Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Pianista André Mehmari faz passeio musical pelo Brasil

Lançamentos recentes do músico vão de Villa-Lobos a Milton Nascimento, Garoto e Pixinguinha

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

11 de janeiro de 2020 | 16h00

A três meses de distância de seu 43.º aniversário, em 22 de abril, o pianista, arranjador e compositor André Mehmari, nascido em Niterói, criado em Ribeirão Preto e hoje paulistano assumido, vive seu momento de maturidade artística. Suas experiências musicais sempre foram caleidoscópicas. Transita com igual desenvoltura, compondo e tocando em salas de concertos e também nos palcos do jazz e da música instrumental brasileira e internacional. Prodigiosamente fértil, gravou e lançou quatro álbuns, um deles duplo, em 2019. Hoje representa o modelo mais virtuoso do que deve ser um compositor nestes atribulados tempos, sobretudo no Brasil, em que a arte e a cultura parecem ervas daninhas aos ouvidos do ideário oficial. 

“Mantenho-me ativo na produção para evitar a depressão, que é a tendência mais natural nos dias atuais”, diz André em entrevista ao Aliás. “A música me salva a vida e parece que de quebra faz bem para algumas pessoas que me agradecem pelo que produzo.” O Brasil te agradece, André, por aventuras como as de Engenho Novo, em que a soprano Marília Vargas interpreta canções de Villa-Lobos e Waldemar Henrique, seguindo fielmente a partitura dos compositores, enquanto o piano de André improvisa milagrosamente. Ou o álbum 40/60, em que a dicotomia se repete virtuosamente, com Antonio Meneses e seu excepcional violoncelo clássico lendo a partitura dos arranjos e composições de André, e ele mesmo, como sempre, improvisando no chamado calor da hora.

A simples listagem dos lançamentos de 2019 de Mehmari comprova sua diversificação estilística. Para ele, aliás, gêneros estanques são coisas do passado. “Existe a música comercial, de um lado; e de outro a necessária, que pratico”. O primeiro é o álbum dedicado a Milton Nascimento, Na Esquina do Clube, com o Sol na Cabeça, passeio refinado pelas composições do autor. A seu lado, os parceiros preferenciais Neymar Dias ao contrabaixo e Sérgio Reze à bateria. Não tem o disco? Vá até andremehmari.com.br e ouça Tudo que Você Queria ser/Trem Azul. André se alterna e superpõe o piano acústico com teclado eletrônico.

Em Nosso Brasil, André convida o bandolinista Danilo Brito para uma deliciosa viagem pela música brasileira, de Anacleto de Medeiros a Tia Amélia (uma de suas tantas paixões), Garoto e Pixinguinha. Pura magia. Em , André constrói arranjos ora suntuosos, ora minimalistas para as canções de uma dupla belorizontina, o cantor e compositor Alexandre Andrés e o letrista Bernardo Maranhão. As surpresas sucedem-se em cada álbum dele. Como Ligeti Lullaby, neste álbum, parceria de Mehmari com o letrista Bernardo Maranhão. Dois minutos e meio remetendo ao compositor húngaro que também transitou entre vários estilos sem preconceito (fez até um “rock húngaro”).

Não perca a conta. O último, cronologicamente, é Música para Cordas, álbum duplo primoroso do selo Sesc que reúne praticamente tudo que André compôs para orquestra de cordas, de música para balé a obras concertantes, combinando as cordas com acordeão, harmônica (gaita de boca), fagote, clarinete, harpa – e a cereja do bolo, um Concerto para Piano jazz trio e Cordas. É nesta gravação que se percebem com clareza cristalina os pressupostos da prática criativa de Mehmari. Ele brinca com a história da música, de Monteverdi a Stravinski, de Shostakovich a Villa-Lobos, com uma incrível sem-cerimônia, alegria e talento. “Conversa” com eles, faz citações, tributos e, sobretudo, sempre coloca uma marca pessoal inconfundível: a ginga inquieta que ele traz em seu DNA do gosto pelo improviso instrumental. São seis composições, nascidas como encomendas da Osesp, da extinta Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, da São Paulo Companhia de Dança, Orquestra de Câmara do Amazonas, Orquestra do Estado de Mato Grosso (que realizava um trabalho importantíssimo de fecundação entre linguagens da música clássica à europeia com as músicas de raiz do Pantanal até ser extinta numa canetada do atual governo estadual no final de 2018).

