre na moda”.

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