Pico de congestionamento

FREDDIE WILKINSONTodas as escaladas de montanha contêm um elemento de risco. A maneira escolhida pelo alpinista para enfrentar esse risco, usando uma soma de forças físicas, mentais e emocionais à sua disposição, é o desafio básico da aventura. No melhor dos casos, o montanhismo recompensa a tomada de decisões ágeis e independentes.

, THE NEW YORK TIMES , KATMANDU, NEPAL , FREDDIE WILKINSON É GUIA, , ESCRITOR, ALPINISTA , O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h08

Infelizmente, os fatos ocorridos do lado sul (nepalês) do Monte Everest nesta temporada sugerem que, enquanto os riscos inerentes à escalada de uma montanha jamais foram tão grandes, a grande maioria de alpinistas que escala o Everest está cada vez mais distanciada desse processo de tomada de decisão. Duas tendências que se cruzam são as responsáveis por isso: o número crescente de pessoas tentando escalar a montanha e os efeitos cumulativos do aquecimento global, que lenta, mas persistentemente, está produzindo uma seca no Himalaia, e o resultado são as quedas de rochas, as avalanches e as icefalls (blocos gigantes de gelo que se desprendem dos glaciares).

O grande número de pessoas desafiando o Everest - nesta temporada, aproximadamente 750 alpinistas estrangeiros e sherpas locais, de 32 expedições -, levou à criação de um sistema em que toda a rota da escalada passou a ter apoio. Em cada mês de abril, cerca de nove quilômetros de cordas são colocados no caminho de subida da montanha, seguros por centenas de pinos e grampos fixados no gelo. Escadas de alumínio são usadas para se atravessar gretas mais largas.

A principal organização responsável por essa trilha artificial é o Sagarmatha Pollution Control Committee, uma entidade de alpinistas profissionais sherpas conhecidos como icefall doctors. Apesar de as decisões importantes serem tomadas por consenso entre os líderes das expedições, e com frequência guias e voluntários ajudam a manter essa rota, uma grande maioria de alpinistas simplesmente inicia a escalada da montanha e vai até onde a corda os leva.

A rota clássica do sul, inaugurada pelos britânicos em 1963, segue o Western Cwm, um vale natural, e os riscos de queda estão presentes em grande parte do caminho. Os alpinistas enfrentam dois desafios conhecidos: a Khumbu Icefall, ou Cascata de Gelo de Khumbu, e a Face de Lhotse.

Nesta temporada, dificultada pelas condições de seca, a montanha está perigosamente viva. Na semana passada um deslizamento de rochas na Face de Lhotse resultou numa meia dúzia de pessoas com ferimentos graves e uma quase desaparecida quando uma devastadora avalanche se abateu entre os campos 1 e 2, ribombando pelo vale e destruindo a trilha. "Em certos momentos durante o dia há mais de 50 pessoas nesta trilha", observou o escritor Mark Jenkins, numa mensagem da montanha para o website da National Geographic.

Os alpinistas citam dois tipos de riscos: objetivos e subjetivos. Os subjetivos são aqueles potencialmente administráveis com habilidade e experiência. Os riscos objetivos são fenômenos como avalanches e quedas de blocos de gelo que se desprendem das geleiras. Aí, não importa quem você é, apenas que está na hora errada no lugar errado. Raramente essa última situação vem ocorrendo com muito mais frequência que a primeira. Embora houvesse algumas queixas no acampamento de base de que talvez uma rota mais segura fosse possível através da icefall, mais para o centro da formação, e as balisas da Face de Lhotse tivessem sido movidas mais para o lado em resposta aos intensos deslizamentos de rocha que estavam castigando o caminho normal, muitos alpinistas parecem ter aceito esses riscos como inevitáveis. No final, os montanhistas têm uma última opção: simplesmente não estar lá.

No último fim de semana, Russell Brice, proprietário e operador da Himalayan Experience, uma das maiores e mais respeitadas operadoras de viagens ao Himalaia, informou um grupo de mais de 60 clientes, guias e membros alpinistas sherpas que estava cancelando as atividades pelo resto da temporada. Em seu website, ele foi sucinto: "Mantive uma longa e séria conversa com os sherpas, os icefall doctors e meus guias e decidimos cancelar a expedição. Não podemos mais assumir a responsabilidade de enviar você, os guias e os sherpas pelas perigosas cascatas de gelo e escalar a Face de Lhotse dominada pelos deslizamentos de rochas".

A temporada de escaladas de verão no Everest, que vai da segunda semana de maio até o final de junho, está aí. O mundo provavelmente ouvirá falar, logo mais, em novos grandes triunfos no pico, como também de possíveis grandes calamidades. É hora de pensar na decisão mais inteligente da temporada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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