Música para Cordas não é apenas o mais encorpado álbum de André Mehmari de 2019. É um marco em sua carreira. Obras nascidas de circunstâncias e encomendas variadas foram interpretadas, pela primeira vez, por um grupo selecionado de músicos de cordas de São Paulo, capitaneados por Emmanuele Baldini, spalla da Osesp. Todos privaram da convivência no Estúdio Monteverdi, na Serra da Cantareira, onde mora Mehmari. Lá, a distância da civilização transforma-se num bálsamo que é a vida imersa na natureza. Nem falei dos solistas, também de alto nível. Nomes como o do acordeonista Christian Riganelli, do clarinetista italiano Gabriele Mirabassi e do gaitista José Staneck.

“Com o suporte do Selo Sesc”, comemora, “pude registrar da melhor maneira essa música, gerando uma gravação de referência para aqueles que por ventura um dia quiserem tocar essas obras. Interessante que neste caso o compositor teve controle de todo o processo: da criação ao produto final. Pude escolher os músicos ao lado do Emmanuele Baldini, que fez a direção musical, gravar, mixar e finalizar o disco no estúdio que eu desenhei, escolhi cada microfone… é um aspecto interessante. O Estúdio Monteverdi é resultado de duas décadas de estudos e investimentos. Agora tenho os meios ideais de produção para criar sem depender de fatores externos, e sabemos que não são propícios os tempos.”

Falei que, ao compor, ele brinca de modo genial com a história da música. A palavra é esta mesmo, como conta ao Aliás: “Gosto de estar arrodeado de instrumentos que são testemunhas da história da música. Isso me inspira, estimula. Minha inquietude musical com o tempo só ‘piora’, ou melhora? Não sei, mas é assim que funciona para mim, é o motor que me mantém em movimento. Quanto mais estudo, procuro, aprendo, mais vejo que a música é infinita e eu um pequeno aprendiz”.

Não é à toa que brinca como um menino, pulando de alegria ao mostrar aos visitantes seu Estúdio Monteverdi. André anuncia no Facebook cada novo instrumento que compra para enriquecer o acervo do estúdio. E cada um deles – pode ser uma trompa, um violoncelo – é devidamente tocado, “dominado” por ele. Apesar de ter estudado no Departamento de Música da ECA-USP, André se diz “autodidata”, justamente neste sentido de fazer das descobertas pessoais seu norte, sempre em busca de novos timbres, novas sonoridades.

Assim, na Ballo Suíte para Cordas, diz Mehmari, “é como se Monteverdi fosse o mestre de danças, o mestre de baile, e convidasse uma série de outras músicas, de outras estéticas, a bailar com ele”. Finas miscigenações e uma escrita impecável para cordas. Em Shostakovitchiana, de 2006, para cravo e cordas, o toque arcaizante fica por conta do cravo, mas André contrabandeia outro significado ao citar o célebre Quarteto de Cordas n.º 8 de Shostakovich, composto oficialmente em tributo às vítimas da 2.ª Guerra Mundial – mas nas internas corria a versão de que ele “chorava” mesmo as milhões de vítimas de Stalin, lamento que Mehmari transfere explicitamente às vítimas da ditadura militar brasileira no subtítulo da obra. Se você souber disso, ótimo, injeta mais adrenalina na escuta, mas não é necessário conhecer estes detalhes para se encantar com a suíte. As três peças concertantes do segundo CD do álbum contrapõem as cordas, sucessivamente, ao acordeão e clarinete em Strambotti, em que Mehmari faz um maravilhoso tricô musical com o Antonio Vivaldi das Quatro Estações. No Inverno, chama o Villa das Bachianas Brasileiras para brincar com o prete rosso. Outra gema é o Concerto para Fagote, Harpa e Cordas, onde brilham respectivamente Fábio Cury e Paola Baron. Carinho especial André tem mesmo é pelo Concerto para Piano Jazz Trio e Cordas, encomendado por John Neshcling em 2008 e estreado com as cordas da Osesp na Sala São Paulo. “É uma peça difícil”, diz. “Tecnicamente, trabalha com uma métrica pouco usual, de 7 ou 11 tempos. Trata-se de uma obra construída inteiramente em cima do pedal de lá bemol. O pedal está ali como um norte, e muitas vezes a ausência fala mais sobre ele do que a própria presença”. Chama, sem-cerimônia, o segundo movimento de Monteverdi Blues – com certeza, o compositor-farol da vida deste notável artista, músico excepcional que nos dá o privilégio de compartilharmos com ele, em primeira mão, suas maravilhosas aventuras musicais.

*JOÃO MARCOS COELHO É CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO 21’ (EDITORA PERSPECTIVA)

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