The New York Times
The New York Times

Pianista Menahem Pressler lança novo álbum aos 94 anos

Um dos fundadores do Beaux Arts Trio mostra que ainda está na ativa

João Marcos Coelho*, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Abril 2018 | 16h00

Claude Debussy morreu em 1918, há um século. Mas sempre esteve com Menahem Pressler, o menino judeu nascido cinco anos depois em Magdeburg, em 1923. Ele já estudava piano quando assistiu aos saques e incêndios nas lojas, inclusive a de seus pais, e casas judias na tristemente célebre Noite dos Cristais de 9 de novembro de 1938, por hordas de nazistas que não foram incomodados pelas autoridades do Reich. A família viajou a Trieste poucos dias antes de a 2.ª Guerra eclodir de fato, e seu professor de piano mandou-lhe uma partitura de Reflets Dans l’Eau, a primeira das Três Imagens que Debussy escreveu em 1905, com todo o dedilhado anotado por eles na derradeira aula em Magdeburg. Debussy também era um dos compositores interpretados pelo jovem aprendiz em recital a bordo do navio que levou a família Pressler para a Palestina.

+++Compositora negra é redescoberta pelo cânone da música clássica

Depois de três anos de estudo em Tel-Aviv com Leo Kestenberg, ex-aluno de Busoni, o mestre intimou-o a inscrever-se no 1.º Concurso Internacional Debussy, nos EUA. Aos 23 anos, e tocando Debussy oito horas por dia, Menahem ganhou o prêmio, façanha que atribuiu a dicas preciosas do pianista Paul Loyonnet (como o uso diferente dos pedais, “um som misturado ao outro, ao contrário do que se fazia na Alemanha”).

+++Cérebro de pianistas reage diferente dependendo do gênero musical

O resto é história. Uma linda e gloriosa carreira, marcada pelos 53 anos do Beaux Arts Trio, (1955-2008), já tendo como violoncelista, na última década, o brasileiro Antonio Meneses. 

Mas não pensem que Pressler aposentou-se. Continua dando aulas de piano na Universidade de Indiana, apresentando-se em recitais, tocando com orquestras e gravando. Em 2011 foi nomeado professor honorário do Conservatório Central de Beijing, o maior do mundo, que possui 500 salas com piano para estudo individual do instrumento, de onde saíram estrelas como Lang Lang. Nos últimos cinco anos, gravou alguns CDs de piano solo (em 2013, emocionantes leituras da Sonata D. 894 de Schubert e das Bagatelas de Beethoven; e no ano passado outra aventura esplêndida, um CD Mozart, com direito à Fantasia K. 475 e duas sonatas. Entre um e outro, uma recaída bem-vinda na música de câmara, sua velha conhecida: comemorou 90 anos com leituras apaixonantes dos quintetos de Dvorak e da Truta de Schubert ao lado do Quarteto Ebène. E agora, aos 94, acaba de lançar um CD da Deutsche Grammophon (disponível nas plataformas digitais) que chancela sua longuíssima convivência com Debussy, intitulado Clair de Lune

Clair de Lune, ou Luar, é a melodia mais conhecida de Debussy. Num belo livro, Menahem Pressler – Artistry in Piano Teaching (Indiana University Press, 2009), William Brown dá voz a este pianista de toque refinado, que curtiu sua maestria musical no caldo raro da democracia do tocar-a-três no Beaux Arts por mais de meio século. Do Luar, por exemplo, Pressler diz que “você vê realmente a lua, você pode senti-la”. Acentua que em Debussy é única “a mágica de jogar luz de tempos em tempos”, logo nesta música cheia de sombras, claro-escuros, meios-tons. “Ao soar, a música de Debussy nos faz cheirar, sentir, saboreá-la. Tem um perfume inconfundível”.

Seu pianíssimo é quase inaudível nas primeiras notas de Clair de Lune. Você fica com vontade de aumentar o volume para ouvir melhor. Não faça isso. A mágica é justamente fazer esta música nascer do silêncio e vagarosamente nos envolver: aos 2 minutos (a peça tem 6), atinge-se a maior dinâmica, um mezzoforte. E o cantabile ondulante da sequência? Aos 94 anos, milagrosamente mantém controle absoluto sobre os dedos. Desfila sutilezas nas dez peças de Debussy que interpreta. Em todas, o tom de Clair de Lune: a primeira Arabeske, um delicado Andante con Moto; outra famosa, Revêrie; O Pastorzinho da suíte Children’s Corner; e a valsa La Plus que Lente.

As peças seguintes rememoram o concurso Debussy de 1946: cinco dos 12 prelúdios do primeiro livro. Peças que, segundo o compositor, não fariam má figura à esquerda de Schumann ou à direita de Chopin. Os títulos pelos quais são conhecidos foram colocados entre parênteses no final de cada um e constituem referências programáticas deliciosas. No primeiro, Danseuses de Delphes, evocação zen da Grécia antiga, Pressler faz uso do pedal tal como Loyonnet ensinou-lhe 72 anos atrás; no segundo, Voiles, de novo os pedais são decisivos nesta exploração da escala pentatônica (a das notas pretas no piano na escala de dó). Ressonâncias, onipresente pedal na mão esquerda, e pedal de sustentação quase embaralhando o som, mas nunca chegando a isso. 

Pressler opta pelos prelúdios enamorados pelas ressonâncias, como o conhecidíssimo La Fille aux Cheveux de Lin, e talvez o mais impressionante exemplo, La Cathedrale Engloutie, inspirada pela lenda bretã do século 4 sobre a catedral submersa por causa da impiedade de seus habitantes – de tempos em tempos, ela ressurge das águas a título de alerta aos vivos. Fechando os prelúdios, Pressler tece arabescos nas teclas como um felino no saboroso Minstrels, evocando os artistas negros de vaudeville no sul dos EUA na segunda metade do século 19. 

Outros dois franceses completam o álbum. Gabriel Fauré, do qual Debussy gostava duplamente (de sua música, que o influenciou, e de sua amante Emma Bardac, com quem casou-se e teve a filha Chou-Chou, imortalizada na suíte Children’s Corner). Pressler escolheu a 6.ª das 13 barcarolas de Fauré, preferência que nasceu de seu gosto pelos arpejos. E duas gemas de Maurice Ravel: devolve a dignidade à Pavane pour une Infante Défunte, hoje quase kitsch; e pinça Oiseaux Tristes, que compõe o ciclo Miroirs, contemporâneo do primeiro livro dos Prelúdios de Debussy, talvez porque ambos comunguem o gosto pela ressonância. De novo, impressiona o uso dos pedais por este grande mestre do piano, por incrível que pareça no esplendor de toda a sua arte. E sábio o suficiente para escolher um repertório que lhe permita desfilar a sensibilidade à flor da pele. 

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor do livro 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